Novo Wrexham? A história do Wakefield, clube inglês comprado por brasileiros que sonham alto

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Dois empresários compram um clube na Inglaterra, equalizam as contas, sobem de divisão de forma emocionante e conseguem um estádio para jogar. Tudo isso em apenas um ano. Parece até roteiro de filme, ou melhor, série (alou Wrexham F.C.). Mas essa é a história dos brasileiros Guilherme Decca e André Ikeda com o Wakefield AFC, time da cidade de mesmo nome localizada em uma região metropolitana de 340 mil habitantes.

Natural de São Paulo e torcedor são-paulino, Decca se apaixonou pelo futebol inglês na Copa do Mundo de 1990. Já adulto, acabou entrando no mercado financeiro e fundando a  VO2 Capital, empresa de soluções de gestão de patrimônio com ênfase em investimentos imobiliários nos Estados Unidos.

Mas Decca também morou em Londres e sempre frequentou jogos de segunda a quarta divisão do Campeonato Inglês por admirar a cultura comunitária e menos corporativa das ligas inferiores, o que também não o impediu de frequentar jogos do Fulham e do Chelsea na Premier League.

Com o sucesso empreendedor, Decca viu a oportunidade de assumir um clube europeu. Após convencer André Ikeda, surgiram opções de comprar times de divisões menores da Itália e de outros países, mas nada que convencesse os brasileiros a investir. Até que passaram a olhar para a Inglaterra, onde encontraram o Wakefield AFC.

– Eu trabalho com finanças, mas sempre amei futebol, muito mais pelo lado administrativo. Eu jogava bola, mas sabia que não era bom para ser jogador. Eu sempre fiquei muito curioso com o fato de que tem time que consegue achar jogador melhor que os outros, porque tem time que consegue administrar melhor do que o outro, porque tem time que ganha sempre e outro que não ganha nunca. Dinheiro é uma parte, mas tem time que está cheio de dinheiro e não ganha nunca, como o Manchester United após Alex Ferguson – conta Decca.

A cidade de Wakefield

Wakefield é a maior cidade da Inglaterra sem um clube profissional de futebol. Decca e Ikeda encontraram o time “na baixa”, sem estádio para jogar e cheio de dívidas. Mas os brasileiros viram na equipe uma oportunidade de testar algumas teorias de empreendimento no esporte para garantir sucesso.

Em 18 meses, o Wakefield AFC subiu da 11ª para a 10ª divisão, equalizou as contas e conseguiu uma arena para jogar. 

A mudança de nome do clube inglês e o início da trajetória

Antes de se chamar Wakefield AFC, o time chamava-se Emley FC. A mudança de nome e das cores veio no início dos anos 2000, com a equipe migrando de um vilarejo para a cidade metropolitana. Em 2014, o clube teve sérios problemas financeiros e veio à falência.

Em 2019, os brasileiros estudaram a possibilidade de investir no clube. Fecharam o acordo em 2021 e tomaram o controle do time em janeiro de 2022. Logo de cara, mandaram o técnico que estava embora e contrataram um treinador brasileiro que estava no juvenil do Queens Park Rangers chamado Gabriel Mozzini.

No primeiro ano, o Wakefield AFC foi promovido da 10ª para a nona divisão do Campeonato Inglês. Na última temporada, a equipe chegou aos playoffs, mas acabou perdendo para o Rossington Main FC e não alcançou o acesso para a oitava divisão.

O time do Wakefield
O time do Wakefield. Foto: Wakefield/Twitter

– Temos que sair dessa liga agora no próximo ano, sem dúvida é o nosso objetivo. A gente está montando um time bem forte para tentar ser promovido. Não será fácil, como nada no futebol é, vimos isso esse ano. Mas temos um orçamento para ficar bem forte nas próximas duas temporadas. Então, até a gente chegar na National League North, eu acho que a gente sempre vai ter um dos melhores times – diz o dono do Wakefield AFC.

Além de dono, Decca é diretor de futebol do Wakefield AFC e conta com um time administrativo para preparar a logística dos jogos, venda de ingressos e camisas. Ele costuma ir à Inglaterra de quatro a cinco vezes por ano para saber como estão as coisas no clube. O outro dono do time, Ikeda, cuida da análise de desempenho acompanhado de mais uma pessoa. 

– Demos uma bela reestruturada financeira no clube. Cortamos despesas em 50% e, ao mesmo tempo, aumentamos o orçamento para jogadores. Crescemos a receita comercial em quase 400% e acho que esse ano a gente consegue dobrar de novo para a próxima temporada — comenta.

A ideia dos brasileiros é ter um time profissional na maior cidade da Inglaterra.

Para isso, precisa saltar mais três cinco e alcançar a National League. Decca e Ikeda confiam que Wakefield AFC tem um enorme potencial de engajamento justamente pelo tamanho da população da cidade.

– Poderíamos ter investido em qualquer outro clube, mas é que esses clubes estão em cidades com 10 mil ou 5 mil pessoas. Wakefield tem 110 mil pessoas na cidade e 300 mil pessoas na região metropolitana. Então, tem tem público para a gente conseguir gerar a participação. O que a gente precisa fazer agora é gerar demanda e para gerar a demanda tem que ganhar né? – explicou Decca.

A nova casa do Wakefield

Decca conta que quando assumiu o Wakefield AFC, pegou o time todo endividado. Uma das situações malucas que o antigo dono deixou foi com o estádio. O time pagava um aluguel muito caro para jogar numa arena localizada em um distrito. Os brasileiros, porém, viram uma forma mais viável de mandar seus jogos.

Existe um estádio no meio da cidade que era da prefeitura e que o principal time local de rugby usa. O dono da equipe de rugby não se dava bem com o antigo proprietário do Wakefield AFC. Porém, os brasileiros construíram uma boa relação com a equipe do mesmo município e conseguiram que as portas do estádio fossem abertas para o clube de futebol.

A primeira partida do Wakefield AFC na sua nova casa será no dia 2 de julho, contra o Hallam FC, segundo time mais antigo do mundo. A arena com capacidade para 8 mil pessoas, tem mais de 150 anos, está passando por uma renovação no valor de 15 milhões de dólares e recebe um gramado híbrido, assim como é utilizado no centro de treinamento do Manchester City. O estádio está localizado no meio da cidade, perto dos pubs e do transporte, o que vai atrair muito mais público para as partidas.

– A gente está num estádio também que o maior clube de rugby da região também joga, então tem muitos dos fãs deles que vão começar a vir para o nosso jogo também. A gente acha que agora esse movimento do estádio é super importante, fora que a gente fez um plano comercial muito melhor para o clube, o anterior é um de aluguel e agora a gente ganha percentual de bebida, comida. Então pagamos muito menos para jogar ainda temos outras receitas no dia de jogo que a gente não tinha antes – afirma Decca.

Corneta dos fãs

Torcedores do Wakefield
Foto: Divulgação/Wakefield

Algo comum no futebol brasileiro é a corneta dos torcedores e na Inglaterra não é diferente. Nas redes sociais, o Wakefield AFC tem um grupo de 8 mil pessoas no Facebook, sendo mais de 6 mil fãs da cidade. Fanáticos, os membros da torcida fazem pressão pelas redes sociais, questionando escalação, compra e venda de jogadores.

Mas ao vivo a história é diferente. Como foi promovido no primeiro ano e no segundo chegou aos playoffs, o envolvimento dos torcedores com os donos é muito cordial.

– O pessoal acompanha muito o que está rolando de perto e tem muita expectativa em relação ao time, porque é uma cidade grande. Eles veem que é a chance de ter um time profissional agora. Então eles querem muito que dê certo, então é muito positivo, mas futebol é resultado, né? A pressão é bem maior do que eu imaginava. Se perde dois ou três jogos seguidos, a pressão já sobe – comenta Decca.

No começo, os torcedores do Wakefield AFC torceram o nariz para Decca e Ikeda, mas porque pensavam que eram investidores americanos. Mas, quando descobriram que são brasileiros, a relação ficou mais fácil, graças à imagem do Brasil com o futebol, que está abalada agora, mas que possui um crédito enorme.

– Baixaram um pouco a guarda quando viram que somos brasileiros, por conta da reputação do Ronaldo, Romário, Pelé. Fora que tem muito jogador brasileiro bom na Inglaterra. Mas o que nos ajudou muito foi que a gente salvou o clube, né? Com o balanço negativo, se a gente não tivesse entrado, simplesmente não existiria mais o clube. Mas eu falo com o Gabriel e com o André que essa lua de mel dura mais um ano no máximo. Daqui um ou dois anos ninguém lembra que a gente salvou o clube. Se não tiver ganhando vai tomar porrada também, né? – conta Decca.

Enredo de série

O futebol inglês se tornou um ótimo cenário para séries de televisão. “Ted Lasso”, “Bem-Vindos ao Wrexham” e “Sunderland: Til I Die” são exemplos de sucesso. A história do Wakefield AFC com os brasileiros também daria um ótimo roteiro para um seriado, principalmente levando em consideração as dificuldades do clube e o acesso para a nona divisão logo no primeiro ano com a nova gestão brasuca.

– A gente se arrepende de não ter feito (uma série) no primeiro ano, porque compramos o clube e o antigo dono tinha feito fraude nos números. Passamos muitos apuros para ser campeão, ser promovido e mudar de estádio. Eu acho que é uma história que as pessoas iriam gostar de acompanhar. Foi a coisa mais louca que eu já passei na minha carreira. Pensava “o que eu estou fazendo? “Por que a gente foi fazer isso?” – conta Decca.

A história poderia ficar ainda mais bonita com o acesso para a oitava divisão na última temporada, mas como toda série, o Wakefield AFC também viveu seu drama de ser eliminado nos playoffs. 

– A gente deveria conseguir chegar lá, porque esse ano a gente tinha o melhor time. Se você pegar os jogadores do nosso time contra o outro que a gente perdeu na semifinal, de 11, nove nossos eram melhores. Mesmo assim perdemos e merecemos perder, porque faltou intensidade – diz o proprietário do Wakefield AFC.

O futebol não tem garantia. Um time pode ter os melhores jogadores que ainda pode perder. Ainda mais na Northern Counties Eastern League em que só é promovido automaticamente o campeão da liga.

– Se fosse como no futebol profissional, em que os dois primeiros são promovidos e o terceiro vai para os play-offs, a gente teria sido promovido esse ano, tenho certeza. Como só o campeão vai, às vezes você tem contusão, você pega uma fase ruim, aí já complica a temporada. Mas o nosso objetivo é chegar até a National League North razoavelmente rápido– opina o co-proprietário do Wakefield AFC.

Técnico brasileiro e filosofia “Football Manager”

Uma das razões para Decca e Ikeda terem investido em divisões menores na Inglaterra é a possibilidade de testar algumas teorias de scouting que eles tinham e de desenvolver jogadores. A média de idade do elenco do Wakefield AFC é inferior a 22 anos. O plantel conta com três jogadores do Leeds sub-19 e dois do Doncaster Rovers sub-19, além de Romário Vieira, que chegou a ir para o banco do Leeds na Premier League. 

Além do potencial de revenda, o Wakefield AFC gosta de investir em jogadores jovens pela filosofia que o clube quer adotar. Nas divisões inferiores da Inglaterra, o estilo de jogo é bem diferente do que se vê na Premier League. O que se vê em campo ainda é muita bola longa, gol de rebote e batalha física na maior parte do jogo. Decca, porém, queria fazer algo diferente e que sua equipe apresentasse um futebol mais vistoso.

– O exemplo que eu sempre uso é o da Irlanda na Euro de 1988 ou na Copa de 1990. 4-3-3, bastante intensidade física, bola nas costas do zagueiro, pressionar o zagueiro para ver se eles cometem um erro e você recupera a bola lá na frente, né? É mais fácil a gente pegar um cara que estava no Leeds, que aprendeu a vida inteira jogar bola, do que pegar um cara de 27 anos que passou a vida inteira jogando acostumado com batalha, bola longa e gol de rebote. É muito difícil implementar o esquema que a gente quer jogar com esse tipo de jogador – conta Decca.

Foi por essa razão que Decca e Ikeda contrataram um treinador brasileiro. Gabriel Mozzini foi trazido do Queens Park Rangers com a missão de implementar um jogo de intensidade, pressão na bola e manter a posse. O técnico conseguiu mudar a filosofia do clube, porém o time não teve uma atuação como de costume e por isso ficou de fora da final dos playoffs da Northern Counties East Football League.

– Fomos muito mais passivos, recebemos muito mais pressão e saímos no contra-ataque. Tivemos muito pouco posse de bola nas últimas rodadas da temporada, um pouquinho por contusão, um pouquinho por mudança de filosofia para garantir o resultado no playoff, mas vimos que não dá certo, porque a gente não tem um elenco para ficar ganhando dividida e ganhando bola aérea. Então, a gente já contrata todo o elenco baseado na forma que a gente quer jogar – continuou o dono do Wakefield AFC.

Gabriel Mozzini, técnico do Wakefield
Gabriel Mozzini, técnico do Wakefield | Foto: Divulgação/Wakefield AFC

A contratação de Gabriel Mozzini foi ousada. Geralmente, equipes de divisões anteriores da Inglaterra preferem investir em um centroavante, zagueiro ou meio-campista para vencer duelos aéreos e no chão. Guilherme Decca acredita que é preciso construir uma filosofia de jogo, ainda que para alguns pareça mais viável ser promovido do que desenvolver jogadores. 

– Sem dúvida é um argumento válido, mas a gente quer um plano de cinco a 10 anos. Não adianta você ganhar dois acessos rápido aí não tem o elenco que a gente quer e não está implementando a forma que a gente quer jogar. Eu sou são paulino. Se não, vira que nem o São Paulo. Em 12 anos, 24 técnicos. Fica trocando e ninguém nem mais sabe o que você quer, né? – brincou Decca.

SAF no Brasil

Assim como Decca e Ikeda fizeram no Wakefield AFC, alguns estrangeiros fizeram com clubes brasileiros, após a institucionalização da Sociedade Anônima de Futebol (SAF). O Botafogo foi vendido a John Textor, que também é dono do Crystal Palace. O Vasco é de propriedade da 777 Partners, que está interessada em comprar o Everton. E o Cruzeiro foi comprado por Ronaldo Fenômeno, que também é proprietário do Real Valladolid.

A SAF é tratada no Brasil como uma grande solução para os clubes que estão quebrados. Um time que está afundado em dívidas tem um dono para sanar todas pendências e construir um projeto. No papel, a ideia parece perfeita, mas na prática é preciso tempo para ver no que vai dar.

777 Partners tem acordo com o Vasco no Brasil - Reprodução/@VascodaGama
777 Partners tem acordo com o Vasco no Brasil – Reprodução/@VascodaGama

Com a experiência com o Wakefield, Decca vê com preocupação algumas vendas de clubes para investidores estrangeiros. Isso porque apesar de muitos times parecerem extremamente atraentes, eles são acompanhados por dívidas. No Brasil, o juro está em 12% ao ano, entre processo trabalhista, dívida no banco, dívida com o governo e de IPTU, o que faz o valor disparar.

– Eu acho que já tiveram alguns negócios interessantes e tem alguns negócios que eu olho os números e me pergunto como que isso vai funcionar para quem está investindo, não vai funcionar nunca. Uma coisa é o Flamengo com R$ 500 milhões de dívida. É ruim, mas dá para negociar e começar a pagar. Agora, tem time com R$ 300 milhões de reais em dívida na Série B. Sem você diminuir esses passivos é difícil você acreditar que esses clubes algum momento vão virar bons negócios, a não ser que tenha alguém entrando com dinheiro e está afim de fazer isso – opinou Decca.

Decca ainda duvida que alguns times gigantes do Brasil vão virar SAF, apesar de acreditar que deveriam. Muito disso se deve à resistência da torcida e das pessoas envolvidas em verem o clube sendo propriedade de um investidor estrangeiro.

– Tenho minhas dúvidas se alguns dos times que são realmente grandes vão virar SAF, até deveriam virar eu acho. Eu custo acreditar que o Corinthians em algum momento vai virar SAF ou Flamengo vai virar SAF e vender para um estrangeiro. Acho muito difícil. Acho que tem uma resistência muito grande da torcida, com razão, porque se você pegar um dono errado é pior do que já era – afirma.

Decca conta que tem muitos casos em que a venda do clube para um investidor deu errado, como exemplo o Cardiff City, da Championship, que foi comprado por investidores da Malásia e mudaram a cor e o escudo do time. “Às vezes parece que é a salvação e é só mais uma pedalada que acelera mais o declínio ainda, né?”, diz.

Sobre a possibilidade de Decca e Ikeda investirem no Brasil, a possibilidade é pequena. Decca conta que já foram convidados, mas que a vontade dos donos do Wakefield, na verdade, é usar a experiência que têm para ajudar a reestruturar um time, mas não como proprietários do clube. Mas, o coproprietário acabou deixando uma pista ao final da fala.

– Eu sempre fico brincando. Minha família torcia para o Guarani. Quem sabe surge alguma coisa em Campinas para a gente dar uma brincada – declara.

Romulo Giacomin
Romulo Giacomin

Formado em Jornalismo na UFOP, passou por Mais Minas, Esporte News Mundo e Estado de Minas. Atualmente, escreve para a Premier League Brasil.