Willian fala sobre brilho na Premier League, saída do Corinthians e garante: ‘Brasil nunca mais’

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Aos 34 anos, Willian Borges da Silva não se cansa de escrever mais capítulos de sua história na Premier League. Depois de jogar oito temporadas na Inglaterra — sete pelo Chelsea e uma pelo Arsenal –, a trajetória do brasileiro na liga mais badalada do mundo parecia encerrada quando ele resolveu voltar para o Corinthians, em 2021. No entanto, uma rescisão surpreendente com o clube que o criou o levou de volta para Londres para a temporada 2022/23, na qual joga pelo Fulham.

A volta valeu a pena para os envolvidos. Os Cottagers têm em Willian uma das referências na melhor temporada recente da equipe na elite, onde ocupa o 10º lugar e chegou até a sonhar com vagas nas competições europeias — algo incomum para um time rebaixado duas vezes nos últimos cinco anos.

A nona temporada na Premier League permitiu a Willian se tornar o brasileiro com mais jogos na liga (282), além de ser o quinto maior artilheiro entre representantes do país, com 41 gols.

O momento de Willian no Fulham, ao lado dos compatriotas Andreas Pereira e Carlos Vinícius, sob o comando do português Marco Silva, foi um dos temas da entrevista exclusiva que o meia deu à PL Brasil.

Em conversa por videoconferência na tarde de quinta-feira (4), um dia depois da derrota do Fulham para o Liverpool por 1 a 0, em Anfield, Willian falou diretamente de sua casa, em Londres, onde se mostrou confortável para tocar em assuntos delicados de seu passado recente.

Nesta entrevista exclusiva com Willian, você também vai ler sobre:

  • O futuro do meia-atacante, que está em fim de contrato;
  • Possibilidade de volta ao Brasil;
  • Detalhes sobre saída atribulada do Corinthians;
  • Premier League x futebol brasileiro;
  • Ausência de treinadores brasileiros na Inglaterra e Fernando Diniz;
  • Seleção Brasileira.

Confira abaixo a primeira parte da entrevista. A segunda parte estará disponível na segunda-feira (7).

“A pressão no Brasil é desumana.”

PL Brasil: Tanto você quanto o seu companheiro de clube, Andreas Pereira, deixaram o futebol brasileiro debaixo de críticas de Corinthians e Flamengo, respectivamente, e hoje, estão jogando bem no alto nível da Premier League. A pressão que existe no Brasil prejudica o desempenho dos jogadores em comparação com a Inglaterra?

Willian: É um assunto complicado porque quando você critica o jogador na bola, você fala que ele não foi bem, isso acontece. Jogador não é uma máquina, também vai ter os dias bons e ruins. Só que às vezes os torcedores não aceitam os dias ruins. O que eu vejo no Brasil é uma pressão às vezes desumana, que leva para a base da violência, ameaça à família, aos filhos… quando toca nessa parte, para mim, já muda. Tenho que preservar a minha família, é meu bem mais precioso.

Quando estão falando de mim, não tem problema nenhum, agora quando começa a atingir minha família… por isso quis tomar a atitude que eu tomei (deixar o Corinthians em agosto de 2022).


Depois de tudo que passou, revelado pelo clube e com uma carreira de sucesso na Europa, onde você se coloca na história do Corinthians? Restou algum vínculo?

Willian: Tenho um respeito muito grande pelo Corinthians, é o clube onde fui revelado e criado. Mas não construí minha carreira profissional no Corinthians, então não posso dizer que tenho algum tipo de vínculo… não sei se essa é a palavra, mas algum tipo de história no Corinthians como profissional. Sou grato pelo clube, vivi minha base lá, mas saí muito novo. Minha volta em 2021 foi em forma de gratidão. Sei que alguns torcedores não entenderam a minha saída, falaram que eu estava com frescura. Aí também eles só entendem o que quiserem, não tenho como agradar a todos. É um clube gigante com uma torcida muito grande, e o que passei foi com a minoria. Mas, ao mesmo tempo, foi uma minoria que causou um impacto emocional grande para a minha família e pessoas próximas a mim. O que fica é o respeito pela entidade que é o Corinthians.

Voltar para o Brasil não é uma possibilidade?

Willian: Eu não quero voltar para o Brasil, nunca mais. Eu já tinha esse pensamento desde antes do Corinthians. Acabou acontecendo uma situação de voltar para o clube onde eu comecei porque eu quis e o Corinthians também, mas eu já pensava em continuar até o fim na Europa. E agora eu pretendo encerrar aqui fora, seja na Europa, nos Estados Unidos ou outro lugar. Se puder ser na Inglaterra, seria perfeito. Pretendo jogar mais quatro ou cinco anos. Mas a gente nunca sabe porque o futebol muda bastante. 

“Eu não quero voltar para o Brasil, nunca mais. Pretendo encerrar fora, seja na Europa, nos Estados Unidos ou outro lugar.”

Você foi para o Fulham e hoje é um protagonista da boa campanha do clube, que pela primeira vez em algum tempo disputa a Premier League sem risco de rebaixamento. Quais os motivos para o bom ano do time londrino?

Willian: Eu acho que é o trabalho do dia a dia. O Marco Silva vem fazendo um grande trabalho desde a temporada passada e sem dúvidas é um dos grandes treinadores hoje na Premier League. Acho que o segredo está na constância e na evolução, porque aqui todos os jogadores têm o pensamento de melhorar, até os mais velhos como eu. Na vida a gente sempre tem como melhorar algum aspecto. Por isso tivemos sucesso nessa temporada comparando com outras. É um clube que sempre sobe e cai, mas nesse ano conseguiu se manter e fazer uma boa campanha. Se ganharmos os quatro jogos finais, ainda podemos brigar por uma vaga em competições europeias. Mas de qualquer forma já é uma campanha vitoriosa para o clube. 

Por que você escolheu o Fulham para voltar à Premier League?

Willian: Eu não tinha nenhum destino certo quando saí do Corinthians. Então rescindi com o clube, vim para Londres e decidi que resolveria meu futuro aqui. Foi aí que meu empresário me disse que o Marco Silva gostaria de falar comigo. Conversei com eles alguns dias e gostei do projeto, mas fiquei com receio por causa do clube. Como o Fulham tem esse histórico recente de rebaixamentos, pensei: ‘será que vale ir?’. Só que também senti muita confiança no Marco Silva. Aí eles ofereceram o contrato e eu decidir jogar no Fulham por uma temporada.

Willian comentou sobre suas passagens por Chelsea e Arsenal
Willian comentou sobre suas passagens por Chelsea e Arsenal. (Photo by Mark Cosgrove/News Images/Sipa USA) – Photo by Icon sport

Faz diferença trabalhar com treinadores portugueses como o Marco Silva?

Willian: É meu terceiro treinador português. Teve o José Mourinho no Chelsea, o Vitor Pereira no Corinthians e agora o Marco. São filosofias diferentes, mas vejo um potencial grande no Marco Silva, acho que futuramente estará numa equipe grande. O time tem a cara dele. E também sabe gerir muito bem o elenco fora de campo, o que é importante. 

Como é a relação com Andreas e Carlos Vinícius, os outros brasileiros do elenco?

Willian: A gente está sempre junto. Nos treinamentos, na hora da refeição e no hotel. Sentamos ali e ficamos na resenha, não só os brasileiros como os portugueses também (Palhinha e Cedric Soares). Sem dúvida isso ajuda o time. Falar português também facilita, mas para mim não é problema falar inglês. O Andreas também fala muito bem.

Futuro na Premier League

Seu contrato se encerra agora em junho. Sua ideia é renovar com o Fulham?

Willian: O momento é de esperar a temporada acabar para saber se vou renovar. Eu gosto muito daqui. Continuar morando em Londres e jogando na Premier League, que acho o melhor campeonato do mundo, seria perfeito para mim e para a minha família. Agora precisamos esperar acabar o campeonato e ver qual será a melhor decisão.

Então se o Fulham oferecer a renovação, você aceita.

Willian: Eu estou à disposição. Vamos ver, vamos conversar e ver qual vai ser a melhor solução tanto para mim quanto para o clube também.

Willian pelo Fulham na Premier League 2022/23

  • 23 jogos
  • 3 gols
  • 3 assistências
  • 38 chances criadas – 2º do time
  • 1,6 dribles por jogo – 1º do time

Você chegou na Premier League para jogar no Chelsea em 2013, há 10 anos. O que mudou na liga após uma década?

Willian: Premier League sempre foi difícil, um futebol rápido, de muito contato, agressivo mas leal. Não é violento. Tem força e técnica, e desde quando cheguei sempre foi isso. Mas ao passar dos anos as equipes vão evoluindo, contratando mais e ficando mais fortes. Isso torna todos os jogos difíceis, até contra o último colocado. O nível aumentou e ficou mais difícil. 

Qual a comparação do nível da Premier League com o futebol brasileiro?

Willian: O nível não tem como comparar. O fator campo, por exemplo. Aqui é um tapete e todos os campos iguais. No Brasil um é sintético, outro é de outro jeito, e os gramados ainda são ruins, não existe um padrão. O nível técnico daqui ainda está muito acima. E na Inglaterra o futebol é agressivo mas leal. No Brasil já tinha muita deslealdade do adversário. Isso faz diferença para mim.

A atual temporada também tem chamado a atenção pela quantidade de brasileiros que foi jogar na Premier League, especialmente no meio-campo. Exemplos como Lucas Paquetá, Casemiro, Danilo, João Gomes, Gustavo Scarpa… Como você vê esse movimento?

Willian: Eu acho que isso mostra o quanto os jogadores têm o sonho de jogar na Premier League. É o melhor campeonato do mundo hoje, e 90% dos jogadores querem jogar aqui, não importa se o clube é grande ou pequeno, mas querem ter essa sensação, sentir a atmosfera. E o futuro da seleção brasileira está bem servido. Jogadores surgindo com um potencial muito grande — Vinicius Junior e Rodrygo são protagonistas no Real Madrid, assim como o Martinelli que eu vi crescer no Arsenal. É um futuro brilhante pelos jogadores que estão surgindo.

Passado, presente e futuro na seleção brasileira

Você jogou as Copas do Mundo de 2014 e 2018, e ainda participou de parte do ciclo que culminou no Mundial em 2022. Quais motivos você enxerga para tantas derrotas seguidas da Seleção para europeus na Copa?

Willian: Perder é sempre difícil. Ainda mais no Brasil, sempre vão querer encontrar um culpado e falar que o trabalho foi errado. Acho que são coisas do futebol, detalhes que acabam definindo uma situação do jogo e o resultado. O futebol é o único esporte onde você consegue controlar a performance, mas não o resultado. Você pode ficar em cima o tempo todo, mas a equipe adversária vai num ataque, faz um gol e acaba o jogo 1 a 0. Na Copa do Mundo de 2018, nós saímos para a Bélgica nos detalhes.

Logo no começo do jogo, Neymar bate um escanteio, acho que pega no Thiago Silva, no travessão e volta na mão do Courtois. No lance seguinte, um escanteio deles, a bola desvia no Fernandinho e entra. Vai dizer o que? Isso acontece no futebol.

Espero que a Seleção continue buscando e trabalhando para que a seleção consiga conquistar essa Copa do Mundo desejada por todos nós.

Você ainda tem planos de jogar na Seleção?

Willian: Eu nunca descarto, nem posso descartar. Enquanto estou jogando tenho a motivação de, se for chamado, servir a seleção como se fosse a primeira vez. Mas a gente sabe que ciclo sempre vai mudando e a seleção vai renovando, com jogadores mais novos e de muito potencial. Nos resta estar sempre preparados porque nunca sabemos — vai que surge uma oportunidade de novo, seria motivo de muito orgulho para mim. Mas não fico na esperança de ser convocado.

Willian ganhou a Copa América com a Seleção - Foto: Lucas Figueiredo/CBF
Willian ganhou a Copa América com a Seleção – Foto: Lucas Figueiredo/CBF

Agora é o momento de trazer um treinador estrangeiro para comandar o Brasil?

Willian: O treinador pode ser brasileiro ou estrangeiro, desde que ajude a Seleção a chegar no objetivo de conquistar a Copa do Mundo. Às vezes as pessoas têm inveja de um estrangeiro e começam a criticar, meio sem motivos. Se for ajudar, tem que trazer.

“O Brasil tem tudo para que surja treinadores com capacidade de trabalhar na Europa. O Fernando Diniz é um treinador que eu gosto muito.”

Recentemente tivemos treinadores argentinos, chilenos e uruguaios na Premier League, mas o único brasileiro foi o Felipão no Chelsea em 2009. Por que treinadores brasileiros não têm espaço nas maiores ligas da Europa?

Willian: Eu creio que muitos treinadores brasileiros se deixaram acomodar, se prenderam um pouco no passado pelo fato de terem conquistado muitos títulos importantes. E o futebol vai evoluindo, vai mudando a cada ano. E na Europa eu sinto que quem está aqui se prepara cada vez mais, enquanto no Brasil não. Mas também vejo que o Brasil tem tudo para que surja treinadores com capacidade de trabalhar na Europa. O Fernando Diniz é um treinador que eu gosto muito pela forma que ele faz a equipe jogar.

Diogo Magri
Diogo Magri

Jornalista formado pela ECA-USP, campineiro e repórter na PL Brasil. Passagens por EL PAÍS, Revista Veja e Futebol Globo CBN.

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