A classificação da “nova Inglaterra” e a vitória da Inglaterra de sempre

Inglaterra vive fase vencedora com Southgate

vitória da inglaterra

Improvável. Eis uma maneira justa de se definir a recente vitória da Inglaterra sobre a Croácia, que carimbou a passagem do time britânico às semifinais da Nations League.

A seleção não é exatamente famosa por suas viradas. Aliás, não executava uma com menos de vinte minutos no relógio desde 1990, nas quartas da Copa, no histórico 3 a 2 contra Camarões.

O que é notório, contudo, é sua força no jogo aéreo e na bola parada. Grandes cruzadores, cabeceadores e uma enorme disposição em conectá-los forjaram a identidade futebolística inglesa e influenciaram o futebol jogado mundo afora.

(DIVULGAÇÃO/ GETTY IMAGES)

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O arremesso de lateral direto para a área, por exemplo, já tinha em Delap um de seus expoentes há pelo menos uma década. Recentemente, o Liverpool até contratou um treinador específico para este lance, tamanha a consideração pela jogada.

Certamente beneficiado pelo novo coach, foi assim que Joe Gomez encontrou Harry Kane na área para originar o empate do jogo de domingo.

O centroavante deu um leve desvio na bola, que, antes veloz e direta, viajou mansa e manhosa rumo à linha do gol, precisando de um reforço positivo de Jesse Lingard para encontrar o fundo da rede.

O improvável, então, aconteceu, mas da maneira mais previsível possível: bola na área e gol de Harry Kane. Dessa vez o lançamento veio por terra, numa falta cobrada na esquerda e pela esquerda de Ben Chilwell.

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A bola seguiu teimosa, se recusando a ser batida pela fileira de pernas dentro da área, mas o camisa nove, como deve ser, tratou de colocá-la em seu devido lugar.

Wembley pulsava ao apito final, com os torcedores abandonando a incredulidade da virada em nome da autoafirmação da quarta colocada na Copa que chegava à mais uma semifinal.

No pós-jogo, não faltaram exaltações à “Nova Inglaterra” e a Southgate. Lineker foi só elogios à nova geração e Rooney disse que a atmosfera no estádio só se comparava a Euro de 1996.

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E o momento é realmente muito bom, com quatro vitórias nos seis jogos disputados depois da Copa. Se o futebol não é brilhante, glórias como a vitória de domingo e o 3 a 2 contra a Espanha são joias para se guardar.

O alto astral se soma ainda às boas perspectivas para o futuro, visto as novidades apresentadas por Gareth Southgate nas últimas partidas.

A primeira é a proposta mais ofensiva, atuando num 4-3-3 móvel e fluido; depois, as oportunidades para jogadores como Sancho, Wilson e Mount, jovens talentos que contribuem para o hype da “Nova Inglaterra”.

Aí que mora o perigo.

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De fato, a evolução da seleção inglesa é notável, com o fortalecimento de seu jogo coletivo e da boa relação com a torcida, jogando a confiança e o nível de atuação da equipe lá no alto. Mas é preciso olhar atentamente para o que deu certo até aqui.

Apesar das novas e animadoras ideias de seu treinador, desmanchando a linha de cinco, dando liberdade para a subida dos laterais e para a movimentação ofensiva de Barkley e outros meias, o que têm decidido os jogos é o mesmo futebol de sempre.

Foram as ligações diretas entre Pickford e Kane que construíram o enorme resultado contra a Espanha, assim como a variedade de bolas paradas decidiram na virada contra a Croácia. Até o amistoso contra a Suíça foi vencido com um gol a partir de um escanteio.

Em nenhum momento, é importante pontuar, se vê com demérito a jogada ensaiada, a bola pelo alto.

O jogo direto não é só parte da identidade e da história do futebol inglês como foi e deve continuar sendo a base do trabalho de Southgate – até porque levaram a Inglaterra à uma semifinal de Copa do Mundo.

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A Missão de Southgate

A missão de Southgate quando assumiu o cargo, assim como de seus antecessores, era de, basicamente, traduzir o poderio da Premier League em expressão futebolística a nível internacional.

Diferente de seus antecessores, Gareth foi apontado como técnico da seleção no maior período de transformações no futebol inglês.

O dinheiro do novo contrato de televisão começava a entrar nos clubes.

A campanha do Leicester era um respiro nesse sentido, com o brilho dos ingleses Vardy, Drinkwater e Albrighton, mas era uma contestação ao sentido que se dava a um futebol vencedor nos últimos anos. Por fim, Pep Guardiola chegava à liga para confundir mais ainda com o seu jogo de passe e posse.

Imerso nas pressões e nas incertezas, o treinador buscou uma solução maleável e igualmente transformadora, ao colocar os métodos mais modernos à serviço de um modelo clássico e identitário inglês.

Para tal, se apropriou das vanguardas do jogo, como as triangulações de Guardiola, as saídas mecanizadas de Sarri, a marcação alta de Klopp e até a linha de cinco de Van Gaal, transformando-as em mecanismos de seu jogo.

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Ao mesmo tempo, invocou o kick-and-rush (em tradução literal, “chute e corra”) como proposta, de maneira a potencializar os pontos fortes específicos dos ingleses na Premier League: a intensidade física, a bola parada, os contra-ataques e a pressão constante.

Dessa maneira, a equipe era capaz de encontrar soluções que nos times só eram possíveis com caras como David Silva, De Bruyne, Kanté e Hazard.

Se não tinha a qualidade destes jogadores para abrir espaços e dominar o campo, a Inglaterra de Southgate tinha os lançamentos de Trippier e Henderson, a infiltração de Alli e Lingard, a velocidade de Sterling e Rashford, e o giro e o pivô de Harry Kane.

Melhor: proporcionava os lançamentos a partir de saídas meticulosamente treinadas, garantia espaço para o pivô e tempo para as infiltrações com triangulações, e mantinha o jogo sempre acelerado a partir da pressão no portador da bola.

Todo esse funcionamento foi desenvolvido desde o fim de 2016 e executado beirando a perfeição na Copa de 2018.

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Mais uma vez, porém, o que decidiu as partidas foram as bolas paradas e o jogo aéreo, com Trippier cruzando com uma mira a laser e Kane, Maguire e companhia voando pela área adversária.

Essas jogadas – e aí está o mérito de Southgate – também foram exaustivamente treinadas, estudadas e referenciadas até por especialistas da NFL, a liga de futebol americano. Não foram fruto do acaso ou uma mostra de um restaurado brio do time inglês.

O mesmo vale para a virada na Nations League, que foi tudo menos obra do acaso. Vimos ali um time que, bem treinado, com o repertório renovado e confiante, soube jogar com a adversidade e concentrar os esforços em sua maior chance da virada.

A “Nova Inglaterra” foi às semis, mas classificada pela mesma Inglaterra de sempre.

À sombra da Alemanha

A discussão sobre modelo de jogo inglês é especialmente válida se levarmos em conta a crise recente da seleção alemã.

Seria simplista dizer que a mudança de estilo levou à Alemanha à eliminação precoce na Copa e ao rebaixamento na Nations League.

Há, no entanto, lições a serem aprendidas sobre o peso da identidade futebolística numa seleção. O alinhamento com as práticas mais modernas alavancou, e isso é inegável, a Alemanha rumo ao título.

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É possível até encontrar semelhanças do ciclo 2010-2014 alemão com o que pode ser o 2018-2022 inglês, sendo duas equipes jovens na primeira Copa, donas de jogos de transições e, depois de parar nas suas respectivas semifinais, tentam dar mais bola à seus jogos essencialmente físicos.

O “problema” alemão foi o alinhamento idealista ao hoje conhecido como “jogo de posição”, eliminando, de certa forma, as armas consagradas nos outros três títulos mundiais, a força, a intensidade, o jogo aguerrido.

Tanto que, superada a geração do tetra, a Alemanha mostra claras dificuldades com o futebol proposto e cai vertiginosamente no cenário mundial recente.

Voltando à Inglaterra, fica a lição. Sem uma geração talentosa como a de Kroos, Lahm e cia, ter o jogo moderno como um fim pode ser um tiro no pé. Que o tiro então seja para o alto, como um cruzamento ou um arremesso de lateral.