Violência doméstica na Premier League: o que está por trás dos crimes contra mulheres no futebol inglês

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Mason Greenwood denunciado por tentativa de estupro e violência doméstica. Antony sendo investigado por agredir sua ex-namorada e mantê-la em cárcere privado. Um técnico, cujo nome não foi revelado, acusado de ter estuprado uma menor de idade. Um atleta, também com a identidade encoberta, acusado de abusar sexualmente três mulheres. Todos esses casos de diferentes tipos de violência contra mulheres vieram a público em um espaço de menos de dois anos no mesmo país.

Mas não é de hoje que esse tipo de problema aparece no futebol inglês. Em 2012, Ched Evans foi preso sob a acusação de estuprar uma garota de 19 anos que estava bêbada. Em 2016, Adam Johnson também foi preso por ter relações sexuais com uma menina de 15 anos. Na época de cada denúncia, os dois atuavam pelo Sheffield United e pelo Manchester City, respectivamente.

A PL Brasil conversou com especialistas para entender o que explica o envolvimento de membros do futebol inglês em casos de violência contra as mulheres.

‘Masculinidade e virilidade' como catalizadores da violência contra mulher no futebol

A pesquisadora Leda Maria da Costa, do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Leme-Uerj) explica que a violência contra as mulheres é uma questão social muita ampla e mundial. No entanto, esse problema está relacionado a valores que, infelizmente, também são conectados ao universo do futebol masculino.

— Essa questão do patriarcado da masculinidade, da virilidade, de ter que se provar o tempo inteiro, já se vê observada em alguns esportes. O futebol é um deles. É um esporte que carrega historicamente muitos valores vinculados a ideais de virilidade, do que é ser ‘um homem de verdade'. Isso é notado no próprio discurso em torno do futebol, seja o discurso midiático, seja o discurso da propaganda, seja o discurso dos próprios jogadores – diz Leda.

De acordo com Leda, a sociedade é voltada a enxergar a mulher de maneira inferiorizada e isso se amplifica dentro do ambiente futebolístico.

— Não é um problema exclusivo do futebol, de forma alguma. As taxas de violência contra a mulher são altíssimas no mundo de um modo geral, mas o futebol, há algum tempo, cultiva um ambiente de machismo e de preconceito contra mulher. Melhorou muito, mas historicamente ele se configura dessa forma – conta a pesquisadora.

mason greenwood manchester united
Mason Greenwood pelo Manchester United(Foto: Icon Sport)

Isso não se reflete apenas quando falamos de jogadores. Cânticos gritados nas arquibancadas e comentários nas redes sociais que diminuem e objetificam mulheres também são um retrato disso. Falando especificamente de Inglaterra, houve inclusive um aumento desse tipo de preconceito na última temporada.

O relatório da “Kick it Out”, entidade que trabalha no combate aos preconceitos no esporte, mostra que da temporada 2021/22 para a 2022/23, houve um crescimento de 400% nas denúncias de sexismo e misoginia, considerando episódios ocorridos nos estádios e na internet, indo de 16 denúncias para 80. Levando em conta apenas os ataques online contra jogadoras e torcedoras, o número foi de uma denúncia para 46.

— O futebol acaba se tornando um lugar onde a violência contra a mulher é visto, muitas vezes, como algo bobo, algo que ‘acontece', algo legal – relata a professora.

Todo esse cenário leva os membros do alto escalão – ou seja, jogadores, técnicos e dirigentes – a também normalizarem esse tipo de situação. Um exemplo que movimentou o futebol brasileiro recentemente foi o caso do técnico Cuca. Quando ainda era jogador do Grêmio, na década de 1980, ele foi preso por abuso de uma menor de idade. No entanto, seguiu com sua carreira normalmente e se tornou técnico.

O caso só o impediu de dar continuidade a algum trabalho 36 anos depois, quando passou somente uma semana treinando o Corinthians. Ele comandou o time por apenas duas partidas e pediu demissão, devido à pressão da torcida feminina pela sua saída.

— Isso acaba fortalecendo um pouco a concepção de que a mulher é um tanto objetificada nesse ambiente. E no caso de alguns jogadores que cometem violência doméstica e muitas vezes não são punidos nem sequer pelo clube. Aí, a gente tem um conjunto. Uma cadeia de fortalecimento da ideia de que é normal bater numa mulher, é normal abusar psicologicamente, enfim, é normal,

A fama dos jogadores pode fazer com que eles se sintam ainda mais acima de qualquer suspeita ou também acima de qualquer possibilidade de punição.

Leda Maria da Costa, pesquisadora da Uerj

Inglaterra: desenvolvimento social não impede violência contra mulher

Apesar de o Reino Unido ser um país de primeiro mundo, a população também sofre com a violência doméstica. Em 2022, 1,7 milhões de mulheres foram vítimas deste crime na Inglaterra e no País de Gales, de acordo com o Centro Nacional de Violência Doméstica do país. A entidade também aponta que a cada 30 segundos, uma denúncia é feita por telefone à polícia.

A Inglaterra passou por uma mudança recente em sua legislação. Apenas em 2021 foi criada uma definição legal de violência doméstica, que abrange também controle coercitivo e abuso emocional e econômico, além da agressão física. Em relação a Espanha, o país está bem atrasado. O país basco mudou sua lei relacionada à violência de gênero em 2004, sendo considerada uma das mais avançadas do mundo. Ela é o grande motivo pelo qual Daniel Alves, ex-jogador do Pumas (MEX) e investigado por estupro, permanece preso.

A jornalista esportiva Júlia Belas, que é brasileira, mas mora na Inglaterra e trabalha como freelancer para veículos do país, conta que esse debate no mundo do futebol está começando agora por lá, principalmente devido ao crescimento do futebol feminino. “Se um clube fica conhecido como o ‘clube do agressor de mulheres', como é que as jogadoras do time feminino de lá vão reagir?”, exemplifica.

— Aqui, você tem muitas organizações e entidades que trabalham com os clubes e com a própria Premier League. Elas agem não como um regulador, mas fazendo uma cobrança externa – conta Júlia, comparando o trabalho dessas entidades com a atuação do Observatório de Discriminação Racial no Futebol no Brasil.

No entanto, nada disso muda o fato de o ambiente do futebol inglês como um todo ser tão machista como no Brasil. Júlia comenta que o debate sobre esse tema entre a população e na própria imprensa esportiva inglesa ainda fica muito focado no impacto no futebol e na imagem dos clubes ao invés do problema da violência em si.

— Quando você olha para o caso do Greenwood ou do Anthony, se pensa muito em como isso afeta a performance deles, para qual clube eles vão. A discussão não é necessariamente se eles cometeram ou não esse crime, se cometeram ou não a agressão. É mais na linha ‘Beleza, está acontecendo essa investigação. Para onde ele vai agora?', ‘Em meio às investigações, Mason Greenwood marca gol'. Ainda fica muito atrelado ao futebol e à performance esportiva.

Na visão de Leda, o fator midiático e financeiro da Premier League é uma especificidade importante a ser incluída quando falamos da Inglaterra. Isso porque a saída de um atleta denunciado por violência doméstica ou estupro poderia pesar nos cofres dos clubes e até mesmo interferir no andamento das investigações, na forma como isso é retratado na mídia e na reação da torcida.

Esse é um dos motivos apontados pela imprensa britânica pela demora do Manchester United em definir o futuro de Mason Greenwood, após sua denúncia ser arquivada.

— Uma questão, que me parece bem pesada e talvez seja um pouco diferente do Brasil, é o nível de exposição desses jogadores que fazem parte da Premier League. É a liga de futebol mais importante do mundo, então são jogadores caríssimos. Eles jogam em clubes que têm uma penetração global num esporte em que a questão financeira cada vez mais é imperativa. […] Me parece um empecilho a mais, uma dificuldade a mais que se sente para resolver o caso de alguém – opina Leda.

Omissão dos clubes e da Premier League?

Leda explica que para que essa situação mude é necessário “um trabalho em conjunto com a sociedade de modo geral”, não apenas no universo esportivo. Porém, pensando no futebol em si, a pesquisadora da Uerj aponta que é importante haver ações que contemplem os times e as ligas, indo além das punições.

— Eu acho que tem que haver um envolvimento das federações e dos clubes. Que haja um processo socioeducativo tanto das torcidas quanto dos jogadores, algum tipo de programa de formação, de educação no sentido amplo – opina a professora.

É por isso que, há dez anos, a ONG inglesa “Women's Aid” (ajuda às mulheres, em português) desenvolveu a campanha “Football United Against Domestic Violence” (futebol unido contra a violência doméstica).

Em entrevista à PL Brasil, Teresa Parker, diretora de Mídia, Marca e Relacionamentos na entidade, contou que eles trabalham “em estreita colaboração com clubes e organizações de futebol desde então para aumentar a conscientização sobre o abuso doméstico e as atitudes que o sustentam”.

— Os jogadores de futebol têm uma enorme influência sobre os torcedores e, portanto, podem desempenhar um papel significativo quando se trata de mudar atitudes e mostrando a todos os torcedores, de todas as idades, que a misoginia e o machismo não têm lugar na sociedade atual – disse Teresa Parker.

Teresa revela que uma importante mudança aconteceu no últimos ano no futebol inglês: a implementação de um treinamento obrigatório sobre consentimento sexual para jogadores e funcionários dos clubes. A diretora classifica essa ação como “um primeiro passo bem-vindo e muito importante na direção certa”.

— No entanto, para que isso seja realmente eficaz, o treinamento deve ser realizado em parceria com organizações especializadas em violência contra mulheres e meninas, que estão em melhor posição para informar sobre questões de consentimento, respeito e relacionamentos saudáveis – afirma Tereza.

Essa obrigatoriedade foi imposta após uma reunião da “Coalisão pelo Fim da Violência Contra a Mulher” (EVAW) e da entidade “Três Hijabs” com a Premier League, em junho de 2022. Esse encontro aconteceu depois de as entidades mandarem uma carta aberta aos CEOs da Liga e da Associação do Futebol da Inglaterra (FA) cobrando medidas específicas para enfrentar a cultura de violência de gênero que existe no futebol.

As solicitações de mudança envolviam um acordo assinado pelos clubes se comprometendo a criar políticas de combate a este problema, protocolos de má conduta sexual que imponham consequências e ações disciplinares aos jogadores e a criação de programas de educação nas categorias de base.

— Os jogadores de futebol e os times em que jogam têm uma posição única na formação das atitudes dos meninos e dos homens. O seu comportamento dentro e fora do campo é influente e a transformação da cultura no futebol terá um impacto sísmico na sociedade em geral. Acreditamos no poder da unidade e da solidariedade e sabemos que nós, os torcedores, podemos promover mudanças – relataram EVAW e Três Hijabs, em comunicado à imprensa divulgado em agosto.

A implementação desses treinamentos foi a única solicitação daquela carta atendida pela Premier League. Só que a obrigatoriedade por si só não garante que eles estão, de fato, acontecendo. O site inglês “Tortois” divulgou no início de agosto que enviou um formulário a todos os clubes da Premier League 2022/23, no qual pediam que confirmassem se estão fazendo essas capacitações, quando foram feitas, quantos jogadores e funcionários participaram e como elas foram realizadas.

Apenas metade respondeu confirmando. E, entre as respostas, a maioria trazia pouco ou nenhum detalhe. O representante de um dos clubes chegou a dizer que “se for obrigatório, tenho certeza que sim”, mas não deu maiores esclarecimentos.

Procurada pelo “Tortois”, a Premier League disse que não comenta sobre temas individuais dos clubes e que a orientação “foi aplicada por meio de um processo de auditoria independente para garantir o cumprimento”.

A necessidade de as instituições do futebol intensificarem e assumirem responsabilidades urgentes e transparentes no combate à violência de gênero nunca foi tão clara.

EVAW e Três Hijabs, em comunicado à imprensa
Maria Tereza Santos
Maria Tereza Santos

Me formei em Jornalismo pela PUC-SP em 2020. Antes de escrever para a PL Brasil, fui editora na ESPN e repórter na Veja Saúde, Folha de S.Paulo e Superesportes.