Pode ser que falte à Inglaterra um toquinho de Dinizismo

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Primeiro lugar no grupo, a Inglaterra se classificou para a fase mata-mata da Eurocopa sem sustos, mas com vaias. Três jogos mornos frustraram bastante a torcida e todos aqueles esperando o show de talento de uma geração de jogadores ofensivos muito habilidosos.

Às vezes, a seleção inglesa parece lenta com a bola e lenta sem ela. Cansaço? Pode ser. Não duvido que, com o fim da temporada, o cansaço é um fator. O técnico Gareth Southgate lamentou que os seus jogadores não têm a mesma capacidade de botar pressão em cima dos adversários que tinham nas eliminatórias.

Mas cansaço não é somente uma questão física. Tem um componente mental também. Aprendi isso bem pequeno.

Na minha infância e adolescência, de longe o maior jogo do ano foi a final da FA Cup. Foi o único jogo de clubes que passava ao vivo na televisão. Se falava desse jogo por semanas antes, os times até gravaram discos com musiquinhas comemorando a sua presença na ocasião, houve câmeras da televisão nos hotéis e nos ônibus levando os elencos para o Wembley.

Febre total.

E nos últimos minutos do jogo, sempre tinham jogadores caindo por todo lado, sofrendo de câimbras. Falava-se muito do gramado do Wembley, e como era tão cansativo jogar ali. Verdade, as dimensões do campo eram um pouco maiores que muitos estádios dos clubes, mas mesmo assim, o argumento das propriedades especiais e únicas do gramado do Wembley nunca me convenceu.

John Stones e Declan Rice em campo pela Inglaterra.
John Stones e Declan Rice em campo pela Inglaterra. Foto: Icon Sport

Houve outras partidas, jogos da seleção, por exemplo — e não houve esse desfile de atletas caindo com dores insuportáveis. Conclusão óbvia — o fator decisivo não foi o gramado em si, mas o estado mental dos jogadores pisando nele. A final da copa foi um evento tão enorme que acabou sugando energia.

Um torneio pode ter um efeito parecido. O zagueiro John Stones falou depois do empate com a Eslovênia que a seleção inglesa “tem um alvo nas costas.” As expectativas são muito altas, e o time não está se mostrando à altura. Isso cansa. 

Cansa também o desespero que ver e viver as coisas não encaixando. Pelo menos o time agora pode guardar as suas energias para o domingo, porque qualquer julgamento sobre a seleção inglesa neste torneio vai ser feito baseado no seu desempenho daqui em diante, na fase mata-mata. 

A seleção de 2016, por exemplo, podia ter classificado para o mata-mata de uma forma genial (um grande exagero, sei) mas nunca iria sobreviver sendo eliminada pela Islândia no próximo jogo.

Inglaterra Southgate decepção
Southgate e Bellingham pela Inglaterra (Foto: Imago/SOPA)

E dá para argumentar que, dos três jogos da primeira fase, esse contra a Eslovênia foi o melhor. Especialmente no segundo tempo houve mais intensidade ofensiva, com Phil Foden atuando bem. Kobbie Mainoo melhorando o meio campo e Cole Palmer enfim saindo do banco para criar problemas para o adversário. 

Southgate vai passar os dias até domingo frisando o lado positivo do crescimento do desempenho. Mais fé, menos cansaço? Mas o seu time ainda parece muito espaçado em campo, prejudicando a tentativa de fazer jogadas coletivas. 

Tem muitos momentos quando se precisa de passes rápidos entre mais jogadores ao redor da bola. Sei que não está em alta nesse momento, mas pode ser que esteja faltando um toquinho de Dinizismo na seleção inglesa.

Tim Vickery
Tim Vickery

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e para a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para ESPN e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos de Tottenham Hotspur.