Vickery: Alvos da Premier League, Beraldo e Murillo precisam subir no campo se quiserem subir na vida

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Lucas Beraldo na mira do Wolverhampton, Murillo um alvo do Nottingham Forest — dois zagueiros canhotos. Jovens e talentosos — mas, caso se concretizem as negociações com a Premier League, terão um desafio enorme pela frente.

Por exemplo, vamos puxar o jogo da semana passada em que os dois se enfrentaram na partida de volta da semifinal da Copa do Brasil entre São Paulo e Corinthians.

Após a derrota de 2 a 1 do primeiro jogo, São Paulo conseguiu marcar duas vezes antes do intervalo e, entre um susto ou outro, segurou a vantagem para selar o seu lugar contra o Flamengo na decisão. Tratou-se de um jogo emocionante — e bizarro.

A rivalidade de tantos anos forneceu uma partida que poderia ter acontecido décadas atrás, um espetáculo bastante antiquado. A linha de defesa do Corinthians de Murillo estava tão baixa que Lucas Moura estava pegando a bola na frente da área adversária com espaço para definir. E aproveitou.

E, nos minutos finais, a linha de defesa do São Paulo de Beraldo estava tão baixa que o time estava flertando com o desastre. 

Alguns metros mais recuadas e as linhas estariam plantadas atrás de seu próprio gol!

Isso nos conduz até um problema enorme do futebol no Brasil — que ajuda a explicar porque o jogador mais importante naquele Flamengo mágico de 2019 foi o zagueiro espanhol Pablo Marí.

Enquanto os beques locais tem a tendência de correr para trás, para cima do seu goleiro, Marí ia para frente. Em vez de defender a grande área, atacava a linha de intermediário. Quando o adversário começava a organizar um ataque, Marí ia lá para apagar o incêndio na fonte. E, com ele organizando uma defesa alta, os setores do time ficavam compactos o suficiente para facilitar as trocas de passe encantadoras que eram a marca registrada do time.

Ou seja, futebol moderno.

Desde que Marí se foi, o Flamengo nunca mais conseguiu defender com a mesma eficiência, nem trocar passes com a mesma aproximação.

Na época, havia vozes na imprensa local opinando que o Flamengo ia melhorar, pois estava ganhando um salto de qualidade contratando Gustavo Henrique e Léo Pereira para a vaga de um zagueiro da segunda divisão da Espanha. Mais equivocado, impossível.

Não é que falte no Brasil zagueiros capazes de interpretar a posição como Pablo Marío país produz alguns dos melhores do mundo. Mas normalmente esses se desenvolvem fora do Brasil. Porque aqui dificilmente eles são treinados para jogar assim.

Pode ser que os técnicos da base estejam mais focados em resultados no curto prazo, dando preferência para beques gigantes do tipo “xerifões da área”. Ou talvez o calendário não deixa tempo para o trabalho necessário para coordenar uma linha alta. 

Ou, como Fernando Diniz frisou convocando a Seleção, o clima tropical acaba minando a intensidade do jogo, e faz mais difícil manter a pressão na bola do adversário, e sem isso uma defesa alta fica bastante vulnerável.

São explicações interessantes, embora essa última claramente não sirva para o jogo da semana passada, numa noite fria do inverno paulistano.

Premier League, outro patamar

De qualquer maneira, na Premier League seria bem diferente. Beraldo e Murillo não somente teriam que adaptar-se a um estilo de jogo mais rápido e intenso. Também teriam que atuar mais avançado, com o risco de ficar desorientado.

Não é um processo fácil. Pessoalmente, na insignificância da minha opinião, não vejo Beraldo pronto para tal ainda. Classudo, sairia jogando bem com o pé esquerdo. Mas defensivamente ainda o acho cru, e fisicamente acho que ele sofreria.

Apesar de pouco tempo como titular, Murillo de repente representa uma aposta mais segura. Sabe se impor, defende bem, tem saída e lançamento longo na diagonal, interessante nas bolas paradas. 

Tem futuro. Mas para subir na vida, vai ter que subir no campo.

Tim Vickery
Tim Vickery

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e para a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para ESPN e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos de Tottenham Hotspur.