A histórica tríplice coroa do Manchester United 1998/1999

Red Devils são o único clube inglês a conquistar os títulos do Campeonato Inglês, da Copa da Inglaterra e da Champions na mesma temporada

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Ben Radford /Allsport

Com o crescimento exorbitante do futebol europeu nas últimas décadas, cada dia mais a tarefa de conquistar uma tríplice coroa vai se tornando mais difícil. Os investimentos e o nível técnico da Premier League vêm trazendo ao Campeonato Inglês a atribuição de muitos como a melhor e mais competitiva liga do mundo.

O feito mais recente de uma tríplice coroa nacional no futebol inglês foi alcançado pelo Manchester City, na temporada 2018/2019. A equipe do técnico Pep Guardiola venceu, na mesma temporada, a Premier League, a Copa da Inglaterra e a Copa da Liga Inglesa.

Mas quando falamos da tradicional tríplice coroa continental conhecida como treble, até hoje o Manchester United é o único inglês que conseguiu obtê-la. Por isso, vamos revisitar em detalhes a grandiosa conquista dos Red Devils, e a fortíssima geração que por ela ficou eternizada.

A histórica Tríplice Coroa do Manchester United 1998/1999

1992 – O início de um sonho

A história desses títulos começa no ano de 1992 quando, não só a Inglaterra, mas o mundo passara a conhecer garotos vitoriosos vindos da categoria de base. Esses garotos eram Ryan Giggs, Nicky Butt, David Beckham, Gary Neville, Phil Neville, Paul Scholes e Terry Cooke (sendo este último, o único que não teve êxito no time principal).

Eric Harrison era o treinador da base do Manchester United nesta época, e os garotos eram conhecidos como “Fergie's Fledglings” ou “A Classe de 92”. Ele foi responsável por levar a equipe ao título FA Youth Cup (Copa da Inglaterra sub-18) daquele ano.

Logo, com o início da temporada 1992/1993, algumas dessas jovens estrelas fizeram suas estreias no elenco principal do United no primeiro ano da era Premier League. E não eram somente promissores, como foram peças da conquista do título do Campeonato inglês, juntamente com a recém-formada parceria de Éric Cantona e Mark Hughes.

A partir do feito que não era alcançado há 26 anos (desde a temporada 1966/1967), a equipe treinada por Sir Alex Ferguson se manteve no topo fazendo uma escalada de sucesso ao treble. Atingiu o bicampeonato consecutivo em 1993/1994 e foi vice em 1994/1995 para o Blackburn Rovers.

Posteriormente, mais um bicampeonato consecutivo em 1995/1996 e 1996/1997. E por fim, o vice para o Arsenal, por apenas um ponto de diferença, em 1997/1998.

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Temporada 1998/1999 – Deu tudo certo

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Alex Livesey/Getty Images

Engasgados da última temporada contra o time fortíssimo do técnico Arsène Wenger, o Manchester United deu início ao que seria uma das tríplices coroa mais disputada de todos os tempos.

O trabalho também bem consolidado do técnico Alex Ferguson, teria nesta temporada, uma das suas maiores glórias e o faria se consagrar de vez, um ícone na história do clube. Contratado em 1986, posteriormente se tornando o treinador que mais anos esteve a frente do United, até 2013.

A tríplice coroa do time de Manchester, além de tudo, foi a primeira na era Champions League. Nunca antes uma equipe tinha conseguido alcançá-la nesse novo formato que se instaurava desde 1992/1993 – coincidentemente a mesma temporada de surgimento da geração que a venceria.

Por isso, vamos relembrar cada uma das conquistas individualmente, começando pela Premier League.

Premier League 1998/1999

Como dito anteriormente, os Red Devils e os Gunners vinham de uma disputa desde o último Campeonato Inglês. Neste, não seria diferente. Os dois brigaram ponto a ponto, vitória a vitória durante a temporada inteira. Inclusive sendo seguidos de perto pelo Chelsea.

Entretanto, o United não começou a temporada tão bem, mas conseguiu se recuperar logo nas primeiras rodadas engatando uma sequência invicta que perdurou até a última rodada. Foram apenas três derrotas em 38 jogos.

Na 33ª rodada, em um dos momentos mais cruciais daquela Premier League, o United mpatou com o já rebaixado Blackburn, e portanto, ficando em uma situação complicada.

Porém na penúltima rodada, a sorte jogou ao lado dos vermelhos. O forte rival Arsenal, que contava com Bergkamp e Anelka jogando em alto nível, tropeçou e perdeu para o Leeds.

O título daquele campeonato foi decidido no último jogo com o Manchester United superando o Tottenham por 2 a 1 no Old Trafford. Com 79 pontos, 22 vitórias, 13 empates e três derrotas, os Red Devils foram campeões de forma belíssima por apenas um ponto de diferença dos Gunners.

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Dwight Yorke foi o artilheiro do United com 18 gols, e dividiu a posição de primeiro lugar na estatística geral do campeonato com Jimmy Floyd Hasselbaink, do Leeds, e com Michael Owen, do Liverpool.

Ademais, um fato importante de ser relembrado, é que o atual técnico do Manchester United, Ole Gunnar Solskjaer, estava nesse elenco vencedor. Não somente, ele contribuiu com um hat-trick na vitória por goleada por 8 a 1 em cima do Nottingham Forest.

A equipe dava seu primeiro passo, o rumo à tríplice coroa estava traçado.

Copa da Inglaterra 1998/1999

Na Copa da Inglaterra, todos os páreos enfrentados pelo United foram duríssimos. As classificações se deram em cima de grandes times, e de forma dramática. Na própria estreia da equipe, no dia 3 de janeiro de 1999, os Red Devils venceram o Middlesbrough por 3 a 1.

Todos os gols foram marcados no segundo tempo. O visitante abriu o placar aos 52 minutos, e Cole empatou aos 68. Mas os dois últimos tentos que deram a vitória vieram só no final da partida aos 82 (Irwin) e 90 (Giggs).

Na rodada seguinte, o United encarou o seu principal rival: o Liverpool. E mais uma vez, a vitória veio em momento crítico do jogo. Os Reds abriram o placar no comecinho do jogo, aos três minutos. E mantiveram assim até os 43, quando Yorke conseguiu o empate.

Assim que o cronômetro chegou à marca dos 47, Scholes deu uma assistência para Solskjaer marcar o gol da virada.

Posteriormente, o time de Manchester enfrentaria o Fulham, o vencendo por 1 a 0. Logo em seguida fez uma verdadeira batalha com o Chelsea. O primeiro confronto terminou em um empate sem gols, o que forçou a decisão para um replay.

United abriu o placar logo no início, Chelsea perdeu chances e um gol praticamente feito. Dwight Yorke marcou seu segundo gol da partida, de cobertura.

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Na semifinal contra o Arsenal, mais uma vez, o time repetiu a dose. Igualdade em 0 a 0, obrigando outro embate no replay. Novamente a rivalidade grande entre as duas equipes era colocada à prova.

O jogo acontecia no dia 13 de abril de 1999, no meio da temporada da Premier League. Os Gunners eram os atuais campeões da Copa da Inglaterra em cima do Newcastle.

David Beckham abriu o marcador aos 17 minutos da primeira etapa com um golaço de fora da área. Mas o time perdeu muitas oportunidades de colocar vantagem para cima do mandante. É aí que veio o empate, com mais um chute de longa distância dessa vez de Bergkamp.

O Arsenal chegou a fazer o segundo, mas foi anulado e a partida seguiu para prorrogação. Ryan Giggs, que tinha entrado em campo por substituição no lugar de Blomqvist, conseguiu o gol da vitória e encaminhou a equipe para a grande final.

Se repetia um dos finalistas. O Manchester United foi até o antigo Wembley enfrentar o Newcastle, e se consagrou campeão em belíssima atuação da dupla Teddy Sheringham e Paul Scholes, com um gol e uma assistência para cada.

O treble estava mais perto de acontecer.

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Champions League 1998/1999

Finalmente, a linha de chegada de uma grande temporada do Manchester United. A Champions League é a chance de uma conquista nunca antes vista na Inglaterra, e nunca antes vista nesse novo formato do campeonato continental, a tão sonhada tríplice coroa.

Entretanto, também não seria nada fácil. Após eliminar o LKS Lodz na fase preliminar, os Red Devils entraramm para o Grupo D, que concentra grandes forças: Barcelona, Bayern de Munique e Brondby. E de lá, já travaram o que seria um gigante embate na final: dois jogos contra a equipe alemã, sendo dois empates muito disputados.

Tiveram duas igualdades também com a equipe espanhola de Luis Enrique, Rivaldo, Giovanni, Xavi e o jovem Pep Guardiola. Porém, vencem com certa tranquilidade o time dinamarquês Brondby, com goleadas elásticas.

Então, classificados para as quartas de final com duas vitórias e quatro empates, se enquadrando no critério de segundos colocados com a melhor campanha, pegaram o lado mais difícil da chave.

As batalhas até a grande final foram contra gigantes potências do futebol italiano. Primeiro a Internazionale e, posteriormente, a Juventus.

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A Inter vinha de um jejum de títulos de Champions desde a temporada 1964/1965. E em seu plantel, contava com grandes craques como Ronaldo, Zamorano, Baggio, Pirlo e Zanetti. Mas no primeiro jogo, quem saiu com a vitória foi o United. Dois tentos de Yorke, o grande artilheiro da equipe, com assistências de Beckham.

Já no segundo encontro, apesar de muito agitado, a Inter de Milão conseguiu abrir o placar e o manteve até praticamente o final do jogo. Scholes recebeu um cabeceio de Cole e alcançou o empate que classificava os vermelhos para a semifinal.

Em Manchester, a Juve saiu na frente em cima do United. Novamente, de forma dramática, o empate aconteceu nos acréscimos do segundo tempo e a decisão ficou para a etapa de volta. Em Turim, a equipe de Zidane, Conte, Deschamps e Inzaghi, abriu vantagem de dois a zero com gols do centroavante italiano.

A reação foi quase que imediata. O empate veio minutos depois com Roy Keane e Dwight Yorke. E, quando mais uma vez, parecia que tudo se encaminharia para uma possível prorrogação, Yorke driblou a zaga da Velha Senhora e ficou frente a frente com o goleiro Peruzzi. O goleiro conseguiu travá-lo, mas a bola sobrou de lado, livre para a finalização de Andy Cole.

O United carimbava vaga na final.

A grande final da Champions e a conquista da tríplice coroa

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Ben Radford /Allsport

Tudo tinha dado certo até agora pro Manchester United. Restava a última etapa de uma conquista histórica para o clube inglês. A briga pela tríplice coroa seria com ninguém mais, ninguém menos que o Bayern de Munique.

A equipe alemã do capitão Oliver Kahn tinha travado duas igualdades na fase de grupos e prometia a maior batalha da temporada. E assim como escrito, se passou.

Tão logo o árbitro Pierluigi Collina apitou dando início ao jogo no Camp Nou, no dia 26 de maio de 1999, o Bayern saltou na frente do placar aos seis minutos. Em uma cobrança de falta na boca da grande área, Matheus Basler encheu o pé, mandando a bola por debaixo da barreira. Schmeichel mal se moveu, apenas fazendo um golpe de vista.

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Os Red Devils mantiveram bom controle de jogo, perderam algumas chances e sofreram com grandes oportunidades construídas pelos Bávaros. Ambos os goleiros precisaram trabalhar bastante para salvar seus times de uma vantagem, ou empate. Muitas bolas fora, escanteios, cabeceios e chutes de fora da área depois, o gol teimava em não sair.

O primeiro tempo acabou e, até agora, nada de gols para os ingleses. Mas o que viria pela frente, calaria as vozes alemãs que ecoavam nas quatro linhas do estádio espanhol.

Sir Alex Ferguson mexeu na equipe aos 22 minutos do segundo tempo. Saiu Blomqvist e entrou Teddy Sheringham. O inglês, ainda sem gols na competição, colocaria seu nome na história.

Do outro lado, duas mexidas no time pelo técnico Ottmar Hitzfeld. E mais tentativas, mais chances perdidas, defesas de Schmeichel, quase um gol de bicicleta, quase outro de cabeça, bola no travessão do Bayern… O desespero de ver uma Champions e uma tríplice coroa indo embora.

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Então, veio a tacada final de Ferguson. Saída de Andy Cole para dar espaço a Ole Gunnar Solskjaer, o nome da vitória.

Aos 46 minutos do segundo tempo, quando tudo parecia perdido, um escanteio pelo lado esquerdo. Schmeichel, no ápice da agonia, correu para a área. A bola subiu, a defesa do Bayern afastou, mas não o suficiente. Ela sobrou para a batida de Giggs e o desvio no toque bem posicionado de Sheringham gerou o empate.

Dois minutos depois, mais um escanteio naquele mesmo canto. A torcida do United se levantava nas arquibancadas com a ansiedade explodindo. Bola de Beckham para o alto, um cabeceio de Sheringham na direção do gol e ela chegou para o pontapé destro de Solskjaer. A rede balançou: era o gol da virada, o gol do título.

Os olhares desolados dos jogadores do Bayern escancaravam a história que ali se escrevia. Com duas substituições certeiras de Sir Alex Ferguson, e em menos de dois minutos de jogo, o Manchester United conquistara uma de suas maiores glórias. A tríplice coroa se tornou uma realidade e a orelhuda tinha um novo dono.

Manchester United campeão 1999 escalação ficha Champions League-min

O Manchester United de 1998/1999 fez história, e ocupa um posto no grupo seleto de outros oito clubes que conquistaram o mesmo prestígio: Celtic, Ajax, PSV, Barcelona, Internazionale e Bayern de Munique.

E para você, quem será o próximo a conquistar uma tríplice coroa?