Tim Vickery: quem foi o ‘Superboy’ Trevor Francis, primeiro jogador a custar 1 milhão de libras

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Não houve nem um pingo de otimismo quando a seleção inglesa viajou ao Rio para enfrentar o Brasil em junho de 1984. A Inglaterra não conseguiu classificar para a Eurocopa daquele ano, e nos três jogos anteriores, empatou com a Escócia e perdeu para País de Gales e União Soviética. 

A expectativa era de um massacre no Maracanã.

Em vez disso, a Inglaterra ganhou de 2 a 0 numa tarde em que o grande Leandro não conseguiu nem jogar areia na bunda de John Barnes, o ponta esquerdo inglês.

Barnes driblou Leandro e a defesa inteira para fazer um golaço, e depois cruzou para Mark Hateley fazer o segundo com uma cabeceada imponente.

Em grande parte por causa daquele gol, Hateley foi imediatamente vendido, trocando o Portsmouth na segunda divisão para o grande Milan da Itália. Hateley era um protótipo da velocidade do mundo moderno. Barnes, no entanto, ficou mais três anos no modesto Watford, saindo em 1987 para um período de enorme sucesso com o Liverpool

Da perspectiva de hoje em dia, parece inacreditável que, mesmo depois de silenciar o Maracanã, ele ficou tanto tempo no Watford. Barnes era uma relíquia da lentidão do mundo antigo.

Trevor Francis, o primeiro jogador a custar um milhão de libras

Entre os dois mundos, Trevor Francis, que morreu de repente na segunda-feira com 69 anos.

As manchetes da morte inesperada focalizam na mesma coisa — que, em 1979, quando foi para o Nottingham Forest, ele virou o primeiro jogador a custar um milhão de libras — uma barreira que para muitos nunca seria ultrapassada. Nisso, claro, Trevor Francis representa a novidade, o mundo por vir. 

O outro lado da moeda é o fato, hoje simplesmente bizarro, que antes do Forest, ele jogou uma década com o Birmingham City, sendo considerado projeto de craque desde a primeira vez que entrou em campo com os seus 16 anos.

Rapidamente Trevor Francis ganhou o apelido de “Superboy”. 

Era um fenômeno — muito rápido, muito habilidoso, versátil suficiente para jogar em qualquer posição na linha da frente.

E durante nove temporadas, as primeiras duas na segundona, ele vestia a camisa azul do modesto Birmingham.

Quando ele foi para o Forest, o impacto era imediato. Logo fez o gol na final continental contra o Malmo que conquistou o título europeu. Alguns meses depois, porém, sofreu uma ruptura grave do tendão de Aquiles. Perdeu a final continental contra o Hamburgo. Perdeu a Euro de 1980, num momento em que ele estava voando com a seleção. 

Verdade, conseguiu jogar a Copa de 1982, onde fez dois gols. Teve bons momentos. Ajudou a Sampdoria a ganhar a Copa da Itália em 1985. Mas a carreira após a lesão teve as suas frustrações. 

Se machucava com mais frequência, talvez tenha perdido um pouco de explosão. Jogou até 1993, com um punhado de partidas disputadas na Premier League com o Sheffield Wednesday, onde ele também era o técnico. Mas o melhor de Francis, do atacante mais consistente, aconteceu antes da lesão de 1980.

Daí a pergunta — não teria sido melhor ver Trevor Francis jogar hoje em dia, quando inevitavelmente o seu talento ia levar ele logo para um gigante do futebol? Vale a pena puxar o exemplo do melhor jogador produzido por Birmingham City desde então, Jude Bellingham, que rapidamente trocou Inglaterra para Alemanha e agora chega no Real Madrid com o status de estrela. Uma trajetória assim seria muito melhor para Trevor Francis,não é?

Assim ele ia desenvolver o seu talento mais rápido, ia chamar atenção mais rápido, ia conquistar mais títulos e deixar mais lembranças na memória de mais pessoas.

Mas tem um contra-argumento. Um Trevor Francis assim seria uma estrela entre muitos. Tudo bem, ia deixar mais lembranças. Mas a intensidade daquelas memórias?

Pode ser que ele virou tão inesquecível nas mentes dos torcedores de Birmingham precisamente por causa da sua condição única. Não viram, nem antes, nem depois, um jogador tão sensacional. E por nove anos, ele era deles. Trata-se de uma ligação muito forte, de grande valor.

Tantas perguntas, e uma conclusão. Jogando por Birmingham City, Forest, Manchester City, Sampdoria ou quem quiser, sou grato pelas minhas próprias lembranças de assistir Trevor Francis.

File photo dated 30-05-1979 of Trevor Francis. Former Birmingham and England forward Trevor Francis, who became Britain's first 1million footballer when he joined Nottingham Forest in 1979, has died at the age of 69, a family spokesman has announced. Issue date: Monday July 24, 2023. – Photo by Icon sport
Tim Vickery
Tim Vickery

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e para a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para ESPN e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos de Tottenham Hotspur.