Os bastidores do ‘Tinder da Bola’, que reuniu em Lisboa 280 times do mundo — e possivelmente o seu

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Os 39º C registrados na cidade de São Paulo, palco da última edição do TransferRoom Summit, em junho deste ano, estiveram bem longe dos 19ºC marcados em Lisboa, onde ocorreu a nova edição do evento do “Tinder da Bola“, que aconteceu nos dias 13 e 14 de novembro. Mas a diferença de temperatura ficou apenas no lado de fora.

Porque dentro do Centro de Congressos do Estoril, o clima estava aquecido por dirigentes de clubes e agentes de atletas de diversos países ávidos por negociações. Ali, e apenas ali, seria possível ver conversando os responsáveis por uma joia brasileira como Marcos Leonardo e os representantes de um gigante como Bayern de Munique — como vimos.

A reportagem da PL Brasil foi convidada a marcar presença no evento do TransferRoom pela segunda vez consecutiva e, de quebra, foi o único representante da imprensa brasileira no evento. Pela mídia internacional, nomes como David Ornstein, do “The Athletic”, estiveram presentes.

Foram 280 clubes representados e 77 ligas, de 54 países diferentes, que se reuniram a cerca de uma hora da capital portuguesa. E a proximidade de estar a 10 minutos a pé da praia refletiu no humor de assessores, diretores e membros de comissão técnica: sorrisos, conversas a rodo e muita movimentação em um evento que tem como principal função a criação de situações para transferências de jogadores.

Clubes britânicos e brasileiros no TransferRoom Summit em Lisboa:

Reino Unido: Arsenal, Barnsley, Brentford, Brighton, Cardiff, Chelsea, Crystal Palace, Everton, Hull City, Leeds United, Leicester, Liverpool, Manchester City, Manchester United, Millwall, Newcastle, Nottingham Forest, Plymouth, Southampton, Swansea, Tottenham Hotspur, Watford, West Ham, Wolverhampton

Brasil: Botafogo, Atlético-MG, Vasco da Gama, Flamengo, Grêmio, Internacional

Um epicentro de gigantes em negociação

O Centro de Congressos do Estoril é uma sala imponente: são dois andares extensos, uma sacada de dar inveja e inúmeras mesas para as famosas reuniões entre representantes que “dão match” e tentam negociar jogadores.

Foto: Divulgação/TransferRoom

Depois de chegarmos para o credenciamento, às 11h30 (horário local), o “pequeno almoço” português e os primeiros cumprimentos, todos foram levados a uma enorme sala de conferência, digna dos grandes TED Talks, para a introdução do evento.

O vice-presidente comercial do TransferRoom, Frederik Broholt, deu as boas-vindas aos participantes enquanto ilustrava como o Summit ganhou magnitude desde a última edição em São Paulo. Até mesmo em conversas informais com assessores do evento a reportagem ouviu o grande entusiasmo: “Está cada vez maior“.

Durante os dois dias do evento, mais de 4,4 mil encontros ocorreram entre representantes de mais de 400 clubes, números de recorde para a proposta da empresa. E mesmo a sala de palestra parecia ferver.

Nomes de peso não contiveram a gana do público

Na mesma sala, o apresentador português Pedro Pinto recebeu seu amigo de longa data Paulo Fonseca, técnico do Lille, e Victor Orta, diretor esportivo do Sevilla e ex-Leeds. Nem estes nomes de peso pareciam conter a sede do público em ir para o “vamos ver”.

A conversa do trio, em formato de entrevista de Pedro aos dois colegas, foi centralizada no “processo de contratação de um técnico de ponta” e durou quase uma hora. Nos finalmentes, em roda de perguntas aberta ao público, um silêncio fala muito: os presentes queriam negociar.

Sala de reunião contava com rostos preocupados escrevendo mensagens e celulares aos ouvidos – Foto: Guilherme Ramos/PL Brasil

De rabo de olho pude ver: ao meu lado, scouts e dirigentes teclavam com dedos furiosos seus contatos no WhatsApp e saíam de uma conversa para outra, como quem tinha assuntos importantes a serem tratados — e queriam fazê-lo rápido.

Ao fim da reunião, uma pausa para o almoço foi bem falante para quem deveria estar mastigando: entre a espera para a nova bandeja de frango grelhado chegar da cozinha, agentes e representantes de clubes já trocavam ideias nos mais variados idiomas.

Futebol como língua universal

Apesar de estarmos em Portugal, o inglês era o que reunia as conversas mais mundanas: na hora de pedir uma bebida no bar, quando garçons ofereciam petiscos ou para perguntar algo aos assessores do evento. Até mesmo a minha plaquinha de identificação da PL Brasil passava despercebida e, no fim, falava inglês com os portugueses.

Foto: Divulgação/TransferRoom

Fora dessas situações, todos se faziam entender com o propósito máximo: o futebol. Flagrei um chefe do departamento de scout de um gigante brasileiro desbravando seu espanhol com representantes mexicanos, bem como seu inglês ao falar com europeus.

A troca em alemão entre colegas do RB Leipzig não me permitia identificar nenhum grau de informação da sua conversa, nem se quisesse, e idiomas completamente desconhecido aos meus ouvidos eram comuns nos corredores. E ainda assim, todos pareciam completamente a par do que estavam conversando.

Como são os “dates” de negociação no TransferRoom

O TransferRoom é um aplicativo que, levado à realidade do mercado de transferências, simula uma espécie de “Tinder” da bola. Clube e agente — ou dois representantes de clubes — pré-arranjam encontros com alvos de seu interesse para ter um “date” no evento. Se os dois lados quiserem se encontrar, dá match.

Os encontros são pré-definidos e, na hora reservada para eles, cada um é avisado no seu aplicativo com quem irá falar e em qual mesa. A disposição das mesas e cadeiras dá um ambiente mais intimista, em que os participantes terão 15 minutos para conversar.

Foto: Divulgação/TransferRoom

Um telão na parede central da sala marca o tempo em contagem regressiva. Faltando dois minutos para o fim, um barulhento som de sino é tocado, e claramente os ânimos nas mesas aumentam para acelerar as tratativas.

Os participantes do TransferRoom levam seu próprio material, mas também usam dados e estatísticas do próprio aplicativo, que abrange desde números simples, como gols e assistências, até métricas avançadas, como valor esperado de transferência (xTV).

Foto: Guilherme Ramos/PL Brasil

O período de encontros individuais no TransferRoom, que durou quase três horas nos dois dias, das 14h30 às 17h30, no horário de Lisboa, só foi interrompido por um pequeno “coffee break” — que no fim se tornou mais uma série de reuniões informais, mas agora tomando café e comendo bolo de chocolate.

Os jornalistas não puderam entrar no local onde ficavam as mesas em que as reuniões aconteciam. Mas, curiosamente, foi durante o período de negociações entre clubes e dirigentes que este repórter mais falou (e mais ouviu).

Os representantes têm até seis horários para preencher no período de encontros, mas podem ter janelas sem nenhum “date”. É nesse momento em que vão tomar uma água, comer um petisco e são convidados pela assessoria do evento a conversar conosco — ou, se estiverem “de bobeira”, serão abordados.

A visão da imprensa: fomos bem-vistos?

Eventos como este não são para a imprensa, mas sim para agentes e clubes de futebol. A ideia não é promover a imagem do TransferRoom, mas que os representantes possam aumentar sua rede de contatos e fecharem negócio a partir das reuniões. Nesta situação, é preciso entender o seu (no caso, o meu) papel.

É importante dar espaço para o verdadeiro público-alvo do evento por diversos motivos. Tanto para que não seja desconfortável para eles — afinal, conversar sendo observado por outra pessoa não é nada legal — quanto para manter uma imagem positiva acerca da imprensa.

No último summit, em São Paulo, houve quebra de limites. Conforme relatado pela assessoria do evento, alguns colegas de imprensa tentaram ouvir conversas particulares, ver telas de celulares e outras “bisbilhotagens” — práticas que, se em outros ambientes podem ser vistas como positivas para jornalistas, num evento como esse, não é de bom tom. .

É tudo sobre limites. Estaria mentindo se dissesse que não tive um olho atento a certos movimentos. Vi um agente de jogadores importantes no Brasil em uma conversa com um representante do Borussia Dortmund na sacada, por exemplo. Mas não poderia confirmar qualquer teor deste encontro, então isso “não é notícia”.

A pausa para refeições, por exemplo, é hora de contatos informais valiosos. Vi representantes de alto calibre de Vasco e Flamengo, rivais fervorosos, comendo uma deliciosa torta de limão juntos, ao lado de empresários de outros jogadores do Rio de Janeiro.

Também conversei com representantes de diversos clubes da Premier League, sempre em um momento oportuno, com educação e sem invasão de privacidade. Mesmo assim, foi evidente a mudança de semblante quando eu dizia que era repórter.

Que legal, e o que você faz? É repórter? Não vai publicar nada do que estamos conversando, né? — disse um preocupado líder de departamento de transferências de um clube do Big-Six inglês.

Em outros casos, sorrisos contagiantes não sumiram ao saber da minha profissão, mas mesmo depois de uma conversa muito amistosa sobre temas como mercado brasileiro e classes sociais de diferentes regiões da Inglaterra, a resposta às vezes se repetia:

Ah… Te passar meu número? Não posso, cara, perdão! — lamentou um ex-jogador e atualmente funcionário que estava representando um clube da Premier League.

O “deslize” de perceber que talvez tenha falado demais para um jornalista também foi evidente em certa ocasião. Um chefe de departamento de um gigante inglês digitou seu número no meu celular, me falou sobre seus jogadores brasileiros e só depois percebeu que a conversa poderia ser mais comprometedora do que ele imagina.

Não será, entretanto, uma vez que não será publicado nada que tenha sido dito em conversas informais ou informações que vieram de um diálogo que foi pedido para ser mantido em sigilo. Fazer o contrário seria perder a credibilidade com os contatos que acabamos de criar.

O outro lado da moeda

Mas nem tudo termina com uma cara feia. Representantes de um clube esloveno me pararam ao ver meu crachá e me bombardearam de perguntas, por exemplo.

— Ele (diretor do clube) jogou no Tottenham antes de se aposentar, era parceiro do Harry Kane! — me disse um dos representantes, apontando para o seu colega de clube.

A diferença é vista na magnitude dos clubes: os que representam os de menor expressão “precisam” ser mais abertos e “vender o seu peixe”, enquanto os gigantes já são procurados.

— Espero que você escreva uma matéria no futuro sobre um jogador nosso que foi para a Premier League! — brincou o entusiasmado esloveno em nossa despedida.

E também pode variar pela profissão. Se representantes de clubes, principalmente os ingleses, são mais fechados e às vezes sequer trocam contato com a imprensa, existem os casos mais abertos.

Empresários tendem a gostar de falar mais do que analistas ou chefes de departamento de clubes. E conversar sem ser indelicado e incisivo demais é a chave — voltei para o hotel com uma boa relação com ao menos três empresários importantes no Brasil, por exemplo.

No fim do segundo dia de evento, acabei em uma roda com dois rivais brasileiros e outros dois agentes de jogadores, rindo, bebendo cerveja e contando histórias que tiveram com seus atletas mundo afora. Se me portasse como uma mosca que fica pairando em seus ouvidos enquanto falam com os outros, acabaria voltando para o hotel sem a cerveja, sem as histórias e sem os contatos.

O “date”, na verdade, não tem fim…

O fim do período de encontros, no fim das contas, é mera formalidade. Depois que o último sino toca, a grande maioria das pessoas se levanta, dá um suspiro de alívio momentâneo e sobe para o andar onde ficam as mesas de comida. Lá, a “brincadeira” continua.

Foto: Divulgação/TransferRoom

As horas finais do evento do TransferRoom contaram com uma banda tocando ao vivo — e muitas músicas brasileiras. Ao som de Exaltasamba numa versão de jazz, as conversas pareciam mais frenéticas do que nunca.

Em meio aos garçons servindo pães, queijos, ceviches e salgadinhos, músicas como “Um pôr no sol na praia”, de Ludmilla e Silva, mal eram ouvidas. Os participantes que ora estavam sentados, negociando de maneira comportada, agora já tinham suas cervejas e vinhos na mão e andavam de lá para cá para atacar diferentes alvos.

Incansáveis, até mesmo na saída do prédio, na calçada, ainda havia troca de contatos. Um evento com grande foco em networking de fato teve um público ávido pelo seu propósito.

E até os funcionários do Centro de Congresso do Estoril já pegaram o ritmo. Ao devolver meu último copo antes de ir embora no primeiro dia, dei um tchau aos garçons e já fui “alertado”:

— Chega por hoje, né? Porque amanhã tem mais.

O amanhã, metaforicamente, representa todos os dias após o fim do evento presencial, nesta terça-feira (14). Às vezes, a negociação não é necessariamente fechada no summit do TransferRoom, mas muitos acordos, ainda que de forma embrionária, surgem lá.

E, neste cenário, amanhã sempre tem mais: mais conversas, negociações, “dates”, drinks e apertos de mão após um acordo de transferência.

Guilherme Ramos
Guilherme Ramos

Jornalista pela UNESP. Escrevi um livro sobre tática no futebol e sou repórter da PL Brasil. Já passei por Total Football Analysis, Esporte News Mundo, Jumper Brasil e TechTudo.

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