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A Tragédia de Heysel e as mudanças no futebol inglês

O acontecimento em Bruxelas teve grande importância no combate aos hooligans

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Tragédia de Heysel
(Foto: Reuters/Nick Didick)

A PL Brasil deu início a mais uma série de textos. Vamos contar os motivos para a revolução no futebol inglês nas últimas décadas e mostraremos os resultados de tantas mudanças. Hoje falaremos sobre a Tragédia de Heysel.

Começamos contando a história dos hooligans, um dos grupos mais violentos da história do esporte, a sua interferência no futebol, com uma visão sociológica do tema.

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Mostramos que eles, na verdade, tinham prazer em brigar e, embora tivesse grande força repressiva dos policiais, a euforia do momentos nas lutas os motivava.

O futebol inglês sofreu muito por causa deste grupo. Diversos casos de brigas podem ser contados por torcedores que viveram, principalmente, a década de 1980 nos estádios ou em volta deles.

Um evento primordial para que todas as mudanças na Premier League decorrentes tivessem início foi a Tragédia de Heysel, durante a final da Copa dos Campeões (Liga dos Campeões atualmente) de 1985. E este será o tema do texto desta semana. Confira!

(Foto: Getty Images)

Triste noite para o futebol

A noite daquele dia 29 de maio de 1985 reservava à Juventus e ao Liverpool uma decisão. Ao menos no planejamento, a partida seria memorável para os clubes pelo futebol e briga pelo título mais disputado na época que coroava o melhor time da Europa.

O Liverpool vivia sua melhor fase da história. Até aquele ano, o Liverpool tinha 7 títulos europeus. Os Reds buscavam o oitavo. Seria o quinto de Copa dos Campeões na história do time – o segundo sob o comando de Joe Fagan, um dos grandes nomes da história dos Reds no século passado.

Bob Paisley, grande nome da história do Liverpool, havia saído em 1983 do clube, aposentando-se do futebol. Joe tentava novamente um título, depois de dois anos da sua última campanha vencedora na competição.

Já para a Juventus, aquele jogo era fundamental. Diferente da equipe inglesa, a equipe bianconeri nunca havia conquistado a Copa dos Campeões. Entretanto, tinha jogadores campeões do mundo em 1982 na Espanha com a seleção italiana, além de Michel Platini, o grande craque mundial naquele momento.

No fim da partida, o gol do francês deu o título inédito aos italianos e acabou com toda as piadas dos rivais. A Vecchia Senhora sempre foi alvo de brincadeiras dos torcedores da Internazionale e do Milan, já que eles eram os únicos vencedores da taça europeia no país.

A história do estádio até a Tragédia de Heysel

Eram 59 mil pessoas no estádio de Heysel. Localizado em Bruxelas, na Bélgica, aquele era o centro das atenções no último dia da temporada 1984/85. O futebol olhava com carinho para aquela final, assim como hoje ainda olham para uma decisão de Liga dos Campeões.

O campo, que hoje recebe o nome de Estádio Rei Balduíno, era o palco de uma final da competição europeia pela quarta – e última – vez. Nas outras vezes, viu Real Madrid, em 1958 e 1966, e o Bayern, de Beckenbauer, em 1974, vencerem a maior competição entre clubes da Europa.

Originalmente, o estádio criado em 1946 tinha capacidade máxima para 11 mil pessoas a mais do que o público presente naquele dia. Entretanto, o reduzido número de público naquela noite não significava ter um bom estado para receber jogos tão simbólicos.

As arquibancadas não estavam em boas condições. Para um confronto como aquele, o palco em Bruxelas não era o mais indicado. Aliás, muitos estádios europeus, à época, não seriam.

Tanto que, antes da partida, torcedores ingleses cavaram buracos em meio ao grande muro belga. Com isso, puderam entrar sem pagar e sem o controle da segurança do evento. Isto causou superlotação nas arquibancadas.

Hooligans em ação

(Foto: Maja Moritz/Bongarts/Getty Images)

Mas o estado do campo ou da arquibancada não foram os únicos motivadores deste desastre, embora a má distribuição de torcedores tenha ajudado muito. Os hooligans tiveram, novamente, uma participação efetiva em um acontecimento trágico no futebol europeu.

O grupo de torcedores violentos já estavam ganhando fama na Inglaterra com ações frequentes durantes os campeonatos nacionais. Contudo, vale ressaltar que o mundo todo já sofria com a presença da violência no entorno do esportes, com quase todos os mesmos princípios encontrados no grupo britânico.

Os românticos do futebol tiveram de ver o sofrimento de muitas famílias após o desastre. O esporte, que sempre foi motivo de felicidade, alegria e esperança para muitos, sofria com atos criminosos.

Foram 39 torcedores mortos. A grande maioria deles era de italianos. Os ingleses também sofreram. Quem estava no meio da multidão, sofreu com a briga e toda a confusão. Até os que viam a tragédia por fora, sem familiares no meio, pois viam que o futebol não era mais um ambiente seguro e de lazer.

Mais do que isso, eles viam que aquelas pessoas começaram a ser a “imagem dos britânicos”. Muitos criaram uma ideia de ingleses agressivos, briguentos e que gostavam de causar confusões na cabeça. Isso gerou certa xenofobia, fazendo com que os ‘filhos da rainha', em geral, fossem intitulados como perigosos e violentos.

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O momento do evento foi antes do apito inicial do confronto. Os torcedores estavam muito próximos. Havia apenas um alambrado separando as torcidas. No meio disso, poucos policiais – cerca de cinco – tentavam proteger a área de separação na arquibancada. Pedras, entre outros objetos, foram lançadas de um lado para o outro.

Com os italianos espremidos na parede, alguns tentaram fugir escalando o alambrado.  Eles pulavam para o outro lado e, para infelicidade de todos, caiam dentro da área da torcida mais voraz do Liverpool. Este encontro potencializou ainda mais a tragédia do estádio de Bruxelas.

Com tanta confusão, o estádio cedeu. Mais de 600 feridos e 39 mortos, de grande maioria italianos. Este foi o resultado da barbárie. O despreparo e as condições pífias do estádio cooperaram para a tragédia, mas os hooligans potencializaram e muito tais acontecimentos.

Aqueles sessenta minutos antes da decisão foram chamados pelo chefe-executivo da UEFA, Lars-Christer Olsson, em 2004, de “a hora mais sombria da história das competições da UEFA”.

Depois de tudo, a bola rolou

Platini era o melhor jogador do mundo na época (Foto: Lapresse)

Tão patético quanto a decisão da Uefa de realizar o jogo – embora o Liverpool tenha recusado de primeira, pois estavam abalados com as mortes, ou à penalidade inexistente naquele jogo – foi a comemoração do gol de Platini como se estivesse em outro mundo e que ninguém havia morrido ali, do lado, horas antes.

Foi um jogo feio, sem muito brilho técnico. Certamente, o motivo disso havia sido a tragédia. Os ingleses, embora tenham visto cenas menores, mas parecidas, anos antes, estavam perplexos com até onde o ser humano poderia ir por apenas prazer em brigar.

“Ponto”: a punição

Depois da Tragédia de Heysel, era a hora de combater o vandalismo. Os hooligans precisavam ser extintos. Uma ação da UEFA teve como principal motivo a punição para todos os times ingleses.

Eles foram excluídos de todas as competições internacionais por 5 anos. Para quem havia vencido sete das últimas nove Copa dos Campeões, ficar tanto tempo sem participar do torneio foi um prejuízo incalculável.

Demoraram para poderem voltar à elite da Europa. Somente em 1999, com o Manchester United, de Alex Ferguson, que a Inglaterra voltou a ter um representante no topo do campeonato.

Entretanto, olhando por outro lado, os hooligans foram alvos de uma perseguição furiosa da polícia. Os oficiais queriam acabar com o grupo que havia feito seus clubes não poderem disputar o tão sonhado torneio.

Este foi o ponto – até então – final dos hooligans. Achavam que havia conseguido acabar com eles. 

A vírgula: a não-extinção

Em partes, nunca mais ocorreu acontecimentos do nível da Tragédia de Heysel. Entretanto, o grupo continua fazendo seus encontros para brigar atualmente pelo simples prazer.

Em 2016, os hooligans ingleses reapareceram. Um confronto entre torcedores ingleses e russos na última Eurocopa chamou a atenção do mundo futebolístico, que ficou com medo de possíveis atos de vandalismo.

Isso prova que os hooligans não foram extintos. Eles ainda atuam, em menor proporção, no meio do futebol. A Inglaterra, o futebol e muitas vítimas, infelizmente, ainda podem sofrer com os antigos inimigos.

Mas também não se dava tanto valor e importância para um palco melhor. Assim como não se importavam com possíveis acidentes que poderiam ocorrer – e que aconteceram posteriormente. O foco era o jogo, e não no estado das arquibancadas e seu entorno, no conforto e segurança dos espectadores.

A Tragédia de Heysel alertou o mundo do futebol para isso, mas foi outro momento histórico, embora negativo, que fez com que tudo mudasse nos estádios: o Desastre de Hillbourough, quatro anos depois.

Quer saber mais sobre o acontecimento que marcou o futebol inglês e deu início ao planejamento da Premier League? ! Este desastre será o tema do nosso próximo texto desta série.