A outra vez em que o Tottenham chegou às semifinais da Liga dos Campeões

Spurs vão enfrentar o Ajax para tentar avançar à decisão

Danny Blanchflower - Tottenham x Benfica
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Ao eliminar o Manchester City num jogaço no Etihad Stadium, o Tottenham avançou às semifinais da Liga dos Campeões e quebrou um tabu: há 57 anos, desde sua primeira participação no torneio (então denominado Copa dos Campeões), o clube londrino não alcançava esta fase.

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Relembramos aqui as histórias e os grandes momentos daquela campanha, na qual os Spurs andaram muito perto de se tornarem o primeiro clube inglês a disputar uma final da principal competição interclubes do continente.

O contexto

No início dos anos 1960, o Tottenham vivia uma era de ouro: aclamado então como a melhor equipe do futebol inglês, o time dirigido pelo lendário Bill Nicholson se tornara, em 1961, o primeiro no século a fazer a “dobradinha”, vencendo liga e a Copa da Inglaterra na mesma temporada.

Capitaneado pelo médio norte-irlandês Danny Blanchflower, contava ainda com outros astros de primeira grandeza da época, como o zagueiro Maurice Norman, o volante Dave Mackay, o meia John White, o ponteiro Cliff Jones e o goleador Bobby Smith.

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O título inglês, segundo da história do clube, credenciou os Spurs a disputarem a Copa dos Campeões, então em sua sétima edição e que contaria pela sexta vez com a participação de um representante inglês.

Nas anteriores, o Manchester United havia chegado duas vezes às semifinais em 1956-57 e 1957-58; o Wolverhampton caíra nas oitavas em 1958-59 e nas quartas em 1959-60 e o Burnley também seria eliminado nas quartas em 1960-61.

Os primeiros obstáculos

A competição – então disputada inteiramente em mata-mata – começou para o Tottenham na chamada fase preliminar. E em sua estreia em copas continentais, o time tomou um susto na visita ao Gornik Zabrze, em partida disputada na cidade polonesa de Chorzow.

No início do segundo tempo, envolvido pelo jogo veloz dos donos da casa, o Tottenham já perdia por 4 a 0. Mas na metade da etapa final, dois gols quase seguidos dos ponteiros Cliff Jones e Terry Dyson tornaram menos difícil a tarefa da equipe na partida de volta.

Na verdade, nem chegou a ficar difícil em White Hart Lane: os Spurs simplesmente esmagaram o Gornik, aplicando um sonoro 8 a 1. Blanchflower abriu o placar de pênalti, Cliff Jones anotou um hat-trick e Bobby Smith marcou o quinto, com Ernest Pol descontando para os visitantes.

Na etapa final, mais três gols: Smith anotou seu segundo, Dyson tabelou com Blanchflower para marcar o sétimo e, no último minuto, John White recebeu na área e chutou cruzado para fuzilar o goleiro Hubert Kostka e fechar o massacre.

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Na fase seguinte, o adversário seria o Feyenoord, que tinha como principal jogador o experiente ponteiro esquerdo Coen Moulijn, considerado um dos maiores talentos do futebol holandês antes de Johan Cruyff.

Mas quem brilhou no primeiro jogo, em Roterdã, foi um garoto de 18 anos dos Spurs chamado Frank Saul. Depois de Terry Dyson abrir o placar no primeiro tempo, ele ampliou no começo da etapa final, antes de Reinier Kreijermaat descontar com um chutaço.

O gol do Feyenoord incendiou o jogo, e os donos da casa acertaram a trave pouco tempo depois. Mas aos 31 minutos, Frank Saul escapou pela ponta esquerda e bateu cruzado para anotar seu segundo gol na partida, tranquilizando o Tottenham.

Na partida de volta, em Londres, os holandeses começaram assustando e marcaram aos sete minutos com Rinus Bennaars. Mas o empate dos Spurs viria três minutos depois com Dyson, e o resultado de 1 a 1 bastou para levar os ingleses adiante.

Um novo goleador

Semanas após a classificação, o Tottenham trouxe um reforço de peso para sua equipe: sem se adaptar ao Milan, para onde havia se transferido vindo do Chelsea no fim da temporada anterior, o centroavante Jimmy Greaves estava de volta a Londres.

Goleador absurdamente prolífico, Greaves havia se sagrado artilheiro da liga inglesa em 1959 e 1961 pelo Chelsea (nesta última, anotando 41 gols em 40 jogos) e, até o fim daquele ano, contabilizava 16 gols em 15 partidas pela seleção inglesa.

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Porém, por motivos de inscrição, não poderia ser escalado para a partida das quartas de final, contra um adversário duríssimo: o Dukla Praga, base da seleção da Tchecoslováquia que dali a alguns meses enfrentaria o Brasil na final da Copa do Mundo no Chile.

Entre os muitos destaques daquela equipe, estavam o meia Josef Masopust (que venceria a Bola de Ouro da revista France Football naquele ano de 1962), os defensores Ladislav Novak e Svatopluk Pluskal e os jovens atacantes Josef Adamec e Josef Jelinek.

A primeira grande batalha

Realizados em fevereiro, os dois jogos foram disputados com os campos cobertos de neve. Em Praga, num jogo muito parelho, o Dukla marcou aos 14 minutos da etapa final com Rudolf Kucera e levou a vantagem para Londres.

O Tottenham, porém, tratou de marcar logo cedo. Depois de um gol de Dave Mackay ser anulado, os Spurs abriram o placar aos 11 minutos com Bobby Smith, que dominou a bola alçada na área por Blanchflower e tocou para as redes mesmo escorregando na neve.

Aos 15, veio o segundo gol, com um passe espetacular de John White (que morreria tragicamente dois anos depois, ao ser atingido por um raio) para Dave Mackay, que também dominou com estilo antes de fuzilar o goleiro Pavel Kouba.

Logo na volta do intervalo, Jelinek aproveitou falha do zagueiro Tony Marchi e descontou para os tchecos, recolocando a tensão no jogo. Mas os Spurs não se abalariam, partindo para uma vitória categórica marcando mais duas vezes.

Primeiro Bobby Smith completou de cabeça um cruzamento da direita. E um minuto depois, o lateral-direito Peter Baker levantou outra vez a bola na área e Smith passou de cabeça para Mackay, que apenas tirou a bola do goleiro Kouba e decretou a goleada: 4 a 1.

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Além de igualar o feito do Manchester United de melhor campanha inglesa no torneio até ali, os Spurs tinham outra boa notícia para as semifinais: Jimmy Greaves enfim estava inscrito e liberado para enfrentar outro adversário de peso: nada menos que o Benfica, atual campeão.

Juntamente com a base da equipe detentora do troféu, o clube lisboeta também apresentava grandes novidades, como o ponta-esquerda Simões, de apenas 18 anos, e um rápido e letal atacante de origem moçambicana chamado Eusébio.

O fim do sonho

E logo de saída, os portugueses marcaram quando Bill Brown deteve uma cabeçada de Mário Coluna, mas Simões pegou o rebote para abrir o placar aos cinco minutos. Em seguida, Greaves marcou para o Tottenham, mas o gol de empate foi anulado por impedimento.

Aos 19, o Benfica voltou a marcar com José Augusto, numa jogada confusa, com uma sequência de erros. O Tottenham, por sua vez, perdeu várias chances de diminuir a desvantagem antes do intervalo. Só mesmo no início do segundo tempo é que descontaria.

Aos nove minutos, Blanchflower alçou a bola sobre a área e Bobby Smith finalizou com raiva para reduzir a desvantagem. Porém, ela de novo aumentaria em novo gol de cabeça, aos 20 minutos, agora para o Benfica, anotado por José Augusto.

No fim do jogo, o lance mais polêmico: Greaves cruzou da direita e Bobby Smith venceu o goleiro Costa Pereira. O juiz, em princípio, validou o gol, mas o auxiliar marcou um impedimento contestável, uma vez que o autor do tento estava bem atrás da linha da bola.

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Foto: Mirrorpix

Na volta, mais de 64 mil torcedores lotaram White Hart Lane para empurrar o Tottenham, que precisava vencer por dois gols para forçar um jogo desempate (os tentos marcados no campo do adversário não contavam como desempate), ou então mais de dois para avançar direto.

Só que foi o Benfica quem marcou primeiro: aos 15 minutos, José Águas completou cruzamento forte de Simões da esquerda. Aos 23, o Tottenham respondeu com Greaves emendando para as redes um cruzamento de Bobby Smith. Mas o gol foi anulado.

Era o terceiro tento invalidado do Tottenham nos dois jogos das semifinais, o que só aumentava a frustração da torcida. No caso deste, que levou alguns minutos para ser anulado, a marcação de impedimento não é tão clara, uma vez que Greaves parece vir de trás da defesa.

O empate só viria mesmo aos 35, quando Smith recebeu de White na área, dominou no peito e encheu o pé para vencer Costa Pereira. O Benfica ainda assustou no fim do primeiro tempo, acertando a trave. Mas pouco depois do reinício, o Tottenham virou o jogo.

Em meio a uma bola alçada para a área, Coluna empurrou White, e o árbitro apontou o pênalti. Blanchflower, com categoria, mandou para as redes. Bola para um lado, goleiro para o outro. Mais um gol do Tottenham e tudo se igualaria nas semifinais.

Os Spurs chegam muito perto do terceiro gol em dois lances que param nas traves. Numa delas, Mackay sobe mais que todo mundo, mas sua cabeçada acerta o travessão. Depois é a vez do Benfica também ter um gol de Simões anulado por impedimento.

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Houve ainda muitos protestos da torcida num lance em que supostamente o zagueiro Germano teria tocado com a mão na bola dentro da área. Mas agora nada mais adiantava. Os Spurs davam adeus à sua chance de consagrarem seu time de ouro com o título máximo europeu.

“Foi o jogo mais difícil da minha vida”, comentou o húngaro Béla Guttmann, técnico do Benfica. As Águias bateriam o Real Madrid por 5 a 3 na final, levantando o bicampeonato do torneio. Ao Tottenham, após ter sido surpreendido pelo Ipswich na liga, restaria o bi da FA Cup, vencendo o Burnley.

De um jeito ou de outro, o Tottenham fez história: se o sonho da Copa dos Campeões parou nas semifinais, o clube se tornaria o primeiro inglês a levantar um título continental. A vitória na FA Cup, que salvou a temporada dos Spurs, levou à conquista da Recopa, no ano seguinte.

Naquela trajetória vitoriosa, o time de Bill Nicholson eliminaria Rangers, Slovan Bratislava e OFK Belgrado, antes de golear o Atlético de Madrid por 5 a 1 na final em Roterdã. Ao torneio principal do continente, entretanto, o clube só voltaria na temporada 2010/11.