‘Nada poderia me parar’: Torcedor encarou 600 km e perrengues por taças do City e ídolo Elano

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Cauã Terroso, que nasceu com paralisia cerebral, superou aperto financeiro e 12 horas de ônibus com acidentes no trajeto e falta de acessibilidade ao banheiro em primeira viagem de sua vida sem os pais: “Por três dias, eu tive a sensação de como é ser livre”

Cauã Terroso sorri em evento do Manchester City (Foto: Arquivo Pessoal)

A página oficial do Manchester City compartilhou um vídeo de uma homenagem do ídolo Elano a um torcedor ilustre, que percorreu 600km de ônibus até São Paulo para ver de perto as taças da tríplice coroa (Copa da Inglaterra, Premier League e Champions League), e também de Supercopa da Uefa e Mundial de Clubes, conquistas mais recentes. Mas a distância, talvez, seria o menor dos desafios.

Natural de Itajaí, Santa Catarina, Cauã Terroso, de 26 anos, é fanático pelo Manchester City. Cauã começou a torcer para o clube inglês em 2008, quando Robinho chegou ao clube. Com pouco acesso à TV a cabo na época, ele jogava com o time inglês no videogame e procurava notícias do clube na internet. Agora, 16 anos depois, ele pôde celebrar a fase mais vencedora dos Citizens vendo as principais taças de sua história de perto.

Mas foi preciso uma megaoperação para levar Cauã até São Paulo. Além da distância, havia a questão financeira e sua condição de saúde. O jovem torcedor do Manchester City nasceu com paralisia cerebral. Houve falta de oxigênio no cérebro na hora do parto, o que gerou limitações no braço esquerdo e nas pernas. Foi a primeira vez que ele viajou sem os pais e estava com a companhia de um amigo.

Os 600 km foram apenas o começo

Cauã é amigo do presidente da torcida The Citizens Brasil, Lucas Souto, desde 2017. Quando soube que os troféus viriam para o Brasil, ainda em setembro, ele disse ao torcedor catarinense:

“Vou te trazer para São Paulo nem que eu gaste todas minhas economias”.

De lá para cá, os dois foram montando roteiro e olhando lugares de hospedagem. Mas, às vésperas do evento, Lucas se deparou com muitos contratempos, que lhe custaram muito dinheiro e que deixaram a “missão” de levar Cauã para São Paulo por um fio.

Foi desastre atrás de desastre. Enfrentei problemas judiciais e gastei muito com isso. Falei “Cauã, deu ruim”. Depois, quando deu uma aliviada, minha vó faleceu. Minha mãe teve que ir às pressas para o Nordeste e as passagens foram muito caras. Eu falei de novo “Cauã, deu ruim de novo”. E ainda apareceu um monte de imposto que eu tinha que pagar e o valor foi alto. Eu falei de novo “Cauã, agora é oficial, deu ruim”. Ele deu um jeito e eu falei que conforme passasse o tempo eu iria ajudando até zerar isso aí — contou Lucas Souto, presidente da The Citizens Brasil.

O jovem catarinense precisou recorrer à família para conseguir pagar todos os gastos dessa mega-operação. Mas o perrengue para chegar até São Paulo mal havia começado. No trajeto, o ônibus se deparou com dois acidentes na estrada, o que esticou uma hora a mais na viagem que seria de 12h. E o pior de tudo era a falta de acessibilidade ao banheiro.

Eu praticamente não tinha acesso ao banheiro. Para eu poder usá-lo, tinha que esperar o ônibus parar para utilizar meus recursos e poder me aliviar. O ônibus era o último recurso, justamente pela dificuldade que sabíamos que seria. Mas devido a tudo que aconteceu, foi o que sobrou. Para quem tem a coluna operada, viajar por 12 horas não é fácil, mas a história foi feita e, se eu pudesse, faria tudo de novo — disse Cauã.

Chegada ao evento do Manchester City

O Manchester City veio ao Brasil na última semana e expôs os troféus da tríplice coroa em Salvador e São Paulo. No último sábado (13), o evento dos Citizens teve a presença do ídolo Elano.

Uma forte chuva caiu na hora do evento e as escadas do local eram de difícil acesso para Cauã, que contou com a ajuda de alguns torcedores e funcionários do lugar para chegar até onde estavam as taças.

— Quando eu subi, parecia um formigueiro perto de mim. O pessoal se juntou, começaram a conversar comigo e funcionários do City me deram um suporte sensacional. O segurança falou em inglês “Eu vou pôr você lá em cima para tirar foto com as taças”. Quando cheguei lá, foram saindo as pessoas da minha frente e abriu aquele clarão. Quando eu vi as taças, a emoção foi forte demais. Comecei a chorar copiosamente — conta Cauã.

“Lembro que o Lucas me cutucou e disse: ‘Olha para a direita e vê quem tá aqui'. Quando eu vi que era o Elano, aí eu chorei mais ainda.”

Ver Elano de perto fez a ficha cair para Cauã. Após 16 anos de espera, 600 km percorridos e muitos perrengues superados, ele realmente estava lá pertinho dos troféus do seu time do coração.

“Também lembro que o Elano perguntou pra mim: ‘Já ganhou a camisa?' Eu disse que não. Ele pegou uma, autografou e deu para mim.”

Elano Cauã Manchester City
Foto: Arquivo Pessoal

No dia seguinte, Cauã ainda não havia processado tudo o que tinha acontecido nas últimas 24 horas, mas compareceu novamente ao segundo dia de evento. Ao pegar o microfone para falar com os torcedores presentes, Elano surpreendeu e fez uma homenagem emocionada a Cauã.

Eu, de primeiro momento, fiquei constrangido porque não esperava, mas depois de ver o pessoal me aplaudindo, me deu um sentimento de satisfação, de missão cumprida, que realmente valeu a pena fazer tudo aquilo e passar por todos esses perrengues –– diz Cauã.

Muito mais que futebol

Cauã é um torcedor ilustre do Manchester City no Brasil. Na conquista da Champions League, um vídeo de sua comemoração viralizou nas redes sociais e chegou até membros da The Citizens Brasil por meio do amigo Lucas.

Comovidos, três integrantes da torcida se ofereceram para pagar o plano de sócio-torcedor do jovem catarinense. “Tive a honra de conhecê-los em São Paulo, agradecer pelo feito e por terem me acolhido tão bem”, conta e adiciona:

Duas palavras: Futebol e liberdade. Só essas coisas são capazes de fazer com que a gente passe o que eu passei. Por três dias, eu tive a sensação de como é ser livre. Não tinha escada e nem dificuldade nenhuma que pudesse me parar. Foi gostoso demais”.

Manchester City campeão de novo?

O atual campeão da Premier League e da Champions League é novamente um dos favoritos em todas as competições nesta temporada, mas Cauã tem uma visão mais pé no chão.

— Ser campeão de tudo honestamente é muito difícil. Acho que não vai ser. São poucos times que venceram tudo duas vezes seguidas. Acredito que seria algo único. Mas eu acredito que o tetra consecutivo da Premier League venha, já que Kevin De Bruyne está de volta. E como diz o Klopp: “Quando Kevin De Bruyne tira o colete para entrar em campo, a Inglaterra treme”.

Mas o Manchester City não é a única paixão de Cauã. O catarinense também torce para o São Paulo e o que será que ele prefere: mais uma Champions para os Citizens ou uma Copa Libertadores para o Tricolor?

— Rapaz, que saia justa! De verdade, eu não consigo escolher um. A ligação com os dois para mim é muito forte, mas uma coisa eu te digo. Se cai São Paulo contra Manchester City na final do Mundial, eu torcerei para o São Paulo até o fim. Mundial para mim é sagrado!

Romulo Giacomin
Romulo Giacomin

Formado em Jornalismo na UFOP, passou por Mais Minas, Esporte News Mundo e Estado de Minas. Atualmente, escreve para a Premier League Brasil.