O meteórico título inglês do Nottingham Forest de Brian Clough

Recém-promovido, o Forest conseguiu ser campeão inglês na primeira temporada na elite

nottingham forest título inglês

Nos dias de hoje, é bem difícil de imaginar que algum clube consiga subir para a sua divisão de elite e logo de cara seja campeão nacional. Na Inglaterra, então, é algo apenas para o mundo dos sonhos ou do cinema. Bem, exemplos de filmes que foram baseados em fatos não faltam. A história do título inglês do Nottingham Forest de 1977/1978 não é só de filme como virou um.

O diretor, digo, o técnico por trás disso tudo era um homem de muita personalidade, já conhecido no cenário do futebol inglês, e que precisava de uma nova oportunidade para voltar aos holofotes: Brian Clough.

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Graham Wood/Evening Standard/Getty Images

Ao lado de seu auxiliar Peter Taylor, Clough já havia conseguido sucesso com o Derby County. Nos Rams, o treinador foi campeão inglês e, por muito pouco, não conseguiu disputar uma final europeia, sendo eliminado somente nas semifinais da antiga Copa dos Campeões pela Juventus.

Depois de desavenças com a diretoria, o genioso técnico se demitiu e saiu de Derby. Após deixar East Midlands, Clough rumou para duas rápidas passagens por clubes opostos. A primeira foi em Brighton, um rico e promissor time, à época na quarta divisão inglesa.

Ao deixar a cidade praiana em 1974, a principal perda do treinador, sem dúvidas, foi o rompimento de sua parceria com Peter Taylor. A dupla só voltaria a trabalhar junta em 1976. 

Clough concordou em abandonar um projeto promissor, além de seu amigo, por um motivo especial: assumir o Leeds. A equipe de Yorkshire era a melhor do país naqueles tempos e havia acabado de perder seu líder Don Revie, que agora comandava a Inglaterra.

Ferrenho crítico dos Whites ainda quando estava em Derby, Clough se viu em apuros com o elenco e acabou demitido após incríveis 44 dias.

Vida nova em Nottingham

Novamente desempregado, o orgulhoso treinador não pensou duas vezes em aceitar o convite de um antigo rival, que flertava com o rebaixamento à terceira divisão inglesa e pedia socorro. Assim começou a trajetória de Brian Clough com o Nottingham Forest.

Já com a temporada 1974/1975 em curso, o novo comandante dos Reds precisava analisar o material humano para saber o quê poderia melhorar e o quê deveria ser aproveitado no atual elenco.

De cara, Clough tratou de resgatar dois velhos conhecidos do náufrago em Leeds: John O'Hare e John McGovern. A dupla se uniu a nomes como Martin O'Neill (hoje técnico), Viv Anderson e John Robertson. Este último, tratado como jogador mais habilidoso da equipe nos anos subsequentes, à época era desacreditado principalmente por sua forma física e estava em franco declínio. Clough mudou esse cenário.

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O primeiro ano serviu para assentar a casa e livrar o Forest do rebaixamento. O time de East Midlands terminou a temporada somente seis pontos à frente da degola.

Avançamos alguns anos e em 1976/1977 bons ventos sopravam rumo ao City Ground. Peter Taylor estava de volta e alguns bons nomes tinham sido trazidos para o elenco. Larry Lloyd, talvez o mais conhecido, passou pelas mãos do revolucionário Bill Shankly em Liverpool. Frank Clark e Peter White foram outros reforços de destaque. A equipe começava a tomar forma.

Depois de um começo de temporada turbulento, os comandados de Clough guardaram um verdadeiro sprint final digno do Tour de France para finalmente conseguir o sonhado acesso, de forma antecipada, após um tropeço do hoje penoso Bolton Wanderers.

Nottingham Forest: da desconfiança ao título inglês

Visando a elite, o Forest pouco se mexeu no mercado, o que acabou contribuindo para previsões pouco audaciosas para o futuro da equipe por parte dos analistas. Apenas Kenny Burns, um centroavante, havia sido contratado. O que ninguém entendeu é que Kenny, Kenneth para Clough, atuaria de zagueiro!

Os Reds empilharam vitórias no início da campanha, com direito a um 3 a 0 no clássico diante do Derby, e a torcida se animou. Contudo, o favoritismo ao título era amplo e continuava sendo apontado para outro time vermelho, de Merseyside.

Atual campeão europeu e buscando o tricampeonato nacional, o Liverpool, de um ainda novato e não coroado Kenny Dalglish, seguia colocando medo em muita gente, mesmo após a saída de Kevin Keegan para o Hamburgo.

Querendo consolidar ainda mais seu elenco, basicamente formado por jogadores nunca testados na elite, a dupla Clough-Taylor encontrou em Peter Shilton e Archie Gemmill duas contratações vitais.

O primeiro, goleiro e sucessor do lendário Gordon Banks na seleção, é daqueles atletas que se pagam. Dono de um talento impressionante, Shilton logo se tornou parte da espinha dorsal da equipe.

Gemmill, por sua vez, já havia trabalhado com Clough no Derby e adicionaria não só experiência como também técnica. O escocês, jogador de seleção, era como um motorzinho e casava impressionantemente bem com John McGovern.

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Os mais novos reforços encorparam a equipe e a campanha, já tratada como milagrosa, seguia mantendo o Nottingham Forest à frente do Liverpool na disputa pelo título inglês.

Todo título possui uma partida marcante na trajetória e aqui não foi diferente. Apesar de não possuir temporada estável naquele ano, o Manchester United seguia impondo respeito. Ao receber o time de East Midlands, os Red Devils poderiam muito bem reforçar a desconfiança, sempre presente, da mídia inglesa em relação ao time de Clough.

Entretanto, o que se viu em um Old Trafford lotado foi um recital dos novatos. Com um belíssimo jogo de Tony Woodcock, um jovem valor, além de contar com a precisão nos contra-ataques municiados por Gemmil, o Forest não tomou conhecimento e enfiou 4 a 0 para deixar Manchester de joelhos. Um aviso de que aquele time não se contentava com pouco.

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O tão esperado ponto final na liga aconteceu em Coventry. Precisando apenas de um empate, o Nottingham Forest contou com uma partida espetacular de Peter Shilton para manter mais um clean sheet e confirmar seu primeiro (e até hoje único) título inglês.

Em números, podemos ver o quão arrasadora foi a campanha dos comandados de Clough: somente três derrotas, todas fora de casa; incrível sequência de 26 jogos sem perder; defesa menos vazada com 24 gols sofridos; 25 vitórias e sete pontos para o vice-colocado Liverpool.

Kenneth “Kenny” Burns, o centroavante incorporado na defesa, rendeu diversos elogios e foi aclamado pela imprensa. Peter Shilton se mostrou decisivo, como previsto. Jonh Robertson, um verdadeiro craque que se reinventou. A dinastia do Forest havia começado e estava faminta por mais taças, quem sabe até fora da Terra da Rainha.

O Nottingham Forest de Brian Clough e Peter Taylor é até os dias de hoje o último clube a vencer o título do Campeonato Inglês em sua primeira temporada após o acesso. O treinador, do descaso em Leeds, conseguiu ovação nacional. O clube, do quase rebaixamento à terceirona, começou uma trajetória gloriosa.

Como disse, uma história para o mundo dos sonhos. Um sonho que se tornou realidade.