Manchester, Newcastle… Por que há tantos times United na Inglaterra?

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Manchester, Newcastle, West Ham, Sheffield, Leeds, Rotherham, Oxford, Peterborough, Cambridge, Carlisle, Colchester e Sutton. São 12 clubes com United no nome somente nas quarto divisões profissionais do futebol inglês.

O “sobrenome” dos clubes é o mais comum entre todos da Inglaterra, que também conta com extensas listas de Athletics, Citys, Wanderers e outros.

Mas, afinal, de onde vem o United? A PL Brasil foi atrás da resposta, que é uma viagem pela história britânica entre o fim do século 19 e o início do século 20.

Vale lembrar que os nomes das agremiações remetem ao tempo de fundação, organizada muitas vezes por amigos, colegas de escola e trabalho. Muitas vezes, os nomes eram escolhidos com base na moda da época, quando esportes como o rugby e o críquete eram mais populares que o futebol.

Além disso, outro aviso importante é que o raciocínio por trás da escolha do nome nem sempre é detalhado em documentos. A história é, muitas vezes, cheia de buracos que tornam as teorias imprecisas. Mas elas estão aí.

De onde vem o United?

“United”, que em tradução livre para o português significa “unidos”, é um adjetivo usado na língua inglesa para descrever um grupo de pessoas que se une politicamente por um propósito ou sentimento em comum.

No futebol britânico, ele foi apropriado, de modo geral, por clubes que foram formados a partir da fusão de dois ou mais times. O United representa a bandeira que uniu dois grupos de torcedores diferentes que passaram a se comprometer com a mesma causa.

Exemplo do Newcastle: união de vários times

Em Newcastle, por exemplo, havia o Newcastle West End e o Newcastle East End — literalmente, um clube do leste e outro do oeste da cidade. O pessoal do oeste era quem jogava em St. James Park, mas, por problemas financeiros, o clube faliu e seus jogadores foram para o East, que passou ele a jogar no principal estádio da cidade.

Mas o campo ficava longe para os torcedores do leste, ao mesmo tempo em que os do oeste não se sentiam representados pelo antigo rival. Foi sugerida então a adoção de um novo nome que unisse as duas tribos, acabasse com os conflitos e representasse o único clube da cidade. Estavam na lista Newcastle FC, Newcastle Rangers, Newcastle City… mas a união prevaleceu. Literalmente: Newcastle United.

É uma história muito parecida com o que aconteceu em Rotherham, na região central do país. A cidade tinha o Rotherham Town e o Rotherham County, que se fundiram para formar o Rotherham United em 1925. O time hoje disputa a Championship.

O United mais antigo

O primeiro clube entre as atuais quatro divisões profissionais inglesas a usar United no nome é o Sheffield United Football Club, fundado em 22 de março de 1889.

Os Blades tem uma história curiosa e diferente dos outros. O clube foi fundado para jogar em Bramall Lane, então um campo cuja atividade principal era o críquete, quando os homens do críquete perceberam que ganhariam mais dinheiro com um time de futebol atraindo público para os seus domínios.

O nome escolhido, então, foi baseado no Sheffield United Cricket Club. Este sim, que estava jogando no campo desde 1854, se formou a partir da fusão de vários clubes de críquete locais.

E o Manchester United?

O mais famoso e vitorioso dos Uniteds ingleses é o Manchester. O time, no entanto, não nasceu com esse nome. Um grupo de trabalhadores da Lancashire and Yorkshire Railway Company (LYR) fundou o Newton Heath em 1878, num bairro de mesmo nome, na região norte da cidade.

Mas o Newton Heath não teve uma jornada muito positiva nas primeiras décadas, principalmente pelo lado financeiro. O clube se tornou o primeiro rebaixado da história da Football League em 1894, ao perder um playoff para o Liverpool, e virou o século numa séria crise econômica.

A situação chegou num ponto em que, em 1902, o presidente do clube, William Healey, entrou na justiça com uma ordem de liquidação contra o próprio clube. Healey estava entre os credores, já que o Newton Heath lhe devia 242 libras esterlinas. As dívidas da entidade estavam na casa das 2.670 libras, número que hoje em dia ultrapassaria as 200 mil libras.

A salvação veio numa reunião pública que discutia a falência. Nela, o capitão do time, Harry Stafford, se levantou para dizer que conhecia um empresário local com dinheiro suficiente para comprar o clube e sanar as dívidas. Se tratava de John Henry Davies, que de fato se tornou o proprietário do Newton Heath.

Inspirado no rival da cidade, que havia abandonado o nome de Ardwick FC para se tornar Manchester City, os novos donos chegaram à conclusão que também deveriam adotar uma nova alcunha mais representativa. A ideia era se vender como um grande clube da cidade que ampliasse seu apelo entre novos torcedores.

Manchester Central parecia uma estação de trem e Manchester Celtic foi rejeitado. A opção escolhida, então, foi Manchester United, oficializado em 26 de abril de 1902. Documentos da época dão conta que a sugestão foi de James Brown, que presidiu a reunião naquele dia, embora Louis Rocca, que fez parte da administração da equipe pelos 48 anos seguintes, sempre tenha dito que a ideia foi dele.

O processo também mudou as cores do clube, que passaram do verde e amarelo para o vermelho e branco.

Leeds e West Ham: outras crises financeiras que originaram novas uniões

Não foi só em Manchester que a falência originou um United. Em Leeds, o time da cidade se chamava Leeds City, mas este foi extinto durante a Primeira Guerra Mundial por denúncias de pagamentos ilegais feitos aos jogadores.

O Leeds City foi expulso da Football League e todos os jogadores foram leiloados para outras equipes. O episódio causou uma revolta na torcida, que precisou se organizar para começar uma nova agremiação do zero. Surgiu daí, em 1919, o Leeds United — o nome simbolizou o desejo dos fãs se unirem na adversidade e a necessidade de atrair novos atletas.

Jogadores do Thames Ironworks FC, que deu origem ao West Ham United, no século 19 (Foto: whufc.com)

Já o West Ham nasceu como Thames Ironworks Football Club, fundado por Arnold Hills, dono da Thames Ironworks and Shipbuilding Company Limited, uma fábrica de navios nas margens do Tâmisa, com o objetivo de aumentar o moral dos funcionários.

O negócio deu mais certo que o esperado, a ponto do clube começar a trazer atletas de fora da cidade para jogar. O futebol se tornou, então, não mais uma simples recreação para os trabalhadores, o que descontentou Hills, ao mesmo tempo em que acabar com o time afetaria o bem-estar dos empregados.

Sua solução foi separar formalmente o clube da empresa e criar uma sociedade anônima na qual ele era o acionista majoritário. O Thames Ironworks Football Club foi extinto em 1900 e, dias depois, surgiu a nova entidade com o nome de West Ham United. West Ham por causa do distrito onde fica a sede, no leste de Londres, e United também para agregar jogadores e torcedores em torno do novo projeto.

Diogo Magri
Diogo Magri

Jornalista formado pela ECA-USP, campineiro e repórter na PL Brasil. Passagens por EL PAÍS, Revista Veja e Futebol Globo CBN.

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