Time LGBT+ acolhe jogadores na luta por inclusão: ‘Clubes como o nosso não deveriam existir’

London Titans recebe apoio do Queens Park Rangers em treinos e campanhas

Time LGBT+ acolhe jogadores na luta por inclusão: ‘Clubes como o nosso não deveriam existir’

Formar um time de futebol que nem deveria existir parece uma atitude incoerente. No entanto, a realidade do London Titans é diferente da maioria das equipes ao redor do mundo. O clube foi fundado em 2005 para oferecer à comunidade LGBT+ de Londres a oportunidade de jogar futebol em um ambiente não-discriminatório.

“Nosso objetivo é ter um clube de futebol livre de julgamentos para todos. Clubes como o nosso não deveriam existir. no futuro, os jogadores LGBT+ serão aceitos no futebol assim como qualquer outro. é apenas uma questão de quando isso acontecerá”, disse Jim Hearson, jogador e chefe de comunicações do clube.

Quem pensa que se trata apenas de uma brincadeira entre amigos, acaba se enganando. O clube conta com um comitê diretor, um código de conduta para os membros dentro e fora de campo e participações – e títulos – em vários campeonatos dentro e fora do Reino Unido.

Todos os membros do London Titans são atualmente da comunidade LGBT+. No entanto, jogadores heterossexuais já representaram o clube no passado, e essa possibilidade segue possível no futuro também. A diretriz principal é ser inclusivo para todos, independentemente da sexualidade ou gênero.

O clube conta com quatro equipes espalhadas por três divisões. O time principal joga aos sábados na Middlesex County Football League, que faz parte da 11ª divisão do futebol inglês.

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Eles também dispõem de uma equipe na Liga Nacional da Rede de Apoiadores de Futebol Gay (GFSN), competindo contra outras equipes LGBT+ em todo o Reino Unido.

Além disso, ainda há a London Unity League, liga inclusiva de Londres, na qual o London Titans ganhou dois troféus recentemente: o Titans Two Brewers venceu a LUL Cup, enquanto o Titans XXL levou o LUL Plate.

Além dos campeonatos regionais e nacionais, o clube londrino também se aventura por terras estrangeiras e coleciona participações em competições europeias nos últimos anos.

“Torneios internacionais como o Paris Gay Games, ou o Roma Eurogames deste ano, são sempre experiências incríveis. Eles nos dão a oportunidade de testar a nós mesmos e fazer amizade. isso realmente nos ajuda a fazer parte de uma comunidade mundial”, disse Hearson.

Casos de times e torneios amadores LGBT não são uma exclusividade inglesa. No Brasil, a Champions Ligay foi fundada em 2017 e é uma reprodução da britânica GFSN National League (Liga Nacional da Rede de Apoiadores de Futebol Gay).

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Para fazer parte do time, é preciso preencher um formulário no site oficial do London Titans. O aviso destaca que não haverá qualquer discriminação por habilidade, idade, cor, sexualidade e gênero.

A cultura de acolhimento contribuiu na união dos jogadores, tanto dentro como fora de campo. De companheiros de time, muitos viraram amigos, formando uma família graças ao futebol.

“É especial fazer parte dos Titans, isso teve um grande efeito em mim. Eu fiquei em forma jogando futebol, sou muito melhor agora, e isso me deu uma família também, já que somos todos muito próximos”, elogiou Callum Jewell, jogador do London Titans.

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Troca de experiência com o Queens Park Rangers

O London Titans não está sozinho na luta contra o preconceito. Quem estendeu a mão foi o Queens Park Rangers, clube profissional que atua na Segunda Divisão. Os dois começaram uma parceria em 2016 e, desde então, colhem frutos dessa união.

“Temos orgulho de nos associar com o Queens Park Rangers, que nos ajuda com ideias de treinamento – às vezes enviando seus treinadores para treinar conosco – e envolvendo-nos em suas campanhas anti-homofobia”, comentou Hearson.

Em 2016, o London Titans foi convidado pela diretoria do Hoops para entrar no gramado do estádio Loftus Road antes de uma partida oficial. Ainda no túnel, o humor de alguns atletas oscilava entre a ansiedade e a apreensão em como seriam recebidos.

Quando o sistema de som anunciou a entrada dos jogadores, muitos torcedores aplaudiram, alguns apenas assistiram, mas não houve vaias. O elenco pode respirar aliviado e aproveitar a experiência de pisar pela primeira vez em um gramado de um clube profissional.

Campanhas de conscientização e combate ao preconceito

Premier League celebrates Rainbow Laces LGBT futebol-min

No âmbito do futebol profissional da Inglaterra, os clubes ingleses, a Premier League e a Federação Inglesa têm se empenhado em colocar em prática campanhas de combate à LGBTfobia, além de punições a agressores dentro e fora de estádios.

No fim do ano passado, a Premier League se uniu à organização Stonewall, reconhecida no combate à LGBTfobia, para promover a campanha Rainbow Laces (cadarços arco-íris) em um acordo de três anos.

Por duas rodadas do Campeonato Inglês, entre 30 de novembro e 5 de dezembro, as partidas da competição contaram com o arco-íris, símbolo da comunidade LGBT+, nas faixas de capitão, bandeirinhas de escanteio, placas de publicidade, dentre outros locais.

Paralelamente a esse fenômeno de mudança, torcidas LGBT+ estão se fortalecendo no cenário atual. Vários clubes da Premier League contam com torcidas do gênero, como Gay Gooners (Arsenal), Chelsea Pride (Chelsea), Kop Outs (Liverpool), Proud Lilywhites (Tottenham), dentre outras.

As entidades também estão monitorando o comportamento de torcedores para combater possíveis agressões racistas e LGBTfóbicas nas arquibancadas e também nas redes sociais.

Em janeiro deste ano, o Chelsea baniu um torcedor do clube por três anos por xingamentos homofóbicos em uma partida contra o Brighton. Além da punição, o jovem de 20 anos precisou pagar uma multa de 965 libras.

Agressões verbais também acontecem no futebol amador. Dentro de campo, os jogadores do London Titans já ouviram xingamentos homofóbicos de atletas do time adversário e decidiram responder no campo.

“A melhor maneira de contra-atacar é vencendo, porque a menos que um árbitro ouça o xingamento, há pouco que a Federação Inglesa possa fazer para punir. a falta de evidências torna difícil para que as federações punam esse tipo de comportamento”.

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