Yan Couto e a crise dos laterais brasileiros: o que fazer com a posição?

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Parece que Savinho vai progredir dentro do Grupo City e acabar no Manchester. Mas será que o mesmo processo vai se aplicar no caso de seu companheiro de Girona, Yan Couto?

Houve especulação que ele iria para o City na próxima temporada. Ainda tem depois do último fim de semana? Contra o Real Madrid, Yan Couto foi destruído de uma maneira tão completa por Vinicius Junior que deixou o campo em frangalhos emocionais no apito final. E se trata de jogador aclamado por muitos como o melhor lateral-direito brasileiro e o futuro de longo prazo na posição na Seleção.

Isso me conduz até uma pergunta interessante.

O que aconteceu com a grande tradição de laterais brasileiros?

Talvez a resposta seja a seguinte — que o desenvolvimento do jogo deixou uma grande dúvida sobre a função de um lateral. Serve para que?

Durante muito tempo no futebol brasileiro, não houve dúvida. Na quase ditadura de 4-2-2-2, os lados do campo eram deixados para os laterais, que estavam precisando de quatro pulmões para fazer o constante ir e vir perto da linha. Com a passagem do tempo, os laterais se tornaram mais atacantes que defensores, e “volante” virou uma palavra para um jogador principalmente destrutivo, cobrindo o espaço nas costas do lateral.

Como um aparte, vale a pena destacar a rigidez das funções neste sistema — interessante já que muitos aqui criticam o modelo de jogo chamado “posicional”, usando o argumento que promove uma rigidez alheia da essência do futebol brasileiro.

Tottenham
Foto: Icon Sport

Bem, de qualquer maneira, a volta dos pontas trouxe grandes consequências para o lateral ofensivo — especialmente no Brasil, onde mais produziu laterais ofensivos e onde hoje em dia mais produz atacantes no lado do campo.

O sucesso relativo da seleção do Tite (que fica bem mais evidente agora depois da passagem desastrosa do Fernando Diniz) tem muito a ver com uma resposta desse desafio. Com pontas atacando pelos lados, o lateral virou um jogador para construir na saída da bola, e pronto para fazer o homem extra no meio do campo. A solidez da seleção no Catar — quase não levou chutes — se explica bastante por aí.

O técnico buscou inspiração na Premier League. Falava que ele estava querendo “laterais de Manchester City.” A alternativa principal teria sido laterais do Liverpool — a ousadia do Jurgen Klopp o conduziu a ter amplitude nos dois lados com os avanços de Alexander-Arnold e Robertson, permitindo a aproximação do lendário trio de frente, Mané, Firmino e Salah.

Um novo desenvolvimento mais ousado ainda vem do Tottenham do Ange Postecoglou, onde o lateral é capaz de virar um jogador de qualquer posição no campo, o coringa que até aparece como centroavante, com os volantes abrindo para os lados para dar para o suposto lateral o espaço para avançar por dentro.

Renan Lodi Nottingham Forest
Lodi após partida do Forest na Premier League (Foto: Icon Sport)

Faz muito tempo, então, que o lateral deixou de ser o lugar nos campos ingleses onde colocava os piores jogadores. Agora, a posição aparece como uma tela branca para um artista do jogo pintar de acordo com as suas características e com o modelo coletivo do time.

E se trata de uma tela branca que, até agora, não tem sido muito bem pintada por brasileiros. Dentro da enorme contribuição que jogadores brasileiros vem fazendo na Premier League, fica difícil achar histórias de sucesso nos laterais. 

Talvez o melhor até agora seja Belletti, que fez um bom trabalho com o Chelsea entre 2007 e 2010. O grande Filipe Luís não conseguiu se firmar no mesmo clube, faltou sorte para Gilberto no Tottenham, faltou solidez defensiva para André Santos no Arsenal. 

A passagem de Maicon no Manchester City foi bem discreta, embora Danilo tenha sido útil no mesmo clube. Alex Telles não fez grande coisa no Manchester United, onde Rafael foi bem razoável, mas o seu irmão Fábio foi uma decepção. 

Mais recentemente, Renan Lodi passou brevemente por Nottingham Forest e Emerson Royal está se mostrando útil no Tottenham pela disposição de ajudar numa crise de lesões, mas não parece um jogador de nível mais alto.

O título, então, do melhor lateral brasileiro na Premier League permanece aberto. Cabe ao futebol brasileiro definir o que quer fazer com a posição.

Tim Vickery
Tim Vickery

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e para a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para ESPN e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos de Tottenham Hotspur.