Saber a pronúncia certa do inglês não é bancar o inteligente. É sinal de respeito em meio à espiral da ignorância

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Agora é respirar. Depois da festa, a pausa. Com os jogos da Copa da Inglaterra neste fim de semana, a maratona festiva da Premier League encerra, e a bola só rola na competição a partir do dia 13.

Isso me dá tempo para tirar do cérebro o som dos brasileiros falando “WEST Ham” em vez de “West HAM”. 

Pode parecer coisa pequena para você, mas, garanto, dói.

Ah, o assunto da pronúncia. Tem um certo tipo de inglês que se irrita demais quando eu apareço na rádio ou televisão falando nomes brasileiros de uma maneira mais ou menos brasileira. Uma breve citação do “Ronaldinho” era sempre um gatilho para uma explosão da raiva nas mídias sociais, e mais recentemente, as humildes quatro letras de “Fred” foram capazes de ganhar uma reação parecida.

Estou, segundo os raivosos, bancando o inteligente, forçando a barra para complicar a vida com as minhas pretensões intelectuais. 

Bem, pode ser verdade em outras áreas da minha existência, mas neste caso, meritíssimo na corte da opinião pública, vou ter que me declarar inocente. Estou meramente falando os nomes com a pronúncia local, das pessoas que me cercam aqui no Brasil, e portanto de uma maneira apropriada para nomes brasileiros.

Nos meus tempos narrando e (com mais frequência) comentando jogos — estava fazendo isso direto com a Libertadores até a pandemia — pensava bastante sobre a questão da pronúncia.

Claro, o ideal é chegar o mais perto possível do nome do clube ou do sujeito na maneira que se fala no seu país.

Trata-se de uma questão de respeito, de fazer o dever de casa necessário para ter esse conhecimento.

Porém, como sempre no jornalismo, tem que lembrar da existência de — esperamos — uma audiência, as pessoas com quem você está tentando se comunicar. Se você fala um nome de uma forma em que a audiência não pode captar, está trabalhando mal.

Acredito, então, que se deve trabalhar entre essas duas referências, de ser fiel e de ser inteligível. Acredito que isso até tem um valor educacional. Sei que ajudei vários dos meus conterrâneos a colocar a tônica no lugar certo no nome de Lucas Paquetá. Agora estou lutando (e parece que estou perdendo) na missão de ajudar brasileiros a acertarem a tônica no nome do seu clube.

Lembro que assisti à Copa de 94 ao lado dos brasileiros em Londres, com narração em inglês. No início do Mundial, cada vez que o capitão da seleção pegava a bola, tinham gemidos de protesto. O narrador nada sabia sobre o “R” português e não sacava que a tônica estava no final. 

Transformou “Rai” numa coisa totalmente diferente. Durante os jogos, o nível de “rai”… va (desculpe, não resisti ao trocadilho) cresceu. No segundo tempo, a galera estava jogando coisas na tela e gritando ‘Burro inglês, só tem três letras e você erra todas!’

Procurava me esconder, e jurei que ia me esforçar para evitar esse tipo de equívoco.

Alguns vão por uma linha de “eles erram os nossos nomes, então porque a gente deveria se esforçar para falar os seus?”’ Concordo que, realmente, ouvir “Flamenco”, “Fluminese” e tal irrita demais. Mas porque se juntar num espiral de ignorância? Fazer melhor que eles não é subserviência — muito pelo contrário.

Vamos curtir, então, um 2024 em que (a não ser que ele consiga uma transferência dos sonhos) Lucas Paquetá siga brilhando na camisa do West HAM. Viu?

Tim Vickery
Tim Vickery

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e para a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para ESPN e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos de Tottenham Hotspur.