Em Coventry City x Manchester United, não posso ficar neutro por um motivo muito especial

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Tem jogos em que não é possível ficar neutro — mesmo se o seu time não estiver envolvido. Para mim, um deles é a semifinal da FA Cup no domingo. Nada contra o Manchester United, mas nesse dia tenho que ser Coventry.

Me deixa explicar.

Coventry é uma cidade no meio do país, perto de Birmingham. Foi bombardeada na Segunda Guerra com tanta ferocidade que até virou um verbo na língua alemã e depois foi reconstruída naquele estilo brutalista do pós-guerra que logo depois ficou fora da moda. Em sumo, não é um lugar de grandes atrativos, mas foi lá que, quatro décadas atrás, fiquei três anos fazendo faculdade.

Se a cidade é vista meio sem graça, a mesma coisa se aplica ao seu time de futebol, Coventry Citythe sky blues, os azuis-celestes.

No final dos anos 1960, o Monty Python, grupo de humoristas absurdos, fizeram piada com o clube. Colocaram um “Karl Marx” no palco e obrigaram ele a responder perguntas sobre cultura popular. Uma delas — “Quantas vezes o Coventry City ganhou a FA Cup?”

“Marx” fica confuso, e não sem motivos. A pergunta é um truque. O Coventry City nunca tinha ganhado a FA Cup. Mas o Monty Python teve que aposentar a piada em 1987.

O Coventry conquistou a Copa e eu acompanhei essa temporada mais gloriosa da sua história.

Eccles e Simms, do Convetry City
Eccles e Simms, do Convetry City. Foto – Icon Sport

Naquela época, o “Cov” (para os familiarizados) era um time da primeira divisão, mas que estava sempre lutando contra o rebaixamento. A temporada 1986-87 começou diferente, com um ar de otimismo. A Copa do Mundo logo antes foi o momento em que eu, agora com 21 anos, redescobri a minha paixão de infância por futebol e eu passei a temporada seguinte — a minha última na faculdade — no estádio Highfield Road, não exatamente como torcedor de Coventry, mas com certeza como simpatizante.

Não ia ganhar o campeonato, claro. A Copa da Liga? Não, caiu contra o grande Liverpool. Mas ainda houve a FA Cup. E cedo na competição, foi para o próprio Manchester United, o adversário de domingo, e ganhou. A partir deste momento, a cidade passou a acreditar.

Chegamos, então, à semifinal, dia 12 de abril, contra o Leeds United. O Coventry era até o favorito. O Leeds naquele momento estava na segundona — ainda assim, botava medo, e não somente dentro do campo.

O Coventry e a viagem para Hillsborough

O jogo foi marcado para Hillsborough, na cidade de Sheffield — muito perto de Leeds. Por medo da torcida deles. A ideia era fazer os fãs do Leeds viajarem o mínimo possível, reduzindo o alcance da bagunça que iam causar. Foi a maior operação até então da polícia para um jogo de futebol.

A gente alugou um ônibus e foi para o norte — e logo cruzou com torcedores rivais. Várias vans de pessoas de Leeds tinham descido a estrada com a missão nefasta de abusar racialmente a torcida do Coventry, para atacar a presença de três jogadores negros na camisa azul-celeste.

Isso precisa de contexto.

No final dos anos 1970, o Coventry emergiu culturalmente como a cidade “Two Tone”. A banda The Specials não era a minha preferida na adolescência, mas foi a mais importante — foi composta de brancos e negros, com uma mensagem forte antirracista. Totalmente apropriado e justo, então, que os jogadores negros de Coventry ganharam o dia.

Lloyd McGrath foi um garoto local, um volante sem grande habilidade, mas com seis pulmões. O centroavante Cyrille Regis foi o melhor do time, um jogador de classe e força que é uma lenda no futebol inglês. Na ponta direita, teve o Dave Bennett, um extremo ligeirinho que num dia feliz era bem capaz de entortar o sangue de seu marcador.

O jogo contra o Leeds estava cheio de fluxos e refluxos. O Leeds estava ganhando por muito tempo, o Coventry virou, mas sofreu o empate perto no final. Prorrogação — e mais um gol. Dave Bennett marcou e nunca na minha vida comemorei tanto um gol que não era do meu time. Os deuses do futebol, pelo menos desta vez, se mostraram justos.

A cidade Two Tone venceu os racistas com um gol de Dave Bennett.

A lembrança mais feliz é a volta para o Coventry, com a população inteira da cidade lá nas ruas para acolher a torcida viajante e o time. Foi muito especial, e amei tanto o clima que não deu para ficar por baixo quando o Coventry venceu o meu time, Tottenham, numa final empolgante e conquistou a FA Cup. Participei das comemorações numa boa, e, de longe, vou comemorar de novo caso o ‘Cov’ elimine o United no domingo.

Tim Vickery
Tim Vickery

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e para a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para ESPN e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos de Tottenham Hotspur.