The Kop: o coração de Anfield e a essência do Liverpool

O nome 'Spion Kop' não é de forma aleatória, mas sim por conta da Segunda Guerra dos Bôeres

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Clive Brunskill /Allsport

O futebol inglês tem vários patrimônios. E, sem dúvidas, a arquibancada Spion Kop é um deles. A bancada fica atrás de um dos gols do Anfield e é conhecida por ser o coração do estádio. É a representação da união entre torcida e time, fundamental para o Liverpool ser o que é.

O nome ‘Spion Kop' não é de forma aleatória, mas sim por conta da Segunda Guerra dos Bôeres, batalha em que soldados britânicos lutaram e morreram. E a maioria dessas vítimas moravam perto de Liverpool.

Em janeiro de 1900, um erro de estratégia por parte do do exército britânico deixou cerca de 1,6 mil soldados encurralados na Spion Kop Original, que fica na África do Sul. Ao tentarem voltar para seus lugares, aproximadamente 600 soldados morreram. E a maioria era do condado de Lancashire, próximo de Liverpool.

A Kop foi inaugurada em 1906, com uma vitória do Liverpool por 1 a 0 diante do Stoke City, com gol do atacante Joe Hewitt. No entanto, a arquibancada só foi batizada em 1928, após a reforma do estádio. Quem deu o apelido para o espaço foi o jornalista Ernest Jones, do jornal Liverpool Echo. Ele aproveitou a oportunidade para homenagear os vizinhos que lutaram até a morte.

Bill Shankly: o rei da Kop

“Meu maior objetivo, minha maior ambição é agradar essas pessoas. Eu vivo por eles”, disse o lendário Bill Shankly quando treinava o Liverpool. A relação entre a Kop e Shankly é única. Ninguém compreendia a arquibancada como o treinador. Torcedores e o técnico compartilhavam sentimentos não apenas pelos Reds e o futebol, mas também ideais de vida e ideologias políticas.

Shankly era a personificação dos ideais que a Kop reunia e reúne até hoje: senso coletivo acima de tudo, todos lutando por todos dia após dia e, claro, muito amor pelo Liverpool. Seja nos momentos bons ou ruins. Nas vitórias ou nas derrotas. Essa união, inclusive, solidificou – e solidifica – os Reds até hoje.

Shankly dizia que o Liverpool entrava com um gol de vantagem quando a Kop começava a cantar. E os torcedores sempre faziam de tudo para ‘sugar a bola para as redes', em outra célebre frase dita pelo maestro da Kop e que inspirava não apenas os fãs a continuarem cantando, mas também o time em campo.

O primeiro You'll Never Walk Alone

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Clive Brunskill /Allsport

Com o Liverpool voando em campo sendo comandado por Shankly, os torcedores costumavam chegar horas antes da partida, o que rendia diversos cantos de músicas tradicionais da época – sobretudo os Beatles. Além disso, o Anfield também costumava ter um DJ que colocava os principais sons para o público cantar.

Num desses sons, veio o “You'll Never Walk Alone”, que estava entre os dez hinos mais tocados da época e, por conta disso, tocaria em Anfield. A estreia do hino que é um símbolo do Liverpool aconteceu no dia 19 de outubro de 1963, no triunfo dos Reds diante do West Bromwich, pela liga da temporada 1963/1964, em que o Liverpool foi campeão pela primeira vez desde 1945.

Com “You'll Never Walk Alone” ecoando e o Liverpool embalado dentro de campo, a Kop ia se transformando num inferno para os adversários jogo após jogo. Quem ia ao Anfield enfrentar o Liverpool sabia que para vencer os Reds era necessário ‘derrubar' aquela muralha vermelha.

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Foram 15 anos de Bill Shankly como técnico do Liverpool e maestro da Kop. Entre lágrimas de alegria e tristeza, uma certeza: ele sempre esteve lado a lado dos torcedores e, até hoje, é o homem que sintetiza a conexão entre torcida, técnico e jogadores, numa espécie de “manual do sucesso” do Liverpool.

Shankly se foi, mas o Liverpool seguiu ainda mais forte. Sob o comando de Bob Paisley, os Reds eram praticamente imbatíveis nos anos 1970 e no início dos anos 1980. Para se ter uma ideia de quão difícil era enfrentar os Reds em Anfield, o clube só perdeu 13 jogos de Campeonato Inglês durante a década de 1970 – incluindo partidas com Shankly e Paisley.

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A Kop foi esfriando e acabou sendo demolida

Só que esse sucesso do Liverpool acabou esfriando um pouco a atmosfera da Kop. Isso porque a nova geração, que não havia acompanhado o perrengue da saída da segunda divisão até o título, estava acostumada com grandes vitórias. Sem a necessidade de sugar a bola para dentro, como falava Bill Shankly.

Além disso, o Liverpool também estava recebendo muitos torcedores de todo o país, que iam para Anfield assistir ao ótimo time dos Reds e, além disso, também acabavam ficando na lendária Kop. Foi uma mudança de perfil que descaracterizou o setor, já que a trindade entre cidade, Liverpool (time) e a Kop foi enfraquecida.

Para piorar, veio a tragédia de Heysel, desastre em que 39 italianos torcedores da Juventus morreram por conta de atitudes dos hooligans de Liverpool. E isso causou vergonha na Kop, que carregava o sentimento de culpa e não sabia o que fazer. Era justo comemorar e cantar como se nada tivesse acontecido?

Depois disso, veio a tragédia de Hillsborough, em que 96 torcedores do Liverpool morreram. E muitos eram da Kop, que teve que conviver com a morte dos irmãos. Muitos, inclusive, tiveram as cinzas enterradas na arquibancada, como uma homenagem àqueles que fizeram parte da história do Liverpool.

Depois da tragédia de Hillsborough, o futebol adotou medidas mais preventivas para evitar novos desastres a partir do relatório Taylor. E uma dessas atingiu a Kop. Isso porque a arquibancada precisou receber assentos como o restante do estádio, o que inviabilizava todo mundo de pé como mandava o ritual.

O Liverpool, por sua vez, decidiu demolir a arquibancada para fazer a reforma necessária. E a despedida da Kop aconteceu em 1994. E não foi do jeito que os milhares de torcedores do Liverpool imaginavam, já que os Reds perderam por 1 a 0.

A volta do coração do Anfield

O retorno da Kop veio em grande estilo. Após empatar por 0 a 0 em Londres contra o Chelsea, o Liverpool chegava ao Anfield precisando de uma vitória simples para voltar à uma decisão de Champions League 20 anos depois. E o coração do Anfield voltou a bater de forma impressionante.

Segundo o site oficial do Liverpool, a atmosfera vista naquele dia no Anfield não tinha acontecido nos últimos 20 anos. Com um barulho ensurdecedor, o Liverpool venceu o Chelsea por 1 a 0, se classificando para a final da Champions League da temporada 2004/2005 – e que venceria diante do Milan.

Klopp entende bem a essência da Kop

Depois do ressurgimento da Kop em 2005, o Liverpool viveu um momento difícil – com algumas alegrias durante a trajetória. Mas aí veio o ano de 2015 que trouxe um certo alemão para Anfield: Jürgen Klopp. Uma figura que já tinha ideais políticos e de sociais bem parecidos com a cidade e a maior parte dos torcedores.

Klopp chegou com a missão de resgatar o Liverpool do ostracismo. E conseguiu de forma impressionante. Sem comparações, claro, resgatou também o manual de Shankly. Isso porque o técnico consegue ter em comum não apenas a paixão pelos Reds, mas também representar os ideais políticos e sociais da cidade – fundamentais na história do clube.

Além dos resultados, o que também coloca Klopp como um dos maiores da história do Liverpool é justamente ter esta relação próxima com a torcida. E que é intensa desde que o desembarcou na cidade.

Poor Scouser Tommy

A música Poor Scouser Tommy ecoou no Anfield nos anos 1960. Ela conta a história de um jovem torcedor do Liverpool enviado à guerra, mas que acaba falecendo. Suas últimas palavras foram ‘eu sou um Liverpudlian', como prova de amor ao clube.

O canto ecoou pela primeira vez justamente na Kop, nos anos 1960. É, para muitos, uma das canções mais belas da história do clube. Vale lembrar que o trecho final sofreu uma adição nos anos 1980. Isso porque os Reds aplicaram uma goleada histórica por 5 a 0 no Everton, com show do atacante Ian Rush.

Por conta disso, o trecho final da música carrega o ‘tudo que você precisa é Rush', em alusão ao canto All You Need Is Love, dos Beatles. Confira a letra completa da música clicando aqui.

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