Como o Swansea caiu quatro vezes em quatro anos

PL Brasil conta a história do período mais dramático dos Swans

0
643
swansea caiu
Steve Powell/Allsport /Getty Images

O Swansea demorou quase 70 anos para jogar a elite do futebol inglês. O sonho, no entanto, virou um enorme pesadelo. Se a ascensão da quarta divisão para a primeira foi meteórica, em cinco anos, a decadência foi tão rápida quanto: quatro anos e a equipe voltou para a última divisão.

Ascensão dos Swans

O início dessa história é na temporada 1977/1978. Na quarta divisão e sem perspectiva de melhoras, o Swansea arriscou suas fichas em John Toschack, atacante de 29 anos que assumiu a função de jogador e treinador ao mesmo tempo. Toschack tornou-se o mais jovem treinador da liga e começou a conduzir de forma espantosa os Swans.

Harry Griffiths, antecessor de Toschack, deixou a função de treinador e aceitou virar auxiliar do então atual treinador. E o Swansea começou a engrenar. O clube fez de sua casa uma verdadeira fortaleza, tendo perdido apenas dois dos 23 jogos que disputou. O acesso para a terceira divisão estava encaminhado quando um fato trágico aconteceu.

No dia 25 de abril de 1978, Harry Griffiths sofreu um ataque cardíaco e faleceu aos 48 anos. Griffiths era ídolo da torcida porque passou toda sua carreira de jogador no Swansea. O acesso, agora, tinha um combustível a mais. Na primeira partida após a morte do ídolo, vitória por 3 a 1 diante do Scunthorpe. Já na partida seguinte, 2 a 0 diante do Halifax e o Swansea estava matematicamente garantido na terceira divisão.

Na temporada 1978/1979, o Swansea não deu chances para o azar. É bom ressaltar que até este momento de sua existência, os Swans tinham chegado no máximo até a segunda divisão, mas já faziam 14 anos que estavam longe dela, tendo oscilado entre terceira e quarta divisão durante esse tempo.

Acompanhe a PL Brasil no Youtube

  • Peaky Blinders e o futebol inglês

Leia mais: A trajetória do Swansea de 2012/2013 na Copa da Liga Inglesa

E o retorno para a segunda divisão não poderia ser de forma mais dramática possível. John Toschack, ainda exercendo a função de jogador e treinador, saiu do banco de reservas e fez o gol que garantiu o acesso do clube diante do Chesterfield. Ao mesmo tempo, Toschack começava a contratar peças importantes, tais quais Tommy Smith, Ian Callaghan, Leighton Phillips e Alan Waddle.

Em seu retorno para a segunda divisão, o Swansea fez uma campanha mais modesta e também de consolidação, tendo terminado na 12ª colocação. Porém na temporada 1980/1981, o clube retomou a fome de acessos e começou a brigar pelo tão sonhado acesso para a elite do futebol inglês.

No dia 2 de maio de 1981, a equipe viajou até Preston, para enfrentar os Lilywhites. Qualquer vitória era suficiente para sacramentar o acesso. E não poderia ser diferente: Tommy Craig, Leighton James e Jeremy Charles marcaram os gols da vitória dos Swans por 3 a 1. Assim, pela primeira vez em sua história, o Swansea iria disputar a primeira divisão do futebol inglês.

É bom ressaltar que até hoje nenhuma equipe conseguiu sair tão rápido da quarta para a primeira divisão quanto o Swansea. O AFC Wimbledon empatou esse recorde. Curiosamente, a ascensão do Wimbledon começou ao mesmo tempo que o declínio do Swansea.

O declínio do Swansea, que caiu ladeira abaixo

Steve Powell/Allsport UK/Getty Images

A euforia tomou conta da cidade e do clube, que começou a investir em jogadores e também em aumentar a capacidade de seu estádio. O Swansea bateu seu recorde de contratação ao gastar £350 mil para trazer Colin Irwin. E ele não foi o único: Ray Kennedy custou £160 mil e Bob Latchford outros £125 mil. Para aumentar a capacidade do estádio, famílias foram desalojadas e o clube os compensou financeiramente.

Assim, ao mesmo tempo que o clube se preparava para a elite, começava a cavar sua própria cova. Já circulavam notícias que os balanços financeiros eram negativos e que tantos gastos poderiam selar o destino do clube. Porém, a primeira temporada do clube na elite acabou maquiando tudo isso. Vitória por 5 a 1 contra o Leeds na estreia. E triunfos sobre Manchester United, Arsenal, Tottenham e Liverpool fizeram a torcida sonhar.

No entanto, lesões atrapalharam a equipe de alçar voos maiores. A equipe flertou em brigar pelo título, mas a perda de qualidade em campo resultou em perda de pontos. Assim, a equipe perdeu força na tabela e terminou a temporada na honrosa sexta posição. Porém, neste momento, começava a espiral negativa do clube.

Antes do início da temporada 1982/1983, os Swans precisavam pagar o Everton pelas contratações de Latchford e Gary Stanley, mas não conseguiram levantar esse dinheiro e a Football League não pensou duas vezes ao punir o clube, proibindo-o de contratar novos jogadores.

Dessa forma, o Swansea começava a nova temporada com um elenco bem reduzido e limitado. Basicamente era a equipe titular e qualquer lesão poderia fazer a equipe entrar em espiral negativa como na temporada anterior. E quando a fase é ruim, tudo tende a piorar. O pior cenário aconteceu e Toschack viu os principais nomes da equipe sofrerem lesões e perderem muitos jogos.

Leia mais: Quiz: adivinhe todos os times que foram rebaixados da Premier League

Alex Davidson/Getty Images

A temporada, que começou promissora com duas vitórias e um empate, virou de cabeça pra baixo. Jogo após jogo, o clube via seu calvário se aproximar. Sem forças para reagir, a equipe só venceu mais oito jogos até o fim da temporada e o Swansea caiu na 21ª colocação com 41 pontos.

Mas o pesadelo estava longe de terminar. A aventura dos Swans na elite deixou uma dívida estimada em £2 milhões aos cofres do clube. Atualmente esse valor é irrisório, porém ao levar em conta a época e a inflação, o impacto dessa dívida era imenso, como perceberemos.

Além da dívida, pouco a pouco, os jogadores foram deixando o clube. Nos bastidores, Doug Sharpe assumiu a presidência do clube substituindo Malcolm Struel. Toschack acabou demitido do cargo de treinador em outubro, mas 53 dias depois foi chamado de volta. Na segunda divisão, o Swansea não saía da lanterna. E Toschack foi demitido de vez em março de 1984. Àquela altura, os Swans tinham vencido míseros quatro jogos em toda a temporada.

O rebaixamento para a terceira divisão foi consumado. E visando o retorno imediato, o clube apostou em Colin Appleton, que chegou em maio. Mas a estadia de Appleton em Swansea foi desastrosa. Um péssimo início de terceira divisão colocou o trabalho do treinador em cheque e a gota d'água foi a eliminação da FA Cup para o Bognor Regis, que disputava a Isthmian League, equivalente à 7ª e 8ª divisão.

John Bond chegou para salvar o Swansea e demorou a engrenar, mas a reta final foi forte o suficiente para livrar a equipe do rebaixamento para quarta divisão. Ao fim da temporada, o Swansea não caiu por um ponto. Alívio e indícios de um recomeço? Nada disso.

Leia mais: Os gols contra mais bizarros da era Premier League

Sabe a euforia da primeira divisão? Voltou a assombrar o clube na terceira. As dívidas começaram a pipocar por todos os lados: jogadores, clubes, cidadãos de Swansea, polícia e vários outros departamentos. O Swansea estava devendo dinheiro para praticamente toda a cidade. A situação ficou insustentável. O Swansea foi colocado à venda e qualquer proposta entre £750 mil e £1 milhão seria aceitada.

Mas ninguém aparecia. A situação começou a ficar desesperadora. No dia 20 de dezembro de 1985, o Tribunal Superior determinou que, caso ninguém aparecesse até a virada do ano, o Swansea teria que declarar falência e fechar as portas. Funcionários e jogadores receberam avisos de demissão. O destino parecia selado. Até que…

Bobby Jones, Dave Savage, Peter Howard, Harry Hyde e Mel Nurse, que ficaram conhecidos como “Famous Five”, apareceram com um plano para adquirir o clube e a corte concedeu ao Swansea um respiro de vida. O time tinha até 16 de janeiro de 1986 para aparecer com uma proposta financeira que garantiria a continuidade da existência da equipe.

Um amistoso contra o Manchester United foi marcado e mais de 20 mil torcedores se fizeram presentes, numa última tentativa de salvar a equipe da cidade. Mas o veredito final só veio em março e para alívio de todos, o Swansea estava salvo. Não iria precisar fechar as portas.

Porém, ao mesmo tempo que todo esse imbróglio acontecia, o clube estava jogando a terceira divisão inglesa e, claro, os resultados foram terríveis. Lanterna da competição, o Swansea caiu para a quarta divisão inglesa. Assim, em quatro anos, o clube saiu da elite para a última divisão, mas àquela altura isso pouco importava para a torcida, afinal, o clube ao menos continuaria existindo.