Southampton e Athletic Bilbao, uma ligação que vai além do vermelho e branco

Distantes mais de mil quilômetros, cidades têm histórias entrelaçadas pelo tempo

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Jordan Mansfield/Getty Images

Localizada entre as cidades de Portsmouth e Bournemouth, Southampton é a maior cidade portuária da costa sul do Reino Unido. Possui uma forte identificação com o desenvolvimento marítimo, e tem ligação com o histórico navio Titanic, que partiu de lá para os Estados Unidos em 1912.

A mais de 1.100 km, Bilbao, no País Basco, dentro da Espanha, é outra cidade que também se destaca por ser um grande polo naval. Mas, você deve estar se perguntando: O que uma cidade na Inglaterra tem a ver com uma na Espanha? A reposta é: Muita coisa!

Hoje, a PL Brasil vai te levar para uma viagem entre Southampton e Bilbao que têm seus portos e o futebol como principais destinos para uma ligação história.

O início de tudo: final do século XIX e início do XX

A Inglaterra foi o país onde o futebol começou a se difundir, o que torna clara a sua influência em diversos clubes do mundo. Seja nos nomes de alguns, ou nos símbolos que carregam, sua bandeira ou cores semelhantes.

Fundado em 21 de novembro de 1885, o atual Southampton Footbal Club recebeu como primeiro nome St. Mary YMA. Sua primeira equipe foi formada por jovens da St. Mary’s Young Men’s Association F.C, que jogavam futebol por lá. Pouco tempo depois de sua criação, o time emendou um tricampeonato da Southern League entre os anos de 1887 e 1899.

Em 1890, a cidade de Bilbao era uma das mais poderosas da Espanha, principalmente na indústria. Ela atraía inúmeros imigrantes em busca de trabalho, dentre eles, alguns vindo de Southampton, na Inglaterra.

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Como o então St. Mary YMA já havia conquistado alguns títulos no curto período de vida, era de se imaginar que ele já tivesse certo prestígio dos moradores. Como muitos partiram em busca de emprego no País Basco, levaram consigo o amor por ele.

Muitos dos trabalhadores estabelecidos na cidade de Bilbao resolveram criar o seu próprio clube, uma maneira de manter vivo o amor pelo futebol, esporte jovem na época. Após a fusão com uma equipe chamada Bizcaya, em 1903, surgiu o Athletic Club. Seu uniforme era predominantemente branco. Posteriormente, passou a ser mesclado nas cores azul e branco.

Contudo, o clube, seis anos após sua criação, resolveu que era hora de mudar. Em 1909, Juan Elorduy, que acumulava as funções de jogador e treinador, viajou para a Inglaterra em busca de novos uniformes. A ideia era trazer novos kits do Blackburn Rovers – equipe que também tem o azul e branco como cores.

Contudo, Elorduy retornou do norte do continente europeu com 50 peças do Southampton – novo nome do St. Mary YMA. As cores não eram as mesmas do Blackburn, mas, sim, branca e vermelha com listras verticais.

Coincidência ou não, em 1910, o Athletic lançou seu próprio uniforme, seguindo o mesmo padrão. Com o tempo, as listras foram mudando, as vezes mais largas, outras mais finas. Contudo, a primeira e segunda forte ligação foi causada por imigrantes de Southampton que foram a Bilbao em busca de trabalho e ajudaram na fundação e difusão de um clube que hoje é dos mais tradicionais na Espanha.

Anos 1930 e a Guerra Civil na Espanha

ANDER GILLENEA/AFP via Getty Images

Como já dito no começo do texto, Bilbao é a principal cidade do País Basco, e essa região foi fortemente atingida pela Guerra Civil Espanhola (1936-1939), onde forças inimigas dentro da Espanha brigaram pelo poder do país.

Entre os anos 1923 e 1930, a Espanha foi governada por Miguel Primo de Rivera, um ditador ligado ao conservadorismo espanhol. O período em que ele esteve no poder ficou bastante marcado pelo forte autoritarismo e perseguições contra quem seguia o comunismo. Em 1930, com forte pressão popular, seu regime foi derrubado.

Em 1931, foi instituída a II República, tendo como primeiro presidente eleito Niceto Alcála-Zamora, que ficou no poder até 1936. Posteriormente a seu mandato, quem assumiu foi Manuel Azaña Díaz, segundo e último presidente da chamada II República Espanhola. Os momentos conturbados começaram quando Azaña Díaz nomeou como seu primeiro-ministro Largo Cabellero, um político socialista.

O lado conservador espanhol foi contra, iniciando, assim, mais uma vez um período de fortes tensões no país ibérico. O movimento tentou realizar um golpe de Estado para reassumir o poder. Assim, iniciou-se uma enorme crise, visto que a esquerda não abria mão de seu direito de governar o país.

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Com isso, iniciava-se o momento que ficou conhecido como Guerra Civil Espanhola. De um lado a Frente Popular, com as forças de esquerda e apoio de centros socialistas como a União Soviética. De outro, o Movimento Nacional, com o lado conservador e que contava com o general Francisco Franco na liderança, e tinha como aliados Alemanha e Itália, ambos os países com fortes regimes ditatoriais.

Em 26 abril de 1937, a pequena cidade de Guernica, no País Basco, sofreu forte bombardeio por parte do Movimento Nacional. A cidade ficou devastada e estima-se que cerca de 1.645 pessoas perderam suas vidas no ataque.

O governo local, com medo do que pudesse ocorrer com sua população, pediu auxílio de outros países para abrigarem as crianças bascas. O acontecimento, inclusive, virou uma das principais obras do pintor espanhol Pablo Picasso.

O governo britânico, por sua vez, vivia um momento em que tinha decidido não intervir em conflitos dentro de outros países. Contudo, em um esforço da população, a Inglaterra auxiliou os bascos. Estimasse que cerca de quatro mil crianças embarcaram em 21 de maio de 1937 rumo ao Reino Unido.

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O destino final seria Southampton – aqui entra a terceira ligação entre as cidades. Ao que tudo indica, em materiais históricos, as crianças embarcaram em um navio de condições precárias e que teria capacidade para, no máximo 800 pessoas. Contudo, quatro mil jovens acabaram imigrando.

As crianças bascas foram transferidas, em um primeiro momento, para o um acampamento temporário. Posteriormente, acabaram enviadas para as mais diversas partes da Inglaterra, sendo a cidade de Southampton a que mais auxiliou no asilo.

Algumas, inclusive, chegaram a jogar no próprio Southampton, casos do goleiro Raimundo Lezama e do atacante Sabino Barinaga, como conta a revista Trivela em texto.

Contudo, a ligação entre a cidade inglesa e o País Basco na Guerra Civil Espanhola não se encerra por aí. Cerca de 4.000 homens e mulheres – número que não é claro em documentos históricos – rumaram do Reino Unido para auxiliar na luta. Destes, quatro homens eram de Southampton, todos perderam suas vidas no confronto. Hoje, em sua cidade natal, existe uma placa em homenagem pela sua bravura e luta.

Dias atuais – Southampton x Athletic Bilbao

Essa relação histórica entre a cidade inglesa com o povo basco, em especial com Bilbao, começou a refletir dentro de campo. Em 2011, as duas principais equipes esportivas das cidades, o Southampton e o Athletic Bilbao, disputaram a Markus Liebherr Memorial Cup – torneio realizado entre os anos de 2011 e 2012 no St. Mary Stadium em homenagem ao ex-presidente do clube local. Os espanhóis venceram por 2 a 0 o confronto e levaram a taça.

Em 2015, o ex-meio-campista dos Saints, Matt Le Tissier, que disputou mais de 500 partidas pelo clube inglês, recebeu uma homenagem dos espanhóis: o primeiro prêmio One Club Man.

Essa honraria é distribuída desde então anualmente pelo Athletic Bilbao para jogadores que dedicaram suas carreiras a somente um clube, valores que o clube considera dentro de sua identidade. Aliás, nomes como Paolo Maldini (2016), Carles Puyol (2018) e Ryan Giggs (2020), também receberam homenagens.

Em 2016, as duas equipes voltaram a se enfrentar, novamente na Inglaterra. Desta vez, os Saints levaram a melhor, 1 a 0, no St. Mary Stadium.

Em uma história que começou com imigrantes ingleses em busca de emprego na costa norte da Espanha, passando pelo auxílio dos britânicos no asilo de crianças da Guerra Civil Espanhola, dois clubes formaram um laço histórico que vai além do vermelho e branco de suas camisetas.

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