Série “Take Us Home” mostra como o Leeds United recuperou sua alma

A série mostra a temporada 2018/2019 dos Whites de uma forma única e eleva o nível das produções audiovisuais sobre futebol

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Lançado à priori apenas na Inglaterra, “Take Us Home” conta a história da temporada 2019/2020, a primeira de Marcelo Bielsa comandando o Leeds United. Recentemente a série foi disponibilizada em território brasileiro pela ESPN em seu serviço de streaming: Watch ESPN. A Amazon Prime Video prometeu que também vai trazer o conteúdo para o Brasil.

As produções nesse formato “All or Nothing” não são uma novidade tão grande, mas no mundo do futebol, isso só começou a ganhar nome após o sucesso da série ‘Sunderland ‘Til I Die’, sobre a temporada 2017/2018 do Sunderland. Essa até ganhou uma temporada 2. 

O “Take Us Home” é diferente de todas as produções documentais desse tipo que já vimos. É claro que a história ajuda muito, já que a temporada 2018/2019 do Leeds por sí só já é fantástica. Mas é necessário dizer que os elementos artísticos da série são incríveis. Fotografia, coloração, montagem, narração (feita por Russel Crowe). “Take Us Home” está um passo à frente. Parece mais uma produção hollywoodiana que um documentário sobre futebol. 

O roteiro de “Take Us Home”

Como foi dito, a história por sí só já é fenomenal. Um Leeds destruído é comprado por um bilionário italiano que quer levar o clube à Premier League e recuperar a filosofia da cidade e do clube. Junto dele: Victor Orta, um dos grandes diretores de futebol da Inglaterra. Para chegar ao objetivo, a aposta é trazer o técnico mais singular e influente do mundo: Marcelo Bielsa. 

A sinopse já é boa, mas então durante a temporada acontece tanta coisa… Marcelo Bielsa chega revolucionando a cidade e o clube; o Leeds dispara na ponta; começam as contusões; o drama na contratação de Daniel James; mais contusões; Spygate; a queda de rendimento; rivalidade com o Derby; e enfim o desfecho nos playoffs. Ufa!

A montagem da série e o narrador Russel Crowe nos levam a sentir cada um desses acontecimentos. Mesmo sabendo dos resultados, por muitas vezes nós acabamos torcendo para que o Leeds marcasse um gol a mais. O roteiro é tão espetacular que você se sente numa ficção (no bom sentido da coisa).

Leia mais: Marcelo Bielsa e a ‘Era da Loucura’ em Leeds

Os personagens

São vários grandes personagens que aparecem durante os episódios, mas alguns que merecem destaque. Andrea Radrizzani, Victor Orta e claro, Marcelo Bielsa.

Andrea Radrizzani é nasceu em 1974 em em Milão, Itália. Ele é presidente e fundador da Eleven Sports, um grupo de transmissões esportivas. E desde maio de 2017, também é proprietário majoritário do Leeds. Mesmo sendo um homem de tanto poder, Radrizzani se mostra muito humano:

“Gosto de ganhar dinheiro, claro. Quando trabalho, como consequência, a recompensa é que eu ganhe dinheiro. Eu assumo riscos e gosto. É como eu costumo jogar. A vida é como um jogo. Algum dia vou virar pó e o dinheiro vai ficar aí. Gosto de investir em coisas que me façam sentir adrenalina e fazer negócios e futebol são algumas delas.”

Não vai ser difícil ver Radrizzani apreensivo ou nervoso antes de um jogo importante. Quando a temporada acaba, ele diz que talvez a diretoria devesse “dar mais amor aos jogadores naquele período complicado”. Sem ser piegas e nem demagogo, o dono do Leeds se mostra um verdadeiro líder, que faz parte da comunidade e caminha junto. Existe uma grande diferença entre Radrizzani e outros donos de clubes ingleses. 

Victor Orta é um apaixonado

Logo no primeiro episódio é contado que ele e Radrizzani sugeriram o nome de Marcelo Bielsa. Só por aí dá pra ter noção que tipo de pessoa Orta é. O executivo é um autêntico doente por futebol. Renomado na Inglaterra, ele sabe sobre tudo, mas também vive demais o jogo.

Após as derrotas mais duras da temporada, Orta é mostrado em prantos nos corredores de Elland Road. Não tem como não se identificar ou não se emocionar junto.

Se Marcelo Bielsa é um grande personagem do futebol mundial, é claro que aqui ele também roubaria a cena. Porém, de um modo diferente. O argentino é um cara extremamente singular, humilde e reservado.

Ele não gosta de dar muitas entrevistas e nunca dá exclusivas. Aliás, Bielsa tem o costume misterioso de ficar olhando pra baixo durante as coletivas. Ele nunca falou sobre o tema, mas ao que parece é por conta dessa aversão à imprensa.

Então, diferente de todos os outros personagens da série, Bielsa não ajuda diretamente a contar essa história. São recortadas algumas frases dele em coletivas ao longo do ano e só. Fora isso, os outros personagens vão relatando como é Marcelo Bielsa e tudo o que ele trouxe para o clube e para a cidade.

A cidade e os torcedores

Leeds tem um pouco menos de 1 milhão de habitantes e a série nos ajuda a entender o quanto o clube é importante ali. Na verdade, ambos são um só. A cidade e o Leeds United são intrínsecos. Um não caminha sem o outro.

Como o Leeds United não tem rivais na cidade, os habitantes absolutamente respiram o time. Sabendo disso, os diretores pegaram alguns fãs ao longo da produção e decidiram segui-los na temporada. 

Bob Tappin é pai de dois filhos e tem por volta de 40 anos. Ele comenta que a chegada de Bielsa reacendeu sua paixão pelo time. Essa que o pai faz questão de passar para os filhos. Ambos o acompanham pelos jogos. É aquela história de pai pra filho.

Zoe Walgate é uma mulher de uns 25 anos que trabalha num salão de beleza. Segundo sua irmã, ela é absolutamente maluca pelo Leeds. A série também acompanha Zoe em todos os jogos em Elland Road.

Ambos servem de representação aos torcedores do Leeds. São pessoas que fazem do Leeds a sua vida. Vivem o time e constroem suas coisas acerca dela. Assim como todo o resto da cidade. 

Considerações finais de “Take Us Home”

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George Wood/Getty Images

Diante de tantos pontos positivos é necessário fazer um contraponto e citar um negativo. A série mostra alguns torcedores, até mostra-os na arquibancada, porém não cita em nenhum momento as torcidas organizadas do Leeds United. Muito menos a Leeds United Service Crew, uma das maiores ‘hooligans firm’ da história da Inglaterra.

Talvez por querer valorizar essa ligação da cidade e sua vida ‘comum’ com o clube, a série tenha escolhido não mostrar essa mundo das organizadas. Mas isso acaba se tornando um ponto negativo. Ora, se a narrativa caminha em torno da recuperação do orgulho e da identidade do torcedor, é fundamental que se converse com quem ‘comanda’ a arquibancada. 

Mas calma, esse é só um apontamento ruim após vários bons. De um modo geral, a série é incrível e emocionante. São seis episódios muito intensos. Como já foi dito aqui, é uma série que eleva o nível das produções de futebol. 

E a segunda temporada de “Take Us Home”?

Nós já sabemos que na temporada 2019/2020 o Leeds conseguiu o tão sonhado acesso, então seria super válido uma segunda dose da série. Porém, nada ainda foi anunciado. Sunderland ‘Til I Die’ teve duas edições, então é possível que “Take Us Home” também tenha. 

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