Nova série do City na Netflix tem participação de jornalistas brasileiros e ‘humaniza’ elenco, mas…

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Seis anos depois de produzir uma série com a Amazon Prime, o Manchester City acaba de lançar uma nova “docussérie” na Netflix. A nova “Togethter: Treble Winners” (traduzida para o público brasileiro como “Unidos: Manchester City Tricampeão”) está disponível no streaming a partir desta terça-feira (2).

Produzida pela própria equipe de comunicação do clube, a série documental mostra ao longo de seis episódios a saga do lado azul de Manchester para conquistar a Tríplice Coroa (Premier League, Copa da Inglaterra e Champions League) na temporada 2022/23, começando pela chegada de Erling Haaland ao Etihad até a comemoração com a “orelhuda” da Liga dos Campeões.

Surpresa para os brasileiros: correspondentes brasileiros estão no “elenco” da série

Desde os minutos iniciais da série, o público brasileiro já irá se deparar com uma grata surpresa: Natalie Gedra, repórter brasileira da emissora inglesa “Sky Sports”, e Fred Caldeira, correspondente internacional da “TNT Brasil”, são alguns dos jornalistas que participam da produção, mas desta vez, na posição de entrevistados. Vale lembrar que na época da gravação, Natalie ainda era correspondente da “ESPN Brasil”, onde trabalhou durante sete anos.

Junto com outros jornalistas ingleses, eles são alguns dos entrevistados que ajudam a contar a história da inédita Tríplice Coroa dos Citizens na visão de quem trabalhou cobrindo o dia a dia do clube naquela temporada.

natalie gedra fred caldeira
Natalie Gedra e Fred Caldeira, repórteres brasileiros na cobertura do futebol inglês (Fotos: Instagram e X/@natgedra e @fredcaldeira)

Nova série da Netflix consegue “humanizar” elenco do City, mas…

ATENÇÃO: SPOILERS SOBRE OS BASTIDORES DA TRÍPLICE COROA A PARTIR DE AGORA.

Mesmo quem não é um fã assíduo da Premier League, sabe que o Manchester City não é visto como um dos clubes mais “simpáticos” da Inglaterra. Acredito que por esse motivo, a proposta de “Together: Treble Winners” se mostra muito clara desde o início: humanizar o elenco do City e desmanchar a imagem “antipática” de um clube que (na visão de quem torce o nariz) só teria chegado nesse patamar por causa de dinheiro.

O começo até parece promissor, já que a chegada de Haaland ao Etihad Stadium é contada pensando nos torcedores das antigas que ficarão animados ao ver que o filho de Alf-Inge Haaland vai vestir a camisa do mesmo time que o pai usou antes de se aposentar. Mas a ideia já não dá tão certo com a sequência dos acontecimentos.

O documentário mostra os momentos estressantes no vestiário e no dia a dia relacionados à escalada do Arsenal ao que parecia ser um título já garantido na Premier League.

Também se preocupa em trazer as “resenhas” entre os jogadores — envolvendo principalmente Grealish, Rodri e Bernardo Silva — e em contar histórias bonitas, como a de Rico Lewis, que lutava boxe contra garotos bem mais altos que ele na academia de seu pai — o bicampeão britânico de boxe tailandês Rick Lewis –, antes de se tornar um jogador profissional.

Mas nenhuma dessas tentativas faz o espectador comprar a ideia de que o City estava “a beira de um colapso” ou que alguém no vestiário desacreditava do título inglês.

O momento da virada na tabela, a derrota do Arsenal para o Nottingham Forest que deu o título ao City e a vitória contra o United na FA Cup passam tão rápido que dão a impressão de que nem quem fez as gravações ou a edição deu a devida importância para esses títulos. Pareciam ser apenas mais algumas taças nas prateleiras de um clube bilionário.

Mas tudo muda no sexto episódio.

… só no último episódio

O espectador pode passar os cinco primeiros episódios se perguntando: por que o Guardiola não está sendo entrevistado? Por que ele não fala com a câmera da própria equipe do clube onde trabalha?

Tudo estava guardado para o “Gran Finale”. O episódio 6 começa com uma poltrona vazia, onde Guardiola aparece do nada e respira fundo como quem diz “ok, estou pronto para falar”.

O sexto episódio conta a história da final da Champions League. E, além da entrevista de Guardiola conduzindo a linha narrativa, tudo nele é diferente: o tom, a trilha sonora, a fotografia, a forma com a qual os jogadores se expressam… Pela primeira vez, vemos os super atletas do City e o próprio treinador parecendo estar nervosos nos dias anteriores ao jogo e, de fato, se importar com um título.

Esse é o tom do começo ao fim do episódio, que conta ainda com a participação especial do brasileiro Fernandinho, ex-jogador do City, e imagens de bastidores da derrota para o Chelsea na final d Champions League 2020/21.

A pergunta que não quer calar: vale a pena assistir se eu não torço pro City?

Nas palavras de alguém que não torce pra nenhum time do Big-6: sim, vale a pena — mas com ressalvas. Primeiro, é preciso ter em mente que não dá para assistir com a mesma expectativa de uma grande história de um pequeno clube, como em “Sunderland até morrer”, nem esperar um personagem carismático como José Mourinho, em “Tudo ou nada: Tottenham Hotspurs”.

Apesar de os momentos de “resenha” não terem cumprido o papel de humanizar os atletas, não dá para dizer que eles não divertem. E foi bom prestigiar a história de uma promessa como Rico Lewis e o reconhecimento dos jornalistas do nosso país.

Eu não sei o quanto a Tríplice Coroa significou para os ingleses, mas acredito que uma série documental apenas sobre o ineditismo da Champions League do City seria mais atrativa até para os torcedores. Sem sombra de dúvida, o último episódio é o que faz a série valer a pena.

Maria Tereza Santos
Maria Tereza Santos

Me formei em Jornalismo pela PUC-SP em 2020. Antes de escrever para a PL Brasil, fui editora na ESPN e repórter na Veja Saúde, Folha de S.Paulo e Superesportes.