Menos jogos ou times mais pobres? A batalha que envolve Copa da Liga, Premier League e até o governo

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Existem pouquíssimas unanimidades no mundo. Uma delas é de que não faz mais sentido fazer as semifinais da Copa da Liga com partidas de ida e volta. “Honestamente, se eu tivesse que decidir, jogaria apenas um jogo e não dois. Pelo bem dos atletas. Mas precisamos respeitar as regras”, afirmou Antonio Conte, quando ainda era treinador do Tottenham.

“Claro que seria melhor um jogo só. Falo sobre o bem-estar dos jogadores há seis anos, ou talvez mais. Todas as pessoas de alto nível no futebol concordam que é preciso reduzir a quantidade de partidas. A semifinal da Copa da Liga disputada em dois jogos só serve para uma coisa — ajudar financeiramente a EFL”, esbravejou Jurgen Klopp em 2022.

A EFL é a English Football League, criada em 1888. Ou seja, é a Liga Inglesa, a primeira de todo o mundo. Foi fundada há 136 anos por 12 clubes (Aston Villa, Blackburn, Bolton, Burnley, Derby County, Everton, Notts County, Preston North End, Stoke, West Brom e Wolverhampton).

Por mais de um século, englobou as principais ligas inglesas, até a criação da Premier League, em 1992. Hoje, a EFL é responsável pela segunda, terceira e quarta divisão, englobando um total de 72 times. Além disso, é claro, cuida da Copa da Liga Inglesa (Carabao Cup).

Nesta segunda-feira, foi confirmado que o sistema de jogos de ida e volta para as semifinais da Copa da Liga será mantido para a próxima temporada, apesar do clamor de técnicos e jogadores para que isso mudasse. E o motivo é conhecido por todos.

Richard Masters Premier League
Richard Masters, presidente-executivo da Premier League | Foto: Icon Sport

Em outubro passado, a Premier League enviou uma proposta para os clubes das divisões inferiores. Repassaria uma quantia maior de dinheiro em troca de um calendário mais enxuto, que incluía a realização da semifinal da Carabao Cup em apenas uma partida.

Em reunião realizada nesta quarta-feira (24), as duas partes não conseguiram se entender: “Não chegamos a um acordo para mudar o formato que traz um enorme benefício financeiro para os clubes da EFL”, afirmou o executivo-chefe Trevor Birch.

Hoje, a Premier League ganha cerca de 3,5 bilhões de libras (quase R$ 22 bilhões) por ano com direitos de transmissão e acordos comerciais. Repassa 15% disso, aproximadamente 500 milhões de libras (R$ 3,1 bilhões). O montante é divido entra a EFL, programas comunitários e organizações como a Associação de Jogadores Profissionais.

Pode parecer muito, mas a verdade é que a percentagem que a Premier League distribui caiu muito desde que os principais clubes ingleses se separaram para formar a Premier League em 1992. Pior: dos 500 milhões de libras, quase metade vai para os clubes que foram rebaixados, no que é chamado de pagamento paraquedas (ajudar esses times que perdem bilhões em receitas só pelo fato de não estarem mais na primeira divisão).

Leicester lidera a Championship e quer retornar à Premier League. Foto: Icon sport

Resultado: estima-se que cada equipe da Championship (segunda divisão) acaba recebendo cerca de 5,19 milhões de libras. Os da League Two (terceira divisão) ficam com 780 mil. E acaba restando apenas 520 mil para os times da League One (terceira divisão).

A discussão é tão grande que até o governo britânico quer se intrometer no assunto. Já está no Parlamento uma proposta de regulamentação do futebol inglês. A maior preocupação é justamente financeira: fazer com que o bolo seja melhor dividido, com a Premier League ficando com menos dinheiro e os 72 clubes das divisões inferiores recebendo uma quantia maior.

Na semana passada, Rick Parry, presidente da EFL, foi chamado para uma sessão do Comitê de Cultura, Mídia e Esporte e deixou bem claro para os parlamentares que não faria alteração no calendário sem uma contrapartida que fosse suficiente para os 72 clubes.

Chelsea, de Cole Palmer, goleia Middlesbrough e avança à final da Copa da Liga. (Foto: Icon Sport)

“Podemos sim assumir uma perda considerável de receitas devido à não realização dos jogos de volta da Copa da Liga. Mas não estamos preparados para fazer isso sem um novo acordo financeiro, que não é esse apresentado pela Premier League”, afirmou Rick Parry.

Por último, é preciso lembrar que as divisões inferiores ainda são muito valorizadas na Inglaterra.

Aliás, cresce cada vez mais o números de amantes de futebol que preferem assistir à segunda, terceira ou quarta divisão.

Pessoas que não gostam dos bilhões de libras gastos todos os anos pelos clubes da Premier League, muito menos dos estádios lotados de turistas, com ingressos absurdamente caros. Por isso, acho louvável a briga por condições melhores para os times mais pobres.

O futebol ainda respira! Mas, com o números de partidas crescendo a cada temporada, são os jogadores que já estão ficando sem ar.

Renato Senise
Renato Senise

Renato Senise é correspondente em Londres desde 2016. São mais de cinco temporadas cobrindo Premier League e Champions League. No currículo, duas Copas do Mundo “in loco”, além de entrevistas com nomes como Pep Guardiola, José Mourinho, Juergen Klopp, Marcelo Bielsa, Neymar, Kevin De Bruyne e Harry Kane.