A tática absurda do Chelsea traz dúvidas fundamentais sobre o futuro

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Se o Chelsea resolvesse vender Christopher Nkunku no final da temporada, qual a probabilidade de recuperar os 53 milhões de libras investidos nele? Já não é tão novo (26 anos), e sofrendo com muitas lesões, disputou apenas 10 partidas até agora. A grande aposta do time londrino para o ataque fez somente dois gols.

Seguindo com esse mesmo exercício, existe algum clube do mundo que desembolsaria mais do que 32 milhões de libras para comprar Nicolas Jackson? E olha, este tem apenas 22 anos. Tem números até que razoáveis, com 12 gols e quatro assistências em 34 partidas.

É daqueles jogadores que quase sempre são titulares. Mas não acho nenhum exagero dizer que hoje, pelo que demonstrou no futebol inglês até aqui, tem um prestígio menor do que quando foi comprado junto ao Villarreal.

Chegamos então ao jogador mais caro da história do futebol inglês. Moises Caicedo, disputado e cobiçado, assinou com o Chelsea por astronômicos 115 milhões de libras. Teve um começo ruim em Londres, parecia um pouco perdido dentro do time, entregou alguns gols.

Agora, dá para dizer que vem se apresentando muito melhor. Adaptado, mais seguro e consistente. Mas, qual a chance de algum clube, de qualquer parte do mundo, ligar para o Sr. Todd Boehly e apresentar uma proposta maior que o valor pago pelo Chelsea? Eu diria que próxima de zero.

Se levássemos em consideração todas as TRINTA E QUATRO contratações que Boehly fez desde que comprou o clube, em maio de 2022, arrisco dizer que pouquíssimos jogadores poderiam trazer lucro para o clube. Caso de Malo Gusto, que custou 26,3 milhões de libras e hoje com certeza vale mais.

E aqui vale explicar que ele chegou apenas nessa temporada, mas foi comprado em janeiro de 2023 e emprestado para o Lyon, time que já defendia. Alguém pagaria mais do que 62 milhões de libras pelo Marc Cucurella? E pelo Wesley Fofana, quem desembolsaria mais do que 75 milhões de libras? Por isso, vamos ficar apenas nas contratações dessa temporada, 2023/24.

Olhando para a lista, me parece que só UM atleta com certeza traria lucro se fosse vendido na próxima janela.

JOGADORPAÍSCLUBE ANTERIORPREÇO
Moises CaicedoEquadorBrighton£115m
Romeo LaviaBélgicaSouthampton£58m
Christopher NkunkuFrançaRB Leipzig£53m
Cole PalmerInglaterraManchester City£40m
Axel DisasiFrançaMonaco£38.70m
Nicolas JacksonSenegalVillarreal£32m
Lesly UgochukwuFrançaRennes£23m
Angelo GabrielBrasilSantos£13m
Robert SanchezEspanhaBrighton£19.80m
Deivid WashingtonBrasilSantos£17m
Djordje PetrovicSérviaNew England£14m

É claro que você já bateu o olho em Cole Palmer.

E, convenhamos, que pechincha! Difícil entender como o Manchester City vendeu um jogador tão jovem e talentoso por ”apenas” 40 milhões de libras. O moleque está jogando muito! Para mim, a melhor contratação da atual temporada (superando nomes como Alexis Mac Allister e Declan Rice).

Aliás, digo sem medo de ser feliz, que se o Chelsea fosse nesse momento o primeiro colocado, Cole Palmer seria o grande favorito para ganhar o prêmio de melhor jogador da Premier League. Mas, como sabemos, o desempenho do time afeta muito nessas escolhas.

O menino de 21 anos tem 16 gols e oito assistências em 26 partidas nessa Premier League. Quase uma participação direta por jogo! Virou o batedor oficial de pênaltis (aliás, a tranquilidade e frieza dele nas cobranças segue me assustando) e, por que não dizer, a referência do time do meio pra frente.

Cole Palmer
Cole Palmer comemora gol pelo Chelsea. Foto – Icon Sport

O hat-trick contra o Manchester United nessa quinta-feira foi só mais uma prova de como o garoto é diferente. Já jogou armando o time, aberto na direita, na esquerda e até de falso 9. Ou seja, faz todas as funções. Algumas melhores que as outras, é claro, mas pode sim ser utilizado em qualquer lado do campo.

Pois bem, por que resolvi escrever sobre isso? Porque as regras para contratações da Premier League estão nitidamente mais rígidas. Everton e Nottingham Forest já foram punidos. E agora, como o Chelsea fará para seguir contratando? Ter um caminhão de dinheiro não é mais suficiente. Ninguém pode mais sair gastando sem se preocupar com punições.

Outra pergunta importante: essa tática de fazer contratos longuíssimos, para diluir o valor do preço por vários anos, continuará sendo adotada? O possante Mudryk, por exemplo, tem vinculo até 2031. Se continuar nesse ritmo, alguém imagina que ficará por mais sete anos? Ainda é impossível saber o impacto que essa avalanche de contratações, boa parte sem nenhum retorno dentro de campo, terá no futuro do clube.

Todd Boehly, proprietário do Chelsea - Icon Sport
Todd Boehly, proprietário do Chelsea (Foto: Icon Sport)

A verdade é que, com o passar do tempo, fica cada vez mais clara a tática absurda utilizada pela nova direção. Mandar praticamente todo mundo embora, e contratar um elenco inteiro, com a maioria de jogadores muito jovens e ainda tendo de se provar no futebol, não tem como dar certo. Vão culpar o Mauricio Pochettino (que obviamente tem grande parcela de culpa mesmo), dizer que ele não escala bem o time, que a equipe não tem padrão de jogo e tudo mais.

Mas aos poucos, aqueles que aplaudiam a enxurrada de contratações, e criticavam quem questionava o porquê de comprar tantos jogadores, vão mudando de ideia. A maior culpada é sim a nova diretoria, que vai ter que sair contratando de novo na próxima janela de transferências. Mas com fiscalização bem mais forte. Da liga, e agora, dos torcedores.

Renato Senise
Renato Senise

Renato Senise é correspondente em Londres desde 2016. São mais de cinco temporadas cobrindo Premier League e Champions League. No currículo, duas Copas do Mundo “in loco”, além de entrevistas com nomes como Pep Guardiola, José Mourinho, Juergen Klopp, Marcelo Bielsa, Neymar, Kevin De Bruyne e Harry Kane.