Senise: Caso Everton — a punição mais pesada do futebol inglês é uma vergonha!

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Muitos fatores envolvendo a punição sofrida pelo Everton na última sexta-feira foram surpreendentes. Primeiro: a perda de dez pontos é a maior já aplicada na história do Campeonato Inglês. Segundo: a rapidez com que o caso foi solucionado.

Uma comissão independente recebeu a investigação em março. A audiência foi realizada em outubro e, em novembro, a condenação já foi anunciada. Terceiro: sanções desse tipo são muito raras nos mais de 130 anos de história do Campeonato Inglês. Até a semana passada, eram apenas quatro casos de clubes que haviam perdido pontos. 

O primeiro a ser punido dessa maneira foi o Sunderland, em 1890/91. Teve dois pontos retirados por utilizar um jogador não registrado. Exatos cem anos depois, o Manchester United perdeu um ponto por uma briga em campo e o Arsenal dois.

Em 1996/97, a punição mais controversa: o Middlesbrough teve três pontos retirados por cancelar a partida fora de casa contra o Blackburn, alegando não ter jogadores disponíveis por causa de um vírus que se espalhou pelo clube. E a última condenação havia sido sofrida pelo Portsmouth, que perdeu nove pontos em 2009/10 depois de ser colocado sob administração judicial por problemas financeiros. 

Em Liverpool, não há dúvida: a punição sofrida pelo Everton foi extremamente exagerada. Até o prefeito da cidade, Steve Rotheram, reclamou. Para ele, a sanção foi “totalmente desproporcional”.

Ele cita justamente o caso do Portsmouth, dizendo que considerar a violação do Everton de regras de rentabilidade e sustentabilidade da Premier League mais grave que a má gestão que quase levou um clube à falência é “ridículo”.

E eu concordo plenamente com o prefeito de Liverpool.

A punição sofrida pelo Everton é EXTREMAMENTE exagerada.

Basta ver o histórico recente de casos. Por exemplo: em 2007, o West Ham recebeu uma multa de 5,5 milhões de libras por causa das contratações dos argentinos Tevez e Mascherano.

O clube foi considerado culpado por ter agido indevidamente na negociação e por não ter entregado documentações vitais sobre quem seria o verdadeiro dono dos direitos federativos dos jogadores. Detalhe: Tevez marcou os gols que salvaram o time de Londres do rebaixamento. O West Ham não perdeu um pontinho sequer e se salvou de disputar a segunda divisão na temporada seguinte. 

Everton
Pickford e Tarkowski pelo Everton (Foto: Icon Sport)

E aqui, vale explicar o “grande crime” cometido pelo Everton. O clube estourou o limite de perdas financeiras, violando assim as regras do fair play relacionadas a rentabilidade e sustentabilidade. Segundo a comissão independente que analisou o caso, o estouro foi de quase 20 milhões de libras, com 124,5 milhões de libras registrados em perdas nos últimos três anos. Lembrando que todos os clubes da Premier League são avaliados anualmente. Cada time pode ter prejuízo de no máximo 105 milhões de libras em três anos.

Para deixar bem claro: estamos falando de um clube que perdeu DEZ pontos porque teve um prejuízo de 19,5 milhões de libras acima do permitido em um período de TRÊS anos. E, nessas temporadas, o Everton acabou em décimo segundo, décimo e décimo sexto. 

Não demorou para que a pressão crescesse sobre a Premier League. Como pode o Everton ser punido tão rapidamente, e de maneira tão exemplar, e o Manchester City ainda não ter sido julgado? E, de novo, concordo plenamente com esse questionamento.

As alegações contra o City feitas pelo jornal alemão “Der Spiegel” foram realizadas em novembro de 2018 – cinco anos atrás! Por causa delas, o clube recebeu, em fevereiro de 2020, uma suspensão de dois anos das competições da Uefa. Mas o Tribunal Arbitral do Esporte anulou a punição. Demorou até fevereiro deste ano para o caso finalmente ser encaminhado a uma comissão da Premier League.

O Manchester City é acusado de ter infringido por CENTO E QUINZE vezes as regras de Fair Play Financeiro da liga, entre 2009 e 2018. As queixas mais graves são de que o clube teria inflado as receitas, e não teria detalhado corretamente o pagamento do salário do treinador Roberto Mancini, entre 2009 e 2013. Quando o caso será finalmente julgado? E agora que o Everton foi tão severamente punido, qual poderá ser a condenação caso o clube seja considerado culpado?

Onana em jogo do Everton. Foto – Icon sport

O mesmo vale para o Chelsea. Crescem os indícios de pagamentos feitos a várias partes por empresas de propriedade de Roman Abramovich, ex-dono do clube. O relatório do projeto “Chipre Confidencial”, divulgado ao Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação e à Paper Trail Media da Alemanha, contém 3,6 milhões de registos offshore que mostram essas transações.

Os novos proprietários do Chelsea já até comunicaram Uefa, Premier League e Federação Inglesa de Futebol que encontraram movimentações financeiras incompletas relacionadas a várias transações entre 2012 e 2019. Se tudo isso for comprovado, que sanção seria justa? Com absoluta certeza, mais do que a perda de 10 pontos… 

Parece claro que a Premier League perdeu a mão na punição. O Everton já informou que vai recorrer da decisão. E, até mesmo de olho no que pode acontecer com Chelsea e Manchester City, acho difícil que a pena não seja reduzida. 

Renato Senise
Renato Senise

Renato Senise é correspondente em Londres desde 2016. São mais de cinco temporadas cobrindo Premier League e Champions League. No currículo, duas Copas do Mundo “in loco”, além de entrevistas com nomes como Pep Guardiola, José Mourinho, Juergen Klopp, Marcelo Bielsa, Neymar, Kevin De Bruyne e Harry Kane.