Rice e Bellingham: como não repetir o ‘fracasso’ de Lampard e Gerrard na seleção inglesa?

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A geração inglesa dos anos 2000 foi aquela que, talvez, tenha reunido a maior quantidade de talento desde o time dos anos 1960, quando a Inglaterra conquistou seu único título, a Copa do Mundo de 1966. Apesar disso, sem conquistas, o time do início do século XXI acabou taxado como grande fracasso.

Cinco dos dez jogadores que mais vestiram a camisa da seleção inglesa fizeram parte dessa geração: Rooney, Beckham, Gerrard, Lampard e Ashley Cole. Os ídolos de Chelsea e Liverpool, no entanto, ficaram ainda mais marcados – foram a dupla de estrelas que, na prática, não deram certo.

Declan Rice e Jude Bellingham surgem como uma dupla parecida simbolicamente. Dois volantes ingleses que emergem como estrelas mundiais. Mas que, para além da perspectiva de dividir o meio-campo da seleção inglesa por muito tempo, são bem diferentes dos ídolos de Chelsea e Liverpool dentro de campo. Além, Será possível para os dois jovens não repetir o fracasso de seus antecessores?

Por que Gerrard e Lampard fracassaram?

O ídolo do Chelsea estreou na seleção em 1999, um ano antes da lenda do Liverpool. Gerrard foi cortado da Copa de 2002 por lesão, enquanto Lampard sequer foi convocado. De 2003 para frente, no entanto, a dupla se solidificou.

Foram 70 jogos juntos ao todo. Jogaram ao menos 60 minutos destas partidas juntos em 44 oportunidades. Durante todo esse período, ficou o questionamento: por que não deram certo na seleção, se eram os melhores jogadores dos seus times?

Analisando seus contextos em clubes, nenhum deles passou o seu auge jogando no clássico 4-4-2 inglês, como aconteceu, por exemplo, na Euro de 2004, em Portugal, e na Copa do Mundo da Alemanha, em 2006.

No Liverpool campeão da Champions League de 2005 e finalista de 2007, por exemplo, Gerrard formava dupla com Xabi Alonso, um volante mais posicional e, apesar de não necessariamente defensivo, que cobria os espaços deixados pelo camisa 8, que era mais um armador no 4-2-3-1 de Rafa Benítez.

Gerrard Lampard
Foto: Icon Sport

O Chelsea de Mourinho foi histórico justamente por quebrar o 4-4-2 inglês e instaurar o 4-3-3 na Premier League. Nele, Lampard era um meia box-to-box pela direita, com Makelélé como “cão de guarda” do tripé.

Na seleção, Gerrard e Lampard formavam a “dupla de volantes”, mas nenhum tinha características posicionais ou defensivas. Ambos percorriam grandes distâncias com e sem a bola em seus clubes e, além disso, tinham pontas efetivos, que driblavam e com grande capacidade individual. Isso não existia na seleção.

Apesar de Joe Cole, pela esquerda, ser mais próximo desse perfil, ainda era um meia criativo. Beckham, na direita, não era nem próximo de Robben e Luis García, os pontas pela direita de Chelsea e Liverpool, respectivamente.

Além do campo, o ego na seleção inglesa

Lampard e Gerrard, apesar de talentos geracionais, eram rivais fervorosos em seus clubes – e a rivalidade não se limitava aos dois. Grande parte do elenco era feito de jogadores do Big-Six.

O elenco inglês para a Copa de 2006, por exemplo, teve rivais por toda parte. Na defesa, os grandes nomes eram todos adversários: Bridge e Terry eram do Chelsea, Sol Campbell estava no Portsmouth, mas teve grande passagem pelo Arsenal, que era representado por Ashley Cole (que, posteriormente, iria para o Chelsea). Carragher, ídolo do Liverpool, rivalizava com Ferdinand e Gary Neville, ambos do Manchester United.

Rooney é expulso contra Portugal na Copa de 2006 – Icon Sport

No meio, Beckham, apesar de ser um Galático do Real Madrid, tinha grande história no Manchester United, assim como Michael Owen, que defendia o Newcastle na época, teve grande passagem pelo Liverpool.

Até mesmo os mais jovens já eram grandes rivais: Aaron Lennon, do Tottenham, e Walcott, do Arsenal, brigavam pela vaga nas pontas. Rooney, do United, e Crouch, do Liverpool, eram os centroavantes.

Grandes destaques em seus próprios clubes, que ocasionalmente apresentavam episódios de brigas efusivas na Premier League, não queriam ir para o banco na seleção. Paul Scholes, por exemplo, se aposentou do cenário internacional por esse motivo.

A desunião do elenco já foi comentada pelos próprios jogadores que fizeram parte dessa geração dourada. Ferdinand por exemplo, elogiou o time atual justamente porque são unidos e profissionais o bastante, o que não aconteceu nos anos 2000.

— Olhando para os outros times (que a seleção teve ao longo dos anos), como o meu próprio, eles estariam resmungando na concentração, falando com seus agentes em casa – disse à “BBC” durante a Euro de 2020.

Como Rice e Bellingham podem não repetir fracasso

O contexto atual dos dois meio-campistas é bem diferente. Rice surge na seleção como destaque do West Ham – que, apesar da importância e da rivalidade com londrinos, não é um grande rival de nenhum time do Big-Six. Bellingham, por sua vez, saiu muito cedo e nunca jogou na Premier League.

A seleção como um todo não é formada por rivais fervorosos como antigamente, ainda que exista disputa de posições, por exemplo, entre Rashford e Grealish, da dupla de Manchester. É um grupo que tem sido formado desde jovem e em contextos complicados nos clubes, o que também impacta seu comportamento.

Rice e Bellingham seleção inglesa
Icon Sport

Antes, Campbell, Terry e Ferdinand brigavam não só pela posição na zaga da seleção, mas pelos títulos da Premier League, FA Cup e Champions League. Isso não acontece mais, ao menos com essa frequência.

A maior briga de egos que pode existir no time de Southgate é nas laterais: Walker, Trippier e Alexander-Arnold, por exemplo. Shaw e Chiwell também vivem momentos conturbados em seus clubes e não se pode entender como uma briga de egos por um lugar na seleção.

A distância de Bellingham com Rice nos clubes pode os aproximar na Inglaterra. Mas, além disso, são jogadores complementares, diferente de Gerrard e Lampard, que assumiam posições muito parecidas em seus clubes e, consequentemente, eram um encaixe mais complexo.

Nas últimas partidas com Southgate, Rice tem sido o volante de um 4-3-3, atrás de Bellingham e Henderson (mais recentemente, Alexander-Arnold tem tomado o lugar do ex-jogador do Liverpool). Um não disputa a posição com o outro.

Rice, inclusive, é o que faltava para Gerrard e Lampard, como o segundo analisou, em 2018, em uma entrevista ao “Daily Mail”:

— Não consigo entender por que não jogamos com três jogadores no meio-campo. Eu jogaria (além de mim e Gerrard), com Carrick, Hargreaves ou Scholes. Quando jogávamos sem um meio-campista mais marcador, eu e Gerrard tínhamos que nos preocupar para saber onde o outro estava. A pior coisa é quando você pensa duas vezes na hora de fazer uma jogada. O futebol é muito rápido.

Um único resquício do fracasso

O que ainda é motivo de crítica sobre a Inglaterra é quem comanda o time. Sven-Goran Eriksson foi um grande treinador na Itália antes de assumir a seleção em 2002 e levá-la às quartas da Copa, o auge daquele grupo.

Seu sucessor foi Steve McLaren, que não classificou a equipe para a Euro de 2008 e foi substituído por Fabio Capello. O italiano é um dos grandes nomes do estereótipo do futebol do seu país: menos brilho ofensivo, apesar dos resultados.

Capello seleção inglesa Gerrard Lampard
Capello e Beckham, em 2009 – Icon Sport

Capello foi vaiado no Real Madrid e praticamente “chutado” do Bernabéu porque não fazia o time jogar futebol atraente, apesar dos resultados positivos. Mesmo um nome grande como o do italiano talvez não fosse o ideal para os Três Leões.

Depois, Roy Hodgson assumiu a equipe de 2012 a 2016. Com um aproveitamento de 58% e participações muito ruins na Copa de 2014 (eliminada na fase de grupos) e Euro de 2016 (eliminada nas oitavas para a Islândia), o senhor da velha guarda não era a escolha para uma renovação.

O nome de Southgate empolgou por resultados positivos e escolhas interessantes na hora de promover jovens de destaque. Seus resultados são inegavelmente os melhores em 30 anos: vice-campeão da Euro 2020 e quarto lugar na Copa de 2018.

Southgate Inglaterra
Foto: Icon Sport

No entanto, tem se mostrado diversas vezes um treinador pouco arrojado taticamente, principalmente depois da Eurocopa, e parece que não tem dado conta de alocar tamanha abundância de talento que tem crescido no país e que está, agora, em suas mãos.

A escolha por um novo treinador para substituir Southgate já foi sondada, depois de convocações questionáveis e apresentações não tão animadores. Nomes como o de Sarina Wiegman, técnica da equipe feminina, e até mesmo Pep Guardiola já foram cogitados.

O fracasso já não existe mais – a seleção inglesa atualmente é mais coesa e mais capaz do que a da geração dourada dos anos 2000, além de ter conquistado resultados melhores.

Rice e Bellingham não vão repetir o fracasso de Gerrard e Lampard por todos estes motivos. Ainda assim, a depender das escolhas de Southgate e da FA, a Inglaterra ainda pode ter um novo “fracasso”, com o que pode ser a terceira (ou até mesmo segunda) melhor geração de sua história.

Guilherme Ramos
Guilherme Ramos

Jornalista pela UNESP. Escrevi um livro sobre tática no futebol e sou repórter da PL Brasil. Já passei por Total Football Analysis, Esporte News Mundo, Jumper Brasil e TechTudo.

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