Andrew Robertson, do Liverpool, conta sua verdadeira história

Andrew Robertson escreveu para o The Player’s Tribute e a PL Brasil traz a tradução

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Robertson

Com 25 anos de idade, Andrew Robertson teve a melhor temporada da sua vida em 2018/2019, com a camisa do Liverpool. 

Mas nem tudo são conto de fadas, como ele mesmo diz. O escocês fez um relato no The Player’s Tribute onde conta vários momentos de sua vida, como a pressão que sentiu no começo da carreira, quando precisava arrumar um contrato logo, senão teria que largar o futebol.

O confronto contra o Barcelona é lembrado com carinho. Robertson conta o que ele sentiu após o jogo na Espanha, e o que passou pela sua cabeça quando Origi abriu o placar em Anfield.

ISSO É PELO LIVERPOOL

“Preciso começar com uma confissão. Não são muitas coisas que me incomodam, mas se tem alguma que me causa isso, é a ideia de minha história é um conto de fadas no futebol.

Eu sei que quando dizem que sou uma espécie de Cinderela é um elogio. Eu agradeço, mas para ser honesto, eu não me sinto assim porque isso não é verdade.

Nenhuma varinha mágica foi apontada para mim. Eu não ganhei na loteria para conseguir em um dos maiores clubes do mundo. A razão pela qual eu sou um jogador do Liverpool é a mesma de ser o capitão do meu país: eu trabalhei duro para conseguir aproveitar o talento que eu tenho.

Por que isso importa? Na verdade, isso não importa nem para mim e nem para minha família também. Isso só importa para, só Deus sabe quantos, os pequenos Andy Robertsons que existem por aí. Crianças que lutam para convencer as pessoas que elas merecem uma oportunidade. Meninos apenas precisam de um tempo para chegar onde eles merecem estar.

Garotos que podem começar a acreditar que apenas um conto de fadas podem salvá-los.

Eu nunca quis ser um ícone, daqueles de pôster. Mas se for para ser um, que seja por isso. Se você não desistir, se continuar acreditando em você mesmo quando os outros duvidaram, você pode chegar lá. Você pode mostrar que é bom o suficiente.

Agora que tenho dois filhos, essa mensagem é mais importante que nunca. Eu não quero que eles pensem que o pai deles ‘deu sorte’. Eles precisam entender que qualquer potencial que tiverem só vai ser real se suas mentes trabalharem para isso. Conto de fadas? Isso é coisa da hora de dormir

COMPROMETIMENTO É A PALAVRA DE ORDEM NO LIVERPOOL

Uma das melhores coisas do futebol é que existem várias pessoas como eu. A maioria dos jogadores chegam ao topo porque são motivados. O time do Liverpool tem vários. Eu sou prova de que existem muitos jogadores assim.

Veja Virgil van Vijk, por exemplo. Quantos treinadores e olheiros já lhe disseram que ele não era um jogador de nível mundial? Ele vai te citar vários. Ou então Mo Salah, um dos melhores finalizadores do futebol, já foi descartado por não ser bom o suficiente para a Premier League.

Jordan Henderson deve ter pedido a conta de quantas vezes sua habilidade foi questionada – embora nenhum desses teve a sorte de trabalhar ao seu lado – e ele é um dos pilares do Liverpool que chega à sua segunda final seguida de Uefa Champions League.

Eles não vêm dos contos de Hans Christian Andersen (escritor dinamarquês, autor de A Pequena Sereia, entre outros), eles são exemplos que comprometimento e trabalho duro fazem a diferença.

A REMONTADA CONTRA O BARCELONA

O mesmo que se aplica a nós com um time, se aplica ao Liverpool como clube. Nós somos o que somos por causa da ética e da nossa crença em que tudo é possível.

É por isso que nós conseguimos reverter o 3 a 0 contra o grande time do Barcelona. Nós não jogamos o nosso destino nas mãos do acaso e torcedores para que desse certo. Nós forçamentos o destino a ser do nosso jeito e nem Lionel Messi, o melhor jogador que já vi, poderia parar.

Talvez existissem aqueles de fora de Liverpool que não acreditavam que poderíamos ir para a final. E para ser justo, eles tinham razões mais que suficientes para isso. Especialmente depois que fomos atropelados no Camp Nou. Mas tinha algo no primeiro jogo que nos deu esperança. Nós já vimos o suficiente para saber que poderíamos competir com o Barcelona. O problema foi que todos os momentos decisivos deste jogos foram negativos para nós, mas sabíamos que em Anfield, o momento e a sorte poderiam mudar.

Se eu fosse do tipo simpático, eu provavelmente pediria desculpas aos adversários que vêm ao Anfield em noites europeias. O quê eles enfrentam é quase injusto. Eles são intoxicados por uma mistura de história, paixão e uma crença inabalável. Isso é uma vantagem muito grande, e é por isso que o Liverpool vence as probabilidades em várias ocasiões.

É por isso que os torcedores são convencidos de que o quê parece ser impossível, se torna possível.

Eles já viram isso antes, então porque não deveriam acreditar?

Antes de entrar em campo, no vestiário, nós sabíamos que tínhamos chances. Nós sabíamos que nosso treinador confiava na gente porque ele nos disse isso. Sabíamos que os torcedores acreditavam na gente porque podíamos ouvi-los. Meu deus, nós ouvíamos eles. E, provavelmente o mais importante de tudo, nós sabíamos que cada um acreditava em si mesmo e no outro.

Então é por isso que quando Divock (Origi) marcou no sétimo minuto, eu não acreditei. Eu sabia. Eu sabia o quê estava vindo – o quê Anfield tinha criado. Espero que isso não soe desrespeitoso, já que não poderia ter mais respeito pelo Barcelona. Mas aquela noite não era sobre eles, era sobre nós. Nós fomos encadeados pelos fãs e a nossa vontade estava em outro patamar.

Não foi fácil depois que Messi fez sua mágica no primeiro jogo. Apesar de estarmos em Barcelona, Madrid não poderia ser mais longe. Então, Klopp veio ao vestiário com seu característico sorriso.

‘Rapazes, rapazes, rapazes!’ ele disse, ‘Nós não somos o melhor time do mundo. Agora nós sabemos disso. Talvez eles sejam! Quem se importa? Quem se importa! Nós ainda podemos vencer o melhor time do mundo. Vamos de novo’.

Talvez tenha me levado um segundo, ou talvez o voo inteiro de volta a Liverpool para acreditar nele, mas olhando agora, aquele foi o momento que mudou tudo para nós. No futebol, todos falam sobre confiança. Todo time diz que a tinha depois de uma reviravolta. Mas não é o caso com todos os clubes. Simplesmente não é. O treinador… ele começa tudo. Ele acende o fogo e, então, Anfield faz o que faz.

Eu me lembro do aquecimento. O lugar estava pulsando. Parecia que todos estavam em cima de nós, então só Deus sabe como era para os jogadores do Barcelona. Quando Div (Origi) marcou tão cedo, você conseguia ver nos olhos deles. Os torcedores ficaram insanos e eu não conseguia ouvir nada. Eu só me lembro de olhar para Henderson, Milner e Van Dijk – eles mal sorriram. Eles simplesmente balançaram os braços para a torcida, meio que dizendo: ‘Nós vamos de novo’.

Eu suponho que aquela noite entrou para a história. Todo mundo que ama este clube vai lembrar onde estava e com quem estavam assistindo. Para mim, pessoalmente, o que fez isso mais especial foi da onde eu vim para chegar até lá. Se eu tivesse ouvido os outros, eu não poderia vivenciar isso em Anfield. Exceto como um fã que queria entender toda aquela confusão.

Robertson
A loucura tomou conta de Anfield (Clive Brunskill/Getty Images)

OS PRIMEIROS CHUTES NO FUTEBOL DE ROBERTSON

Eu cresci indo ao Celtic Park com minha mãe, meu pai e meu irmão. Nós tínhamos quatro season tickets. Meu irmão e eu tínhamos posters de Henrik Larsson por todo lugar. Lenda, absolutamente lenda.

Eu até tinha um papel de parede verde. O Celtic fazia parte da nossa família. É apenas o jeito que era e ainda é. Eu me juntei ao time de juniores como um pequenino rapaz e ficava em volta do campo imaginando estar no Celtic Park.

No começo, eu realmente joguei no topo por um tempo. Papai até me pagava 2 libras por gol. Acho que fiz 75 libras numa temporada. Ao contrário de agora, que eu provavelmente acabaria lhe devendo dinheiro, já que não sou exatamente Salah nesse tipo de aposta.

Depois de um tempo, eu achei meu lugar no meio-campo, e na última temporada com o Celtic, eu alternei entre o meio e o lado-esquerdo. Então eles contrataram um novo diretor técnico naquele ano e aparentemente eu apenas não estava nos planos, seja lá por qual razão.

Na minha entrevista de final de ano, a comissão técnica me disse que não me manteria.

Eu tinha 15 anos. Um ano distante de conseguir um contrato profissional com o Celtic. Mas aquilo se foi, simples assim, e doeu como o inferno.

Mamãe odiava nos ver chorar. Ainda odeia. Mas ela me viu derramar mais do que algumas lágrimas aquele dia. Eu me lembro que ela comprou um curry do meu lugar favorito para ver se me animava. Isso foi no meio da semana. Eu quase nunca ganhava um curry no meio da semana. Mas eu nem consegui comer muito, e ela percebeu o quão mal eu estava.

As coisas estavam ruins, mas ainda bem que minha família me deu suporte. Eles me apoiaram a continuar perseguindo meu sonho, mesmo quando isso parecia meio irrealista. Nós decidimos ir até o Queens Park em 2010. Um clube menor de Glasgow, para dizer o mínimo. A vida lá era diferente, eu fazia 6 libras por noite trabalhando num tipo de clube da classe trabalhadora. A maioria dos jogadores trabalhavam e não foi diferente para mim.

Eu fiz todos os tipos de trabalho. Preparei shows de paisagismo, limpei as coisas do time de cima, e até trabalhei no Hampden Park durante partidas da Escócia. Meus pais disseram que se eu não começasse a encontrar meu jogo naquele ano, provavelmente seria melhor começar a olhar as opções da universidade. Então eu dei tudo que podia. Isso foi um trabalho de verdade, foi uma pressão real.

As pessoas sempre me perguntam sobre a pressão de jogar pelo Liverpool. Essa existe, acredite em mim. Mas há essa pressão, e existe a pressão de jogar pela sua vida – sabendo que se não der certo, você terá que desistir de tudo que ama. Essa é a pior pressão que eu já senti. E nessa situação, comecei a acreditar em mim mesmo – talvez pela primeira vez na vida. Eu realmente não tinha outra opção.

O Dundee United me abordou alguns anos depois e isso me permitiu treinar todo dia, recebendo um salário e sem precisar fazer bicos. Mas no final das contas, isso foi bom para ver como as pessoas vivem no dia-a-dia fora da bolha do futebol.

Quando eu tive a chance de jogar na Premier League pelo Hull City em 2014, eu tinha vivido muito da vida real. Minhas ambições eram ser um jogador sólido da Liga Escocesa. Enquanto eu estava trabalhando e esvaziando caixas, eu nunca pensei que poderia jogar uma Champions League, ainda mais pelo Liverpool.

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O LIVERPOOL QUER ME CONTRATAR? É SÉRIO?

Isso é engraçado, na verdade… Alguns clubes me chamaram quando eu estava na pré-temporada com o Hull em 2017, mas nenhum realmente tinha interesse. Minha patroa estava grávida e nós estávamos no processo para a chegada do bebê – essa era nossa prioridade, como qualquer pai.

Então eu ouvi que o Liverpool me queria. Liverpool! Quando você ouve que o Liverpool te quer, você liga para o seu empresário em cinco segundos. Eu não poderia assinar o contrato mais rapidamente, de verdade.

Eu tomei uma dose de realidade rapidamente, no entanto. O médico foi em dois dias, e foi brutal. Minha dieta era estranha pois a equipe médica tinha que fazer muitos testes. Depois que passei deles, tive que ir a Melwood para fazer um outro teste.

Eu estava correndo com Danny Ings, e depois de algumas voltas em volta do gramado, eu senti algo no meu estômago. Eu sabia que as coisas iriam ficar ruim, mas o que posso fazer?

Continuei correndo e em poucos minutos eu estava de joelhos e vomitando no campo.

Este solo sagrado, onde todas essas lendas pisaram: King Kenny, Rushie, Stevie Gerrard. E aqui estou eu, um rapazinho vomitando na frente da equipe médica do Liverpool. Se a primeira impressão é a que fica, só Deus sabe o que eles pensavam de mim.

No dia seguinte, eu encontrei o treinador e ouvi sua risada a uma milha de distância. Obviamente ele ouviu sobre o meu teste. Eu me viro e ele está andando na minha direção, esfregando a barriga e apontando para mim. A equipe atrás dele também está rindo.

E foi quando ele me deu um grande abraço. Depois disso, eu relaxei um pouco

Todo o time fez com que eu me sentisse bem naquela semana, mas, honestamente, demorou muito para que eu percebesse que eu era um jogador do Liverpool.

Eu vesti a camisa vermelha, eu usava o agasalho do clube em todos os lugares que íamos, eu estava usando em casa. Mas ainda não me sentia como um jogador do Liverpool.

Entrei e saí da escalação por alguns meses. E o sistema que jogamos é tão complexo que eu estava trabalhando muito duro para aprender tudo, para entender o que o treinador queria de seus laterais.

Quando eu não via meu nome na lista de equipes, minha crença em mim mesma começou a diminuir. Isso aconteceu. Mas todas as minhas experiências na vida, e os tempos difíceis que passei no Celtic e no Queens Park, me ensinaram a ser paciente.

Então eu voltava a treinar todos os dias e tentava chamar a atenção do treinador trabalhando mais do que todo mundo. Eventualmente, ele notou. Acho que ele estava apenas esperando por mim para conseguir isso – sentir-se como um jogador do Liverpool e ter essa confiança. E quando eu entrei no time, eu estava pronto.

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A SEGUNDA CHANCE NA FINAL DA CHAMPIONS LEAGUE

Nossos torcedores têm sido incríveis para mim desde que cheguei aqui. E no ano passado eles realmente nos levaram até o apito final e depois em Kiev. Aquela noite foi difícil, e acho que você nunca supera uma partida como essa.

Você apenas vive com isso. Naquela noite, lembro-me do silêncio em nosso vestiário, lembro-me do doloroso voo para casa. E lembro-me de ouvir “You’ll Never Walk Alone” após o apito final.

Os torcedores ainda cantam com seus corações, e isso fica com você.

Quando chegamos a Melwood às 4 da manhã, o treinador nos deu um abraço e disse como estava orgulhoso da nossa equipe. Ele também disse que estaríamos de volta. De algum jeito, depois de um longo caminho, depois de perder por 3 a 0 para o Barcelona… Ele estava certo. Estamos de volta.

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O Liverpool chega à sua 9ª final de Champions League (foto: Getty Images)

Todos nós sabemos o que esta oportunidade significa.

Esta tem sido uma temporada incrível, cheia de tantos altos e baixos e momentos emocionais. Mas para mim, também tem sido uma chance de dar um passo para trás e ver o todo.

Desde ser liberado pelo Celtic e soluçar sobre o meu curry, para fazer seis libras por noite na Escócia, para assinar com o Liverpool e vestir aquele agasalho vermelho, eu mal acredito.

É bom ter outra chance nesta final. Ninguém merece mais do que nossos torcedores, que nos apoiaram nos bons tempos e no desgosto. Mas, como nós, eles saberão que estamos diante de um time de alto nível, como o Spurs. Mauricio Pochettino e os seus jogadores estarão tão determinados quanto nós a fazer algo especial numa final como esta.

O que mais importa é que nosso destino esteja em nossas mãos. Nós sabemos isso. E se há uma coisa que posso garantir sobre esse time, sobre esse grupo de jogadores, é que não pararemos em nada para tentar realizar o sonho dos torcedores

Se isso acontecer, não será um conto de fadas. Será porque nós merecemos.”