Rio Ferdinand: como o balé moldou um dos melhores zagueiros do mundo

Ele foi um dos melhores defensores de sua geração e fez história no Manchester United

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Rio Ferdinand: como o balé moldou um dos melhores zagueiros do mundo
Andrew Yates/AFP via Getty Images

Quando o jovem Rio Ferdinand saltava nas aulas de balé, talvez não imaginasse que a flexibilidade e equilíbrio o ajudassem em uma atividade que não a dança. Quando criança, o menino de Peckham, distrito “barra pesada” do sul de Londres, se entediava muito fácil. E o balé foi uma das opções que sua mãe achou para entreter o filho.

Rio Ferdinand e o balé

Tudo começou em um certo dia em que um pequeno Rio Ferdinand estava fazendo ginástica na escola. Ele foi abordado por um professor, que o convidou para dançar balé na Central School of Ballet. Depois de uma entrevista, o menino, então com 11 anos, ganharia uma bolsa e faria uma atividade que mudaria sua vida.

As aulas com a professora Cecilia Darker na Central School of Ballet duravam três a quatro vezes por semana. O talento de Rio para o balé era inegável.

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“Eu lembro de Rio ter pernas longas e perfeitas para o balé, então ele conseguia pular bem alto. Ele adorava isso”, disse Cecilia ao The Guardian.

Embora gostasse das aulas, ele não contava nada “desse mundo” para os seus amigos. Ele sabia que não entenderiam. Quando foi convidado para uma apresentação de dança na Sadler's Well Theatre, acabou contando ao grupo, que morreu de rir, mas posteriormente o apoiou.

Ao fim daquele ano, um ato se encerraria para começar outro bem diferente. Na reunião de pais com professores da escola de dança, a mãe de Rio chegou ao encontro com muitas dúvidas na cabeça.

O filho tinha um teste importante em um clube de futebol e conciliar com as aulas de balé seria tarefa quase impossível. Foi justamente a professora que apoiou a mudança de área. “Você deve escolher o futebol (para o seu filho) porque tem muito mais dinheiro lá que no balé”, disse à época.

Início no West Ham: dividido entre o campo e as boates

Nick Wilson /Allsport

Foi então que Rio trocou a sapatilha pela chuteira. Aos 13 anos, seu grande desejo era ser jogador de futebol. Seu foco estava no campo de futebol e era lá que o DNA da família corria. O primo mais velho, Les Ferdinand, é o 10º maior artilheiro da era Premier League. Além disso, seu irmão mais novo, Anton, também seguiria seus passos.

Rio passou pela base do Queens Park Rangers, Millwall, Charlton, Middlesbrough e Chelsea, antes de, finalmente, assinar com o West Ham em 1992. Foi nos Hammers que o jovem zagueiro virou profissional e atuou com outros jogadores que fariam muito sucesso em pouco tempo: Michael Carrick, Joe Cole e Frank Lampard.

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Em pouco tempo, as boas apresentações do defensor colocaram seu nome entre as principais promessas do futebol inglês. Se tinha uma barreira impedindo-o atingir todo o seu potencial, era a vida extracampo.

Em setembro de 1997, Ferdinand foi condenado por dirigir alcoolizado e, dessa forma, teve a carteira de habilitação suspensa por um ano. Por muitas vezes, Rio deixava o futebol de lado e atacava a noite londrina. A euforia exagerada ao entrar na fase adulta custou caro.

Apesar de ser uma das grandes promessas à época, ele ficou fora da convocação para a Eurocopa de 2000 para representar a Inglaterra. A ausência na lista chacoalhou a vida do zagueiro, que repensou seu comportamento. Foi então que, meses depois da disputa da Euro, apareceu o Leeds United, disposto a tirar o jovem zagueiro dos Hammers.

‘Ir para o Leeds foi a melhor decisão que tomei'

Ferdinand Leeds
Ross Kinnaird/ALLSPORT

Precisando sair da badalada Londres e voltar a se concentrar só em futebol, o garoto de Peckham deixou sua cidade, seus amigos e trocou de clube. Era a hora de mudar de patamar.

Ele se tornou o defensor mais caro do mundo em novembro de 2000 e se mudou para Leeds. Com um projeto ambicioso, o Leeds United pagou 18 milhões de libras para tirar o jogador do West Ham.

Para ele, a mudança de ares foi a melhor decisão de sua carreira. Já chegou como titular e ajudou o clube a chegar às semifinais da Champions. A equipe fez grande campanha, mas acabou caindo para o Valencia.

Na temporada seguinte, virou o capitão do time, entrou para o time da temporada da PFA (Associação dos Jogadores Profissionais) e seguiu com o bom futebol, embora o Leeds tenha terminado na 5ª posição e sem a vaga para a Champions.

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Tim De Waele/Getty Images

Durante a Copa do Mundo de 2002, foi titular e teve ótimas atuações. Mas fora de campo, algo atrapalhava seu sono. Ele começou a ouvir sobre os graves problemas financeiros do clube. O grande projeto do Leeds estava chegando ao fim e de forma melancólica.

Jogadores precisaram ser vendidos para abater o déficit do clube. As suas grandes atuações no Mundial transformaram o interesse do Manchester United em proposta oficial.

Rio sabia que essa era a hora de partir. Logo depois que voltou para a Inglaterra, ele foi para o escritório do presidente Peter Risdale determinado. Foram quase seis horas de conversa para convencê-lo da transferência.

Ferdinand já tinha o reconhecimento do seu talento, a titularidade na seleção inglesa, mas faltava um objetivo importante: troféus. E isso, ele sabia que conseguiria no novo clube.

Manchester United: taças e mais taças

Rio Ferdinand assinaria com o Manchester United em um casamento perfeito. De um lado, um grande zagueiro que começava a viver o auge da carreira, jogando com confiança elevada e destacado espírito de liderança.

Do outro, um clube que empilhava taças, contando com um ótimo elenco, magistralmente comandado por um técnico vitorioso.

Nesta transferência, Ferdinand se tornou novamente o zagueiro mais caro da história, mas ele não estava nem aí para isso. Rio entrou pela primeira vez no vestiário do United sabendo que a maioria dos seus novos companheiros de equipe já havia levantado, pelo menos, alguns troféus. E ele, certamente, também queria sentir esse gostinho.

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A taça da Premier League veio logo na sua primeira temporada no clube e a sensação era de que mais troféus estavam por vir. Mas, na temporada seguinte, veio o baque. Se Ferdinand se acostumou a saltar e cair em pé nas aulas de balé quando criança, não imaginava a queda que estava por vir.

Bruno Vincent/Getty Images

Em setembro de 2003, ele foi escalado para realizar um exame antidoping em Carrington, centro de treinamento do United. Mas o jogador havia deixado o local antes para realizar compras. Quando se lembrou do compromisso, retornou ao clube com pressa, mas já era tarde demais.

No dia seguinte, ele realizou os exames, que não apontaram nenhum problema. Ele ainda ofereceu realizar um teste de folículo capilar, mas a Federação Inglesa rejeitou.

Após uma decisão que demorou meses, o Comitê Disciplinar da federação impôs uma suspensão ao jogador de oito meses e uma multa de 50 mil libras. O zagueiro até apelou, mas não conseguiu mudar a decisão.

Por ter faltado ao exame, ele ficaria, então, fora do restante da temporada. Dessa forma, ele perderia a Eurocopa de 2004 e veria o Manchester United então na liderança do Campeonato Inglês terminar o torneio na 3ª posição.

“Se esse tipo de coisa não pode torná-lo mais responsável, não sei o que pode. As pessoas achavam que eu devia ter algo a esconder, mas eu fiz todos os testes solicitados e o juiz disse que provei, sem sombra de dúvida, que não tinha nada no meu organismo”, contou à revista FourFourTwo.

Parceria com Vidic e muitas taças

Vidic Ferdinand
Laurence Griffiths/Getty Images

Depois da longa suspensão, Ferdinand voltaria mais responsável e focado dentro de campo. Sua dedicação, então, passou a ser ainda maior. A mentalidade de trabalhar duro se aperfeiçoou. Quem ajudaria nesse processo seria um novo parceiro de zaga que ainda demoraria algumas temporadas para chegar a Old Trafford.

Na janela de transferências de 2006, o sérvio Nemanja Vidic desembarcava em Manchester para se tornar seu par. Juntos, formaram uma das duplas de zaga mais completas e temidas da era Premier League.

Eles ajudaram o Manchester United a ganhar muitos títulos. No United, Ferdinand entrou quatro vezes para a seleção da temporada da Premier League, eleita pela PFA. Levantou 14 taças, sendo Champions League (1), Premier League (6), Copa da Liga (2), Supercopa da Inglaterra (4) e Mundial de clubes (1).

Em 2014, o veterano defensor viu a não renovação do seu contrato com o clube ser um aviso de que era hora de partir. Rio resolveu, então, voltar para casa.

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Breve período no Queens Park Rangers

Rio Ferdinand QPR
Clive Rose/Getty Images

Ferdinand voltaria para a sua Londres, dessa vez, para atuar em outro clube. O Queens Park Rangers seria seu novo time. Ele também reencontraria o técnico Harry Redknapp, que o lançou nos profissionais do West Ham.

“Eu tive muitas ofertas mais lucrativas. Ainda sinto que tenho algo a oferecer e estou animado em ajudar este clube a consolidar o seu lugar na Premier League”, disse o zagueiro à época.

Acontece que todo o atleticismo dele, estimulado pelas aulas semanais de balé na pré-adolescência, já não era mais o mesmo. O corpo não aguentava mais o futebol de alto nível. O zagueiro atuou apenas em 12 partidas na temporada. Mas o que viria a derrubá-lo ainda estava por vir.

Aposentadoria dramática: perda da mãe e da esposa

A aposentadoria tranquila que Ferdinand havia projetado não saiu nada como o planejado. Em maio de 2015, sua esposa Rebecca Ellison, que lutava há um ano contra um câncer de mama, morreu. Mãe de três filhos com Rio, Rebecca tinha apenas 34 anos, e o namoro entre os dois havia começado 15 anos antes.

A despedida precoce de sua parceira foi um choque que virou a vida da família de cabeça para baixo. As noites em claro viraram rotina. Paralelo ao luto, ele precisou aprender tarefas básicas no cuidado das crianças, que antes eram assumidas integralmente pela esposa.

Em pouco meses, ele foi arrastado pela depressão e mergulhou no álcool. Tempos depois, conheceu Kate Wright, e o novo e saudável relacionamento mandou os problemas de Rio para escanteio. A relação ficou séria e a namorada virou esposa.

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O ex-zagueiro questionou se estaria desrespeitando a história de sua ex-companheira com o relacionamento e a inserção de outra figura feminina na criação dos seus três filhos. O relacionamento sincero entre os dois era bem claro. O casal honraria a história de Rebecca e buscariam ao máximo o diálogo com as crianças.

Além da dolorosa morte de sua companheira, em 2017, Rio ainda perderia sua mãe, de 58 anos, também por câncer.

O documentário “Rio Ferdinand: Being Mum and Dad”, da BBC, foi ao ar em maio de 2017 e contou sobre a sua vida ao lado de Kate, com os três filhos, mostrando a rotina da família. O casal se esforça para que todos da casa aprendem a lidar com o luto de forma saudável. E é no apoio da família que Ferdinand finca os pés no chão para manter o equilíbrio na vida.