Refugiados no futebol inglês Parte I: uma relação antiga e cada vez mais atual

Em 1937, um navio trazendo cerca de quatro mil crianças órfãs e refugiadas da Guerra Civil espanhola atracou em Southampton

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Divulgação Aston Villa

A história entre refugiados e o futebol na Inglaterra é na verdade bem antiga, tendo início há mais de 80 anos. O ponto de partida dessa relação foi em 1937, quando um navio trazendo cerca de quatro mil crianças órfãs e refugiadas da Guerra Civil espanhola atracou em Southampton, vindo de Bilbao.

O País Basco, por ser na época um grande foco de resistência ao General Franco, foi uma das regiões da Espanha mais atingidas durante a Guerra Civil. Em 26 de abril de 1937, Franco, com o auxílio de aviões da força aérea nazista alemã, ordenou um severo bombardeio aéreo que devastaria a cidade basca de Guernica, fato que foi posteriormente consagrado no quadro homônimo de Picasso.

Menos de um mês após o bombardeio, em 21 de maio, o navio SS Habana saía de Bilbao com milhares de crianças órfãs e abandonadas, chegando em Southampton dois dias depois.

OS IMPACTOS DO BREXIT NA PREMIER LEAGUE

A tragédia de Gernika e a chegada do SS Habana em Southampton comoveram a sociedade inglesa. Esse impacto fez com que a população pressionasse o governo do país a oferecer estadia aos menores refugiados, o que acabou ocorrendo.

Primeiros refugiados jogadores na Inglaterra

De todas as crianças acolhidas em solo inglês, seis virariam jogadores de futebol profissional nos anos seguintes, tornando-se então os primeiros refugiados a jogar no inglês. Foram eles: Sabino Barinaga, Raimundo Lezama, Jose Bilbao, Emilio Aldecoa e os irmãos Antonio e Jose Gallego.

Os seis jogadores tiveram carreiras bem variadas. Emilio Aldecoa, ponta esquerda, assinou com o Wolverhampton em 1943, e, logo em seu primeiro ano, foi o artilheiro do clube na temporada, marcando 11 gols.

Em 1945, ele foi contratado pelo Coventry, onde ficou por mais duas temporadas, quando voltou para a Espanha. Em seu país natal, foi jogador de Athletic Bilbao, Valladolid e Barcelona, onde jogou ao lado de um dos maiores jogadores da história do clube, o húngaro e também refugiado Kubala. Além disso, Emilio também jogou uma partida pela seleção espanhola.

Sabino Barinaga também teve uma carreira de sucesso. Apenas com 16 anos, assinou com o Southampton, em 1938. Por ser ainda muito jovem, passou a primeira temporada na segunda equipe dos Saints, marcando impressionantes 62 gols em 13 jogos.

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Southampton-St Mary's Stadium Julian Finney Collection Getty Images Sport
Julian Finney Collection Getty Images Sport

Ao fim desta temporada, a Guerra Civil espanhola já havia acabado, e Sabino foi contratado pelo Real Madrid, time que defendeu por dez temporadas. Ele marcou seu nome na história do clube merengue principalmente por ser o autor do primeiro gol do estádio Santiago Bernabeu, inaugurado em 1947.

Raimundo Lezama, goleiro, assinou com o Southampton em 1939, e, logo no ano seguinte, já voltou para Bilbao para jogar no Athletic, onde se tornou uma lenda do clube. Por fim, os irmãos Gallego fizeram carreiras na Inglaterra, mas com menos destaque.

Antonio assinou com o Norwich em 1947, mas fez somente uma partida pelo clube. Jose teve uma carreira um pouco mais longa, jogando também por Brentford, Southampton, Colchester United e Cambridge United.

Imigrante e refugiado

Cabe fazer um esclarecimento em relação às diferenças entre os conceitos de imigrante e refugiado. Imigrante é toda aquela pessoa que, seja pelo motivo que for, vai morar em um país que não o de sua nacionalidade.

Já o refugiado também é um imigrante, mas um tipo bem específico e que exige mais proteção. Ele é um imigrante forçado, que foi obrigado a deixar o seu país e buscar a proteção dos seus direitos humanos, por estar sofrendo perseguição em função de sua raça, religião, nacionalidade, opiniões políticas ou por participação em determinado grupo social.

Ao sofrer risco de violação dos seus direitos humanos em função desses atributos é que o imigrante se configura em um refugiado; assim, todo refugiado é imigrante, mas nem todo imigrante é refugiado.

Por estar sofrendo risco de violação dos seus direitos humanos fundamentais, ou mesmo já sofrendo, o refugiado se encontra em uma situação extremamente vulnerável, e, por isso, os países onde eles buscam proteção têm obrigação em acolhê-los, conforme preceitua o Estatuto dos Refugiados, assinado em 1951 pela grande maioria dos países do mundo em decorrência dos terríveis acontecimentos da Segunda Guerra Mundial.

Após a segunda grande guerra, porém, conflitos violentos e perseguições políticas, étnicas e raciais continuaram acontecendo em profusão, continuando a gerar refugiados pelo mundo.

Apesar das enormes dificuldades que constituem as histórias de migração dos refugiados e suas famílias, muitos ainda conseguem prosperar, tornando-se inclusive grandes estrelas do futebol mundial.

Football Welcomes

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Crédito: Anistia Internacional

Atualmente, existem mais de 65 milhões de refugiados por todo o mundo, com a forte tendência de que esses dados cresçam ainda mais nos próximos anos. Mesmo assim, esse número já representa um recorde absoluto de números de refugiados na história, superando inclusive o período da Segunda Guerra Mundial.

Por isso, é cada vez mais importante que clubes e federações fomentem a criação de projetos sociais que contem com a participação de refugiados e outros imigrantes. Desde 2017, uma vez por ano, a Premier League, a FA e a ONG Anistia Internacional organizam conjuntamente o Football Welcomes.

O projeto consiste em um fim de semana repleto de eventos e atividades com o intuito de ampliar a inclusão dos refugiados por meio do esporte. A primeira edição contou com a participação de 30 clubes; na última, já participaram 177.

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Arsenal torcedores Emirates Catherine Ivill Collection Getty Images Sport
Catherine Ivill Collection Getty Images Sport

Como observado, é importantíssimo que o futebol continue a cumprir seu papel fundamental de integração social, ajudando os refugiados a se adaptar ao novo país e também a recuperar a dignidade e a normalidade de suas vidas.

Além disso, o sucesso no esporte os possibilita ainda a eventualmente atingir uma ascensão social e até financeira.

Por fim, suas histórias de sucesso também têm grande valia por servir como exemplo de motivação para pessoas em situações semelhantes às suas.

Por mais que seja sempre repleto de dificuldades o caminho percorrido pelos refugiados, não necessariamente precisa leva-los até a Premier League. Viver em paz e com os seus direitos humanos assegurados já é o suficiente.