O adeus de Ray Clemence: um dos maiores da história do futebol inglês

Aos 72 anos, o ex-goleiro, que lutava contra um câncer desde 2005, faleceu

0
506
ray clemence
Len Trievnor/Daily Express/Hulton Archive/Getty Images

O mundo do futebol sofreu um grande baque no último domingo. Isso porque o ex-goleiro Ray Clemence faleceu aos 72 anos. Ele lutava contra um câncer de próstata desde 2005. Durante os mais de 20 anos de carreira, o lendário arqueiro fez história no Liverpool, Tottenham e também na seleção inglesa.

Ray Clemence deu seus primeiros passos nas categorias de base do Notts County. Ficou lá de 1962 até 1965, já que no último ano se transferiu para o Scunthorpe – clube em que estreou profissionalmente. Nas 48 partidas que fez entre 1965 e 1967, se destacou e chamou atenção do Liverpool, que pagou 18 mil libras e levou o goleiro – era um pedido de Bill Shankly.

Uma curiosidade sobre a contratação de Ray Clemence é de que ele falhou em dois dos três gols na sua despedida no Scunthorpe. E o então técnico do Liverpool estava vendo o jogo. Após a partida, ele ficou sem esperança e, como ganhava um salário baixo, arrumou um emprego na praia de Skegness durante as férias.

No entanto, após a ligação da sua mãe, um homem chegou para informá-lo que o Scunthorpe havia aceitado a oferta do Liverpool, e que só dependia dele para a transferência ser concretizada. Ele obviamente aceitou.

O maior goleiro da história do Liverpool

Com o titular Tommy Lawrence em boa forma, Ray Clemence precisou conviver com a reserva nos primeiros anos. No entanto, a partir da temporada 1969/1970, assumiu a titularidade de forma definitiva. E foi aí que o arqueiro passou a escrever sua brilhante e vitoriosa história no Liverpool.

Atuando pelos Reds, Ray Clemence disputou 665 partidas e conquistou 18 títulos – com destaque para as cinco taças do Campeonato Inglês e mais três da Champions League. Mas o legado do arqueiro foi muito além de troféus e vitórias conquistadas. Se tornou um símbolo debaixo das traves.

Quem ia ao Anfield – ou nos jogos do Liverpool fora de casa – via um líder em campo. Um arqueiro que, além dos milagres quando necessário, também era um símbolo de confiança – tanto para os companheiros do time como para a torcida.

Desde que assumiu a titularidade durante temporada 1969/1970 até a sua saída em 1981, Ray Clemence perdeu apenas seis jogos pelo Campeonato Inglês. Números impressionantes e que comprovam como o arqueiro era importante naquele time do Liverpool – que também era muito forte, claro.

Outro dado importantíssimo de sua passagem no Liverpool veio durante a temporada 1978/1979. Isso porque ele conseguiu uma grande marca: tomou apenas 16 gols em 42 jogos, além de ter conquistado o Campeonato Inglês daquela temporada, sendo um dos destaques daquele Liverpool.

A despedida do Liverpool foi em grande estilo. Aconteceu em Paris, na final da Champions League de 1981. Ray Clemence fez boas defesas e ajudou os Reds a derrotarem o Real Madrid por 1 a 0 e, na época, erguerem o troféu da competição pela terceira vez – o arqueiro estava nas três.

Depois de 665 jogos e 18 títulos, além de um legado inigualável até hoje, Ray Clemence se despediu do Liverpool, acertando sua ida para o Tottenham.

Reencontro com o Liverpool

ray clemence
Len Trievnor/Daily Express/Hulton Archive/Getty Images

Após a passagem vitoriosa no Liverpool, Clemence chegou no Tottenham em busca de um novo ciclo vitorioso. Não conseguiu repetir a quantidade de títulos que obteve com os Reds, mas também fez história nos Spurs – claro que num nível menor de idolatria se comparado ao do Liverpool.

No seu primeiro reencontro com o Liverpool, na final da Copa da Liga inglesa da temporada 1981/1982, Ray Clemence até fez uma boa partida, mas o Tottenham acabou sendo derrotado por 3 a 1, resultado que deu o título da competição para os Reds.

Outro reencontro marcante com o Liverpool aconteceu na mesma temporada, mas desta vez no Anfield. Se os Reds vencessem, conquistavam o título. E foi o que acabou acontecendo: 3 a 1 para o Liverpool e a 13º troféu do Campeonato Inglês obtido.

No entanto, outra coisa chamou atenção neste jogo. Na volta para o segundo tempo, Ray Clemence foi defender o gol em que tem a arquibancada The Kop atrás. Enquanto caminhava para lá, foi ovacionado e exaltado pelos torcedores que estavam em Anfield, numa demonstração de gratidão ao ídolo.

“É provavelmente o momento mais emocionante que eu já estive em um campo de futebol. Senti um nó na garganta porque não pude acreditar na recepção deles. Nunca poderia imaginar essa reação, com todo o estádio levantado. Foi um dos melhores momentos”, afirmou Ray Clemence sobre essa recepção dos torcedores do Liverpool.

Leia mais: Jamal Musiala, a nova promessa inglesa que já quebra recordes na Alemanha

Ray Clemence também foi fundamental no Tottenham

Na sua primeira temporada no Tottenham, ele conquistou um título. Com boa atuação na final, ajudou os Spurs a derrotarem o Queens Park Rangers na final da Copa da Inglaterra por 1 a 0.

Dois anos depois, na temporada 1983/1984, levou o Tottenham a chegar na final da então Copa da Uefa, embora tenha ficado no banco de reservas na decisão diante do Anderlecht e visto o seu companheiro brilhar nos pênaltis.

Com 330 jogos pelo Tottenham, Ray Clemence se despediu do clube e do futebol em 1988. Além dos dois títulos conquistados nos Spurs, também deixou um legado na equipe de Londres.

Seleção inglesa

Pela seleção, Ray Clemence travou uma batalha pela titularidade. Isso porque o arqueiro Peter Shilton também tinha muita qualidade, então havia essa alternância. O ídolo no Liverpool e Tottenham estreou pelos Three Lions em 1972 e se despediu da equipe em 1983.

Durante esse período, o que mais decepcionou Clemence foi não ter sido titular na Copa do Mundo de 1982. Por conta do regulamento da época, a Copa da Inglaterra – que aconteceu anos antes do Mundial da Espanha – acabou sendo decidida em dois jogos, fazendo com que o arqueiro perdesse dois amistosos pela seleção – que definiram Shilton como titular.

Como a Inglaterra não se classificou para as Copas do Mundo de 1974 e nem de 1978, além da Eurocopa de 1976, Ray Clemence só atuou em duas partidas por competições relevantes, justamente na Eurocopa de 1980. No Mundial de 1982, acabou sendo banco.

Além da frustração de ter sido reserva em 1982, Clemence carregou outra mágoa: uma falha diante da Escócia, em 1976, na derrota da Inglaterra por 2 a 1. O então companheiro de Liverpool Kenny Dalglish chutou e o goleiro tomou o gol entre as pernas. “Gordon Banks é lembrado por sua defesa contra Pelé, e eu sou lembrado por isso”, afirmou Clemence.

Em 11 anos atuando pela seleção inglesa, Ray Clemence disputou 61 jogos. Depois da aposentadoria como jogador, chegou a ser membro da equipe de bastidores da seleção – ficou de 1996 até 2013.

Não há posts para exibir