Sem salário, filhos no elenco e saída conturbada: a bizarra passagem de Ramon Díaz na Inglaterra

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Antes de o técnico Ramon Díaz comandar uma campanha de recuperação destacada com o Vasco no Brasileirão 2023, o argentino encarou um desafio no mínimo estranho há quase uma década em sua única passagem na Europa.

A gloriosa carreira de “El Pelado” é de muito respeito na Argentina. Em duas passagens pelo time do coração — o River Plate — se tornou o maior técnico da história do clube quando se despediu em 2014 justamente para ser substituído por Marcelo Gallardo, seu ex-comandado. Na relação entre criador e criatura, Gallardo viria ocupar o seu posto como o mais vitorioso dos Milionários.

Contrato sem salário

Entre as duas passagens pelo River Plate, Díaz teve um capítulo tortuoso em sua longínqua carreira. Quando decidiu desembarcar na Inglaterra em 2004 para assumir um clube da quarta divisão foi um choque no país. O pequeno Oxford United é um modesto clube da cidade mundialmente conhecida pela universidade mais antiga do Reino Unido.

O time que ostenta as cores azul e amarela, com o rosto de um boi em seu escudo, viveu seus melhores momentos na história apenas na década de 1980, quando passaram algumas temporadas na primeira divisão e ainda beliscaram um título da Copa da Liga.

Ele e o então dono do Oxford, Firoz Kassam, se conheceram em Mônaco muitos anos antes através de um amigo em comum. À época, o argentino atuava na equipe monegasca, treinado por um jovem promissor de nome Arsène Wenger.

Quando o Oxford estava na beira do rebaixamento da League Two, quarta divisão da Inglaterra, e a sucessiva troca no comando não parecia dar certo, Kassam decidiu ousar. Um amigo precisou tirar o outro de uma enrascada e a amizade de Kassam e Díaz seria testada a partir dali.

“Kassam me pediu para vir, ajudar ele com a minha experiência e aconselhá-lo em quais mudanças eram necessárias”, explicou Díaz em sua coletiva de apresentação.

“Eu gosto do futebol inglês e queria ter minha primeira experiência aqui. Eu assisti muito pela televisão e não é como o futebol em outros países europeus, como Itália e França. Também acho muito interessante trabalhar neste nível, completamente diferente do futebol de topo”.

Ramonismo em ação

A missão de Ramon Díaz no Oxford já se mostrava logo de cara um desafio para lá de complicado. Ele se juntava a um clube na beira do rebaixamento e com a missão — quase ilusória naquele momento — de chegar aos play-offs para subir de divisão.

A trajetória de Díaz na Inglaterra, do início ao fim, foi marcada por episódios que pareciam ficcionais, a começar pelo seu contrato com o clube. Nos seis meses em que o argentino treinou o time, ele não receberia salários. O acordo apalavrado com o dono do Oxford envolvia apenas uma possível cessão de 10% das ações do clube em caso de acesso.

“Ramon não veio aqui por razões financeiras, mas para me ajudar”, confessou Kassam. “Ele veio aqui por seis meses para me tirar desse buraco”.

Emiliano (filho) e Ramon (pai) trabalham lado na carreira como assistente e técnico. Foto – Leandro Amorim/Vasco

Ramon trouxe cinco profissionais para integrarem a comissão técnica – todos argentinos. Se o mercado local era totalmente desconhecido, tratou de trazer caras conhecidas. Foram cinco modestos reforços – quatro compatriotas e um colombiano – sendo dois deles, seus filhos: o meia Emiliano e o lateral Michael.

Enquanto aprendia sobre o Oxford e os obstáculos da League Two, Díaz resolvia burocracias para ter a documentação necessária para treinar na Inglaterra e tinha aulas de inglês para agilizar sua adaptação.

Início empolga

O começo do “Ramonismo” em solo inglês não poderia ser melhor e surpreendeu muita gente. Vitória por 2 a 1 sobre o Cambridge United e uma sequência de dez jogos com apenas uma derrota.

“Temos exigido muito dos jogadores. Estamos fazendo várias mudanças táticas. Não queremos fazer as coisas de forma apressada. Vamos passo a passo. Precisamos descobrir o que os atletas podem fazer e então adaptar nosso jogo”, contou em uma das primeiras coletivas.

O rendimento acima das expectativas fez com que Ramon Diaz ganhasse o prêmio de melhor técnico do mês e alimentou a esperança da torcida por um então inesperado acesso. O estilo de jogo havia mudado e a estratégia — mais ofensiva que de seus antecessores — se mostrava acertada. 

Mas quatro derrotas em cinco jogos colocaram o time de volta ao meio de tabela. A leve melhora no fim de março e um desempenho inconsistente em abril interromperam qualquer chance de acesso. A promoção à terceira divisão que antes parecia um sonho ambicioso sofreu com o choque de realidade.

Ramon Díaz em coletiva do Vasco. Foto – Leandro Amorim/Vasco

Saída conturbada

Dos 23 jogos com Ramon Diaz, o Oxford ganhou nove, empatou sete e perdeu outros sete. O clube logo começaria o planejamento para a temporada seguinte e as conversas por um novo contrato causaram atrito entre dono e treinador. 

“Sua decisão de sair foi inesperada e eu estou desapontado”, disparou Kassam.

Discordâncias contratuais amargaram a relação entre ambos, que culminou em um episódio desagradável. Ramon Díaz deixou o clube antes da última rodada da competição, mas quis aparecer no estádio do time para o jogo final da temporada e se despedir da torcida.

A mando de Kassam, dono do Oxford, Ramon Díaz e seus acompanhantes estavam proibidos de entrarem no estádio. Uma confusão entre os argentinos e os funcionários do clube se deu em um dos acessos, o que fez parte da torcida desviar os olhos do gramado para o empurra-empurra.

“Eu convidei eles (Díaz e cia) para assistir ao jogo no camarote da presidência, mas depois soube que tentaram comprar ingressos e, por isso, tomei a decisão de não os deixar entrar”, contou um irritado Kassam ao “Oxford Mail”.

Pedro Ramos
Pedro Ramos

Subcoordenador na PL Brasil. Ex-Estadão e TNT Sports. Formado em Jornalismo e Sociologia.

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