Premier League e União Europeia: separadas no nascimento

Além dos aspectos diretamente relacionados à política britânica, o que exatamente a Premier League tem a ver com a União Europeia?

Jeff J Mitchell Collection Getty Images News
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O processo do Brexit já está em andamento, e já discutimos aqui os efeitos que a saída do Reino Unido do bloco europeu pode causar ao futebol inglês. Porém, para aprofundarmos nosso entendimento sobre o assunto, vale ainda responder outra questão: Além dos aspectos diretamente relacionados à política britânica, o que exatamente a Premier League tem a ver com a União Europeia?

Premier League e União Europeia

A resposta é: Muito. Na verdade, é praticamente impossível dissociar a criação e a evolução da Premier League do fortalecimento e consolidação que a União Europeia teve no mesmo período.

A UE teve seus primórdios na Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), formada em 1957, com o intuito de cooperação econômica mútua por Alemanha, Itália, França, Países Baixos, Bélgica e Luxemburgo.

Esses últimos três países já formavam anteriormente entre eles o bloco Benelux, criado em 1944 através de um acordo pioneiro de livre comércio e circulação de pessoas. Desde essa época, futebol, economia e política sempre estiveram interligados no continente europeu, como exemplificado pela realização da antiga Copa das Feiras.

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Com o passar dos anos, a recém-formada Comunidade Europeia foi se estruturando e aumentando a colaboração entre seus membros. Em 1973, pela primeira vez entram novos membros: a Dinamarca, a República da Irlanda e o Reino Unido. Posteriormente, outros acordos foram sendo assinados entre os países membros, como o Acordo de Schengen de 1985, que ampliou a livre circulação de pessoas que já havia no Benelux para também Alemanha e França, inicialmente.

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Até que, em 1992, foi assinado o Tratado de Maastricht, que estabeleceu oficialmente e de forma definitiva a formação da União Europeia. O tratado estabeleceu aos seus membros, entre outras provisões, o princípio de livre circulação, comércio, serviços e residência entre os cidadãos dos países signatários, simbolizado também pela criação da cidadania europeia.

E você sabe qual liga de futebol também foi oficialmente criada em 1992, não sabe? A Premier League, que se beneficiou dessa livre circulação de pessoas para incorporar cada vez mais talentos europeus à liga e aumentar sua qualidade geral.

O jurista especialista em Relações Internacionais, Ivonei Trindade, reforça que o sentimento regional daquele momento na Europa era de integração, além de uma busca maior por globalização, principalmente após a queda do Muro de Berlim, em 1989.

“Em 1992, o mundo se abria como um todo. Havia um clima de integração que estava reprimido por várias décadas de separação, principalmente na Europa. Com o fim da Guerra Fria, houve uma empolgação regional com as perspectivas de integração e principalmente globalização, que era a palavra daquele momento.”

Esse clima de globalização que pairava sobre a Europa foi fundamental também para o crescimento e popularização da Premier League, primeiro a nível continental, e, posteriormente, a nível global.

Na primeira temporada da liga, 1992/1993, apenas treze jogadores não-britânicos participaram, sem também a presença de nenhum treinador estrangeiro. Hoje é impossível pensarmos em algo assim, basta lembrar dos tantos técnicos e jogadores estrangeiros que fizeram e fazem história na liga.

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Caso Bosman foi fator de mudança

A internacionalização chegou de vez à Premier League a partir de 1995, após o caso Bosman. A decisão foi justamente arbitrada pelo Tribunal de Justiça da União Europeia, e seu precedente mudaria para sempre a história do futebol europeu e mundial.

Jean-Marc Bosman era um jogador de futebol belga, sem muito destaque, do RFC Liège. Em 1990, ao final do seu contrato, ele recebeu uma oferta do Dunkerque, da França, mas foi impedido de ir pelo Liège sem que o clube belga recebesse uma compensação financeira.

Até aquele ponto, os jogadores na Europa não eram livres para sair de seus clubes gratuitamente ao final do contrato. Assim, Bosman eventualmente ingressou com uma ação no Tribunal Europeu de Justiça, alegando restrições a seu direito de exercer sua profissão.

Em 1995, ou seja, cinco anos – e com a devastação da carreira de Bosman – depois, o tribunal deu o seu veredicto. Baseada no artigo 39 do Tratado de Maastricht, que foi base legislativa da recém-formada União Europeia, a Corte Europeia deu ganho de causa a ao jogador, entendendo que o seu direito de livre movimento como trabalhador dentro da comunidade europeia havia sido violado.

Dessa maneira, além de garantir aos jogadores de futebol o direito de sair livre do clube ao fim do seu contrato, a decisão do caso Bosman também determinou que o limite de estrangeiros dos clubes da União Europeia não se aplicava mais a jogadores nascidos nos países membros do bloco. Eles passaram a ser considerados ”comunitários”, e sua contratação passou a ser, portanto, ilimitada.

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Shaun Botterill Hulton Archive
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“Bosman” virou então um termo extremamente popular nos bastidores do futebol europeu. A decisão impactou profundamente o futebol no continente, incluindo a Premier League, e a situação mudou bastante no elenco dos clubes.

Se na primeira temporada da liga, apenas 13 jogadores estrangeiros participaram, menos de sete anos depois, o Chelsea levou a campo uma escalação sem nenhum britânico pela primeira vez na história de todo futebol inglês.

Poucos meses depois, o Manchester United ganhou a primeira Champions League dos ingleses na era Premier League. Naquela decisão contra o Bayern, cinco jogadores da escalação inicial do United eram “comunitários”. Antes do caso Bosman, o limite para estrangeiros em competições da Uefa, incluindo aí os europeus, era de três jogadores.

Em 2005, Arsène Wenger, um dos principais arquitetos da revolução estrangeira na liga, não relacionou nenhum britânico para uma partida. O Arsenal, àquela altura, encantava todos na Inglaterra com o Wergerball, e ninguém parecia se importar muito com a falta recorrente de britânicos na escalação.

Brexit? What?

Os britânicos sempre tiveram uma participação diferenciada na União Europeia, simbolizada pela não adesão ao Euro, por exemplo. Entretanto, apesar de historicamente divergir do governo central de Bruxelas em alguns pontos, o Reino Unido nunca havia dado sinais fortes de que deixaria o bloco.

Até que a questão foi a voto popular em um referendo em junho de 2016, e, Cambridge Analytica à parte, a opção por deixar a União Europeia ganhou, com 52% dos votos. Mas qual a razão para o Reino Unido decidir deixar o bloco naquele momento?

“Com alto índice de desemprego em nações como Grécia, Itália e Espanha, muitas pessoas desses países foram buscar empregos na Inglaterra. Então, um grande número de imigrantes europeus passou a chegar à Inglaterra. Paralelo a isso, houve também aumento de imigração de outros povos, por outros fatores. A partir daí, a imigração começou a ser a principal pauta desse movimento de saída do Reino Unido da União Europeia.”

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Nesse sentido, o aumento da imigração, de maneira geral, é também, em muitos aspectos, mais uma das consequências da crise de 2008.

É umas das principais razões de o mundo viver hoje um período muito mais de fragmentação do que de integração, como foi na criação da Premier League.

“O Brexit hoje é justamente um movimento ”anti-globalismo”, contrastando muito claramente com a euforia da “globalização” da época de início da Premier League. Após a crise de 2008, com o desemprego e as guerras que geraram grande número de imigrantes, o momento é de maior fragmentação regional. Principalmente na Europa, em relação à imigração. Alguns países veem a extrema-direita crescer, justamente com fortes discursos anti-imigração.”

Na contramão do Brexit, estão Irlanda do Norte e Escócia, membros do Reino Unido. Ambos desejavam continuar na União Europeia, sentimento cada vez mais forte nos países. A Escócia, inclusive, repensa seriamente sua posição como parte do próprio Reino Unido em função disso.

Muitos aspectos práticos do Brexit ainda não estão claros. Por enquanto, sabe-se que haverá um período de transição durante a implementação do acordo, até dezembro de 2020.

Até lá, provavelmente a principal dúvida sobre a relação desse processo com o futebol inglês será justamente sobre o futuro da circulação de jogadores naturais de países da União Europeia no Reino Unido, fator que foi fundamental para o crescimento da liga em seus primeiros anos de desenvolvimento.