“Por que eu virei torcedor…. do Tottenham”

Conheça a série especial da PL Brasil sobre a paixão dos torcedores pelos times ingleses que vai ao ar todas as sextas

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Kate McShane/Getty Images

Antes do que viria a ser o Milagre de Istambul, estrelado por Gerrard, Dudek e companhia, meu tio já acompanhava o Milan tanto quanto o Corinthians que cresceu vendo ao vivo. Naquele maio de 2005, ele vivia a expectativa de um dia histórico, com proporções que eu, com pouco mais de 10 anos de idade, ainda não entendia. Mas nada que me impedisse de querer antagonizá-la – afinal, palmeirense de berço (logo, arquirrival), sempre gostei de cutucar as paixões dele.

E deu certo. O roteiro daquela noite a gente já cansou de repassar, mas foi aquele Liverpool que me puxou para o futebol europeu. Aí, sob a tutela de meu tio, a companhia do finado Roja Directa e o advento da internet banda larga, eu perdia um ou outro final de semana provando uns e outros pedaços do futebol inglês que não cabiam na grade do Esporte Interativo na Band.

Depois da Copa do Mundo de 2006, a primeira já “entendendo algum pouquinho de futebol”, minha próxima missão foi acompanhar o Campeonato Inglês mais de perto para secar os adversários diretos do Liverpool, que tinha virado meu queridinho europeu. Cansei de ver United, Arsenal e Chelsea nos meses posteriores. E foi numa dessas, secando os Blues (de José Mourinho!), que me foi revelado o tal do Tottenham.

Digo que foi uma revelação, inclusive, porque no meu Winning Eleven eu já conhecia o North London White, mas ninguém (nem eu) nunca pegava aquele caroço de time para jogar. Mas naquele jogo contra o Chelsea, quando vi a escalação, reparei em uns nomes que eu tinha memorizado do álbum da Copa: Robinson, Lennon e Pyo.

Kate McShane/Getty Images

Além de Keane, Carrick, Zokora e Berbatov, que não viajaram para Alemanha em 2006 e eu conhecia de algum outro lugar, mas sabia que eram bons de bola e me perguntava o que todos eles estavam fazendo naquele time de nome estranho.

O uniforme era bonitão, o estádio era bonitão e a atmosfera parecia especialmente fervente para aquele jogo (normal na minha cabeça, né, já que era um pequeno recebendo um grande). Mas não demorou para o Chelsea de Terry, Robben (flop!), Drogba, Lampard e Makelele abrir o placar – através do próprio Makelele, inclusive, chutando da entrada da área. Mais um timeco que não ia deixar o Liverpool disparar.

Eis que, nos dez minutos entre a abertura do placar e o gol de empate, me peguei pensando algo tipo “olha, esse time está achando que é grande”. O Tottenham se lançava firme e elétrico para frente, sem deixar a zaga dos Blues descansar.

Ricardo Carvalho afastou uns setenta cruzamentos e toda hora que Aaron Lennon esticava a bola o estádio todo fazia aquele barulho das cadeiras batendo quando alguém levanta depressa. Michael Dawson fez o 1×1 de cabeça, ainda no primeiro tempo, e eu já estava na onda.

O segundo gol – da vitória – ainda é um dos meus favoritos de toda a vida. Robbie Keane avança pela borda esquerda, dança com Paulo Ferreira (que cai, de costas, morto) e cruza para dentro. A bola desvia e faz um arco até o outro lado da área. Lennon recebe com jeito de bater no gol, mas domina com um pé limpando o marcador e chuta cruzado com o outro. E o estádio inteiro explode junto comigo, que paro de sorrir quando penso “opa, pera, esse não é o meu time”.

Matthew Lewis/Getty Images

Porque a minha história como torcedor do Tottenham, que nasceu ali, se entrelaça na relação com o Palmeiras. E isso é papo para outra hora, mas aqui é um bom lugar para dizer como foi difícil e estranho desmistificar a coisa de que a gente só pode torcer para um time.

Tendo ido religiosamente para o Palestra Itália desde 1997, foi complexo adotar essa nova forma de torcer. Não tinha sol, não tinha amendoim, não tinha música e travava muito (muito!), então como é que o sentimento podia ser tão parecido?

O primeiro título (e único, rs) que eu vi do Tottenham, inclusive, aconteceu dois meses antes do primeiro título que eu vi do Palmeiras (em 2008), e eu lembro de me sentir culpado por ter comemorado os dois. Eu sequer contava para as pessoas que era torcedor do Tottenham até perto dos 18 anos e meio que escondia o sentimento. Para mim, era como trair.

Numa das minhas letras favoritas, Kanye West diz que “o amor é amaldiçoado pela monogamia”. Será que isso se aplica ao futebol? Para mim, estender o alcance do meu sentimento foi um movimento pintado, em alguma medida, de rebeldia e privilégio, porque apesar de estar nadando contra o dogma do ‘time do coração’ que a família e a cultura brasileira tanto endossam, não é como se eu tivesse abrindo mão de uma paixão para me dedicar a outra.

Dá para nutrir e cuidar de tudo simultaneamente, basta abrir um pouquinho o peito e a cabeça.

tottenham torcedor
Matthew Lewis/Getty Images

Em paralelo, não se ama algo que não se conhece. E aí chega uma das partes mais criticadas pelos terraplanistas do esporte (que na verdade é uma das partes mais gostosas que existem) nessa aventura de encontrar outra paixão em outro lugar do mundo: pesquisar o passado.

Ler, assistir, ouvir e fuçar tudo e tudo de novo para descobrir um universo que se desenrolou bem longe de onde eu nasci. Descobrir que Jimmy Greaves era o Romário de seu tempo, que Ardiles e Villa foram para lá quando ninguém mais daqui iria, que Hoddle podia ter escolhido o clube que quisesse e escolheu ficar e que Diego Maradona foi Tottenham por um dia.

O FIFA ou o Football Manager, que carregam essa relação meio tântrica que a gente tem com esses clubes de fora, são só as ferramentas. Quem faz a relação ficar bonita é essa descoberta, em que quanto mais fundo se cava, mais beleza se vê, e ninguém se contenta até sair na rua ostentando as cores do que encontrou para chamar de ‘seu’. Na primeira vez que fui para um bar com uma camisa do Vertonghen me senti tão super-herói quanto ele, porque o Tottenham era meu e o Tottenham era lindo.

Enfim, nessa altura da história, o Liverpool já tinha virado enfeite velho. Peter Crouch tinha feito o Tottenham passar mais tempo na TV e, um tempinho depois, Gareth Bale encomendou o conceito do ‘big 6’, facilitando ainda mais que eu acompanhasse como torcedor o dia-a-dia do clube à distância.

Criei um Twitter, a sede por notícias lapidou meu inglês na marra – as janelas de janeiro fizeram mais pelo meu currículo do que qualquer apostila – e daí vão surgindo as gostosas similaridades com a vida de estádio: você conhece pessoas, cria grupos, compartilha histórias, compara opiniões, xinga jogadores, xinga técnicos, xinga árbitros. E com isso o amor entra no piloto automático.

Sempre digo que torcer é um ato de pura identidade. Você precisa se enxergar de alguma forma no time que você torce, seja pelos valores, pelo jeito, pela história, pelo status. Aí, como eu disse, essa minha história se entrelaça com o Palmeiras, e por um punhado de motivos identitários (o clube mudou drasticamente na última meia década, você deve saber), hoje eu não o acompanho mais.

Já o Tottenham tem muito de mim, e eu passei a ter muito do Tottenham. Conhecer o White Hart Lane (semanas) antes da demolição, então, foi para estreitar o laço até o fim da vida.

O Tottenham ainda é meu e o Tottenham ainda é lindo.

por Pedro Reinert

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