“Por que eu virei torcedor do… Aston Villa”

Conheça a série especial da PL Brasil sobre a paixão dos torcedores pelos times ingleses

torcedor Aston Villa
Clive Mason/Getty Images

Vivendo a algumas centenas de quilômetros do meu pai desde cedo na infância, nossos finais de semana juntos, a cada duas semanas, eram sempre especiais. E como herdei dele a paixão pelo futebol, acompanhar a Premier League ao seu lado, aos sábados e domingos, era uma espécie de tradição sagrada. Quantas manhãs e tardes se deram ligadas nos canais ESPN.

E nosso gosto sempre foi pelo futebol inglês como um todo. Fosse do Liverpool, fosse do Blackpool, assistir a qualquer partida da PL tinha, para nós, um sabor extraordinário. Isso porque meu pai, corintiano fanático, nunca teve um time na Inglaterra. E eu, seguindo seus passos, também não. Pelo menos foi assim até 2014.

Logo após a Copa do Mundo sediada no Brasil, tive a oportunidade de passar uma semana em Londres. Sendo julho, infelizmente não poderia viver o sonho de estar em uma partida de Premier League, mas isso não me impediria de ir aos estádios, ver de perto os tabloides ingleses, adquirir souvenirs dos times e, é claro, comprar uma camisa em solo inglês.

Em certo dia, sem nem perceber, acabei em uma loja gigante de esportes, daquelas de muitos andares, que parecem de filmes. E foi mesmo como se eu estivesse em um: encantado, lá me perdi por horas e horas, até encontrar o que eu nem sabia que procurava. Nos corredores abarrotados de uniformes, eu encontrei, aparentemente ao acaso, meu time na Inglaterra.

Foi na terra de Arsenal e Chelsea que eu comecei a conhecer melhor um outro gigante, de 200 km dali, em Birmingham – cidade que eu, à época, completamente desconhecia. Sim, eu decidi comprar uma camisa do Aston Villa. Era o uniforme da temporada 2014/2015, vinho com finas listras azuis, que depois eu viria a chamar de claret and blue.

camisa Aston Villa
A minha primeira camisa do Aston Villa, hoje já bastante calejada, da temporada 2014/2015

O motivo da escolha? Acho que nada muito lógico. Simplesmente foi a camisa que me conquistou ali naquele momento. Dentre tantas exibidas na loja, sem dúvidas foi a que mais chamou minha atenção, ainda que sem razão aparente – ou por alguma que até hoje me foge. Mas talvez tenham me cativado, além do charme de um clube tão tradicional, o belo escudo e os detalhes da camisa, que atrás estampa o ano de fundação, 1874.

Voltando de viagem, quando questionado por amigos – em as maioria fãs de Manchester United, Liverpool e Chelsea – sobre qual camisa eu tinha enfim comprado, minha resposta não demorava a causar estranhamento e mais, até certa revolta. Afinal, o Aston Villa não tinha qualquer prestígio com os brasileiros, que ainda começavam a se voltar mais ao futebol inglês. Tanto é que sou indagado, até hoje, se o time não é londrino.

Desse modo, quase que impulsionado pelo desconhecimento de muitos em relação aos Villans, eu me apeguei profundamente ao clube. Rapidamente se transformou em paixão a indignação em perceber que as pessoas não sabiam se tratar um dos clubes mais tradicionais da Inglaterra – e um dos cinco únicos do país a vencer a Champions League.

Contudo, minha obsessão pela história do Aston Villa não o foi único fator que me levou a realmente torcer para o clube lá em 2014. Quando cheguei de Londres – uma semana antes de minha camisa do Villa, extraviada para o Japão – eu de fato já me prontifiquei a acompanhar o time, mas o videogame também teve papel importante para que eu me aproximasse tanto.

Assim que lançado o FIFA 15, iniciei um modo carreira com a equipe. E, apesar de pouco brilho, era pra mim muito fácil me empolgar com aquele elenco, repleto de jogadores renomados – ainda que alternativos, o que, na verdade, me empolgava ainda mais – do futebol mundial, alguns dos quais eu assistira atentamente, semanas antes, na televisão.

Ron Vlaar, Tom Cleverley e Carlos Sánchez (Michael Regan/Getty Images)

Na zaga, dois nomes que tinham disputado a Copa do Mundo no Brasil: o holandês Ron Vlaar, que jogara todos os minutos do torneio, e o suíço Philip Senderos, titular contra a França. Além deles, a defesa ainda contava com Brad Guzan, então reserva de Tim Howard nos EUA. Já o meio do time tinha Carlos Sánchez, destaque na surpreendente seleção colombiana.

Somando-se a esses nomes, estavam no plantel dos Villans os conhecidos Joe Cole e Tom Cleverley, ambos ex-jogadores da seleção da Inglaterra, além do belga Christian Benteke, ídolo do Villa que ficara de fora da Copa em virtude de lesão e cujo brilho o levaria ao Liverpool no ano seguinte. Para um fã de futebol em geral, era um prato cheio.

Mas meu primeiro herói do clube, tanto na Premier League quanto no videogame, foi outro, um dos maiores nomes da história do time, Gabriel Agbonlahor. Já meu xodó, se no FIFA se tornou o franzino Jack Grealish – após brilhar contra o Liverpool na FA Cup daquele ano – nos campos seria o espanhol Carles Gil, chegado ao Villa no início de 2015.

Contudo, eu me encantei pelo Aston Villa em uma péssima fase, bastante distante da glória de sua história, ou mesmo do bom momento nas primeiras edições de Premier League. Depois de uma fraquíssima temporada em 2014/2015, o rebaixamento não tardou e veio logo na edição seguinte, de campanha vexatória. Para qualquer torcedor isso é, inevitavelmente, um grande baque.

Acompanhar o Aston Villa na Championship não foi fácil, para não dizer desanimador. Por outro lado, a heroica volta do clube à elite, bem como a promissora temporada atual, trazem esperanças de tempos melhores. A mim, resta apenas ficar na torcida, sempre vestindo minha camisa da sorte, cujo primeiro feito improvável foi me levar ao clube, lá em 2014.

Quanto ao meu pai, se continua sem um clube favorito na Premier League, por outro lado parece simpatizar com minha escolha. É bem verdade que, ainda mais em tempos de pandemia, não assistimos jogos juntos há um tempo. Mas, em nossas conversas, sempre colocamos em dias nossas impressões sobre a PL e, porque não, sobre o nosso Aston Villa.