Por que os donos do Liverpool querem comprar mais um clube e olham até para o Brasil

9 minutos de leitura

A saída do treinador Jürgen Klopp e a volta de Michael Edwards, contratado pela Fenway Sports Group (FSG) para ser CEO de futebol, representarão o início de uma nova era no Liverpool. E deve trazer mudanças relevantes na estratégia global dos executivos do clube.

O “The Athletic” fez uma matéria nesta semana para falar sobre os planos de FSG e Edwards de investir num clube parceiro. “O modelo de multi-club ownership está chegando em Anfield“, diz o jornal britânico, fazendo referência à tática adotada por conglomerados que são donos de mais um clube pelo mundo, como o Grupo City ou a Eagle Football Holding.

— O antigo executivo assumirá uma ampla gama de responsabilidades, incluindo liderar esforços para identificar e recrutar novos líderes para a operação de futebol do Liverpool FC e apoiar o crescimento da FSG no futebol global através de investimentos e aquisições adicionais — adiantou o comunicado da volta de Edwards.

O “gênio das contratações” volta ao clube onde trabalhou de 2016 a 2021, mas a ideia agora é que ele tenha uma atuação mais extensa em todo o grupo. A FSG, que controla o Liverpool desde 2010, nunca investiu em outra entidade de futebol — embora também seja dona do time de beisebol Boston Red Sox.

Por que o Liverpool quer ‘imitar' o City?

A decisão de investir em mais clubes vem da necessidade de continuar competitivos no futebol inglês, segundo a própria administração do Liverpool.

É uma decisão que, de fato, está alinhada com o que acontece de melhor no futebol inglês. Mais da metade dos clubes da Premier League tem relação com outras agremiações europeias, incluindo City e Chelsea. A tendência aumentou nos últimos 12 meses.

O futebol global mudou imensamente nos últimos anos, criando desafios cada vez mais sofisticados — pontuou Mike Gordon, presidente da FSG, em comunicado recente.

O mesmo The Athletic publicou, em 2021, que a FSG estava cogitando comprar outro clube de futebol para administrar ao lado do Liverpool. No entanto, antes de começar a atual temporada, Billy Hogan, CEO do Liverpool, declarou que o investimento não era mais uma prioridade.

O que mudou foi a volta de Michael Edwards. Parte do processo de convencimento do executivo para retornar a Anfield foi garantir a ele que poderia trabalhar a expansão dos negócios da empresa no futebol.

Não se trata mais de uma decisão estratégica, mas sim essencial“, diz o jornal.

Clubes brasileiros na mira

Na primeira vez que os donos do Liverpool, alguns clubes brasileiros entraram na mira como possíveis parceiros. Cruzeiro, Botafogo, Athletico Paranaense e Internacional foram os citados como candidatos pela reportagem.

Do quarteto, apenas o Inter não tem uma sociedade anônima controlando o seu futebol. O Cruzeiro vendeu a sua SAF para o ex-jogador Ronaldo, que também investiu no Real Valladolid, enquanto o Botafogo tem como acionista majoritário o empresário John Textor, que também controla Lyon e Crystal Palace.

O Athletico aprovou uma SAF, mas ainda não a vendeu para nenhum empresário.

Apesar do interesse, a mesma matéria deixa claro que um investimento no Brasil dificilmente será uma prioridade para a FSG. A ideia dos empresários, ao menos num primeiro momento, deve ser comprar um clube europeu.

Qual tipo de clube interessa à FSG?

Grande o suficiente para competir na elite do seu país, não muito caro e que ofereça a possibilidade de investimento a longo prazo. Esses costumam ser os critérios para um clube ser comprado por investidores da Premier League.

Até o momento, não é sabido se há um país de preferência na Europa.

Chelsea
Ângelo e Andrey Santos, do Chelsea, no Strasbourg (Foto: Icon Sport)

Os prós…

Existem alguns pontos positivos que convencem Edwards e a FSG a adotar essa estratégia enquanto donos do Liverpool. Um dos principais leva em conta que, desde que o Brexit foi aprovado, em 2016, ficou mais difícil que atletas de fora da Inglaterra consigam o visto de trabalho.

Ser proprietário de outro clube europeu é uma forma de contornar essa dificuldade. É a chance de um jogador jovem se adaptar e se desenvolver num ambiente menos concorrido. Não à toa, esse movimento se intensificou tanto nos últimos anos.

Andrey Santos e Ângelo Gabriel foram contratados pelo Chelsea e repassados ao Strasbourg, do mesmo dono, para acumular minutos indisponíveis na Premier League.

Douglas Luiz, que hoje brilha no Aston Villa, não teve espaço no Manchester City quando foi contratado. Coube a ele se desenvolver no espanhol Girona, dos mesmos donos dos Cityzens. Yan Couto e Savinho estão no mesmo caminho.

Além de ajudar o recrutamento, a estratégia ajudaria no desenvolvimento dos próprios jovens do Liverpool. “Há um controle maior da progressão de uma promessa quando você o envia para um clube parceiro, ainda mais se o modelo pede para que os times adotem o mesmo estilo de jogo”, pontua o The Athletic.

Em tempos de rigorosa aplicação do fair play financeiro, desenvolver um jovem é importante até se ele não tiver sequência no time principal, uma vez que pode gerar lucrativas transferências.

… e os contras

Mas, claro, nem tudo são flores. O The Athletic destaca o exemplo do Chelsea com o Strasbourg para alertar os pontos negativos.

O clube satélite francês de Todd Boehly corre risco de rebaixamento na Ligue 1, enquanto seus torcedores questionam o dono sobre o papel do clube no contexto europeu.

John Textor tampouco é muito querido por fãs de Palace e Lyon — fora o Botafogo. A 777 Partners, que tenta comprar o Everton, sofre críticas pela administração em diferentes lugares do mundo. Equilibrar os pratos tem se mostrado uma missão difícil para a popularidade dessas empresas.

Há também o empecilho de ter duas equipes de mesmo dono disputando a mesma competição. Esse último, é verdade, tem sido contornado com a Uefa permitindo recentemente que os times da Red Bull disputem o mesmo torneio. City e Girona também devem obter a permissão na próxima temporada.

Ainda não se sabe, em detalhes, o quão ambicioso será o modelo multi-clube do Liverpool. Um time em cada continente ou apenas um satélite em outro país europeu? As perguntas devem começar a ser respondidas nos próximos meses.

Diogo Magri
Diogo Magri

Jornalista formado pela ECA-USP, campineiro e repórter na PL Brasil. Passagens por EL PAÍS, Revista Veja e Futebol Globo CBN.

Contato: [email protected]