Phil Neville teve sua importância na seleção inglesa feminina, mas era hora do fim

Ex-jogador teve ótimos momentos com as Lionesses, mas o futuro não era promissor

Phil Neville seleção inglesa feminina
Andrew Redington/Getty Images

A Football Association (Federação Inglesa) confirmou que a passagem de Phil Neville pela seleção inglesa feminina tem data para acabar. O treinador irá deixar o comando das Lionesses ao final do vigente contrato, em julho de 2021.

Neville ficaria até 2021 por conta da Eurocopa, marcada para tal ano na Inglaterra. Mas com a pandemia do coronavírus, a Olimpíada foi remarcada para 2021 e a Euro para 2022. Com a Copa do Mundo colada nas duas, em 2023, a FA queria o mesmo treinador para Euro e Copa – assim, ambas as partes optaram pela não renovação.

Com um trabalho que dura desde 2018, Phil chegou trazendo a força do nome que construiu no futebol masculino e teve sim sua importância. Mas o declínio foi evidente, em especial no último ano, e a sua saída acabou se tornando inevitável.

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Começo animador e “quase” na Copa

Neville foi confirmado como novo treinador da seleção feminina em janeiro de 2018. O contrato, como já dito inicialmente, foi assinado até 2021 por conta da Euro em casa. Era a primeira experiência do ex-jogador comandando uma equipe em qualquer categoria.

Seu primeiro torneio foi a SheBelieves Cup, campeonato amistoso que acontece nos Estados Unidos todo ano. A Inglaterra foi a vice-campeã em 2018, atrás dos EUA – perdeu para as estadunidenses, ganhou da França e empatou com a Alemanha.

Depois veio a campanha das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2019. E o resultado foi ótimo para Neville e suas comandadas: em um grupo com País de Gales, Rússia, Bósnia e Herzegovina e Cazaquistão, a classificação foi tranquila. Sete vitórias e um empate, 29 gols marcados e um sofrido em oito jogos, liderança e vaga garantida.

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Catherine Ivill/Getty Images

Antes da Copa, nova edição da SheBelieves Cup, em 2019. E foi nos EUA que as inglesas ganharam sua única taça sob o comando de Phil Neville. Com um empate por 2 a 2 com as mandantes, vitórias sobre Brasil e Japão deram o título às Lionesses.

Então veio a Copa do Mundo, principal competição do ciclo. Chegando como uma das favoritas, a Inglaterra confirmou sua força na fase de grupos. Com vitórias sobre Escócia, Argentina e Japão, emplacou a liderança isolada do grupo D.

Nas oitavas e nas quartas de final, vitórias sem sustos. A Inglaterra passou por Camarões e Noruega, ambos por 3 a 0, e foi à semifinal. Depois da doída eliminação na mesma semi diante do Japão em 2015, o objetivo era enfim chegar à decisão do Mundial.

E naquele que foi o jogo mais importante da passagem de Neville na seleção, as Lionesses quase conseguiram eliminar o aparentemente imbatível Estados Unidos. Mas a derrota por 2 a 1, com a capitã Steph Houghton perdendo um pênalti no segundo tempo, deixou nova marca dolorida nas inglesas. Mais uma vez, ficaram no quase.

Para completar, o resultado em relação a 2015 foi pior: quarto lugar na Copa da França após a derrota na decisão do terceiro lugar para a Suécia.

Queda vertiginosa no desempenho pedia fim da linha

Alex Grimm/Getty Images

Apesar de altos e baixos durante as partidas, a impressão deixada após a Copa do Mundo era de que a Inglaterra se consolidava como uma das seleções mais fortes do planeta. Somando-se isso a uma liga nacional cada vez mais forte, o sarrafo foi bastante elevado.

E o que veio depois disso não correspondeu em nada. Nos nove jogos seguintes ao Mundial, foram três vitórias, um empate e cinco derrotas. Das três vitórias, duas foram contra República Tcheca e Portugal – 29ª e 32ª no ranking da FIFA, respectivamente, enquanto a Inglaterra está bem acima no sexto lugar.

A decepção mais recente foi na SheBelieves Cup de 2020. Defendendo o título, a Inglaterra perdeu para Estados Unidos e Espanha e ganhou no sufoco do Japão. Com três pontos de nove, esteve longe de brigar pelo título e muito abaixo das rivais.

Ao total, foram 35 partidas de Phil Neville comandando a Inglaterra, com 19 vitórias, cinco empates e 11 derrotas. Um aproveitamento de 54% – pior que o de seu antecessor, Mark Sampson, com 64%.

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O que chamou a atenção não foi apenas a queda nos resultados: o desempenho também foi um ponto negativo. Se o time, apesar das vitórias, já não mostrava um futebol tão vistoso até a Copa, isso despencou de vez logo depois.

Questões como a falta de variações táticas e a pouca rodagem no elenco geraram muitas críticas. Pouco a pouco, o time parecia perder a confiança (o baque psicológico da doída derrota na semifinal da Copa também foi bastante notável), e chegou a emendar uma sequência de cinco partidas sem vencer.

Outro ponto criticado era que Neville não reconhecia as péssimas atuações. Um exemplo foi após a vitória sobre Portugal, em outubro de 2019. Depois do triunfo suado e sem inspiração por 1 a 0, o treinador disse na coletiva que “as performances nos dois últimos jogos haviam sido muito boas” – no jogo anterior, perdeu de virada para o Brasil em casa.

Neville defendia abertamente as jogadoras e tentava eximi-las de qualquer culpa na fase ruim, chamando a justificativa das derrotas para si. E isso se refletia no vestiário, que dava apoio ao comandante. Por outro lado, a relação com a imprensa foi se deteriorando pelas críticas.

Apesar de ter dito que entendia a pressão, algumas demonstrações não foram nessa linha. Após a supracitada vitória contra Portugal, ao ser perguntado por uma jornalista sobre o fim da sequência sem vitórias, ele retrucou diretamente dizendo que a profissional (que havia escrito um texto crítico na derrota contra o Brasil) “queria que ele fosse demitido”.

Outra declaração que chamou a atenção foi após o desempenho ruim na já citada SheBelieves Cup desse ano, onde ele disse que deixaria o cargo se não sentisse que estava “suficientemente motivado” para continuar. Apesar disso, segundo relatos da imprensa local, Neville não pensava em deixar o cargo no momento.

Andrew Redington/Getty Images

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Inegavelmente, Phil Neville teve sua importância na seleção inglesa feminina, que é bastante destacada por quem faz parte do futebol feminino na Inglaterra. Ao chegar ao cargo em 2018, trouxe a mídia consigo por conta do seu nome feito no futebol masculino, sendo da famosa Classe de 92 do Manchester United – o que fez mais pessoas prestarem atenção na seleção.

Além disso, trouxe um ar de motivação que era bastante pedido na Inglaterra – ainda mais após a ótima campanha até a semifinal do time masculino na Copa de 2018. Durante todo o Mundial de 2019 as jogadoras ressaltavam a qualidade do time e que poderiam sim ser campeãs mundiais, o que não era muito comum nas Lionesses.

Mas pouco a pouco, Neville foi cavando sua cova. Com a queda nos desempenhos e nos resultados, o treinador parecia técnica e psicologicamente desgastado. Também deve-se lembrar que muitas vitórias, em amistosos ou Eliminatórias, foram contra times mais fracos, o que ajudou a inflar os números. Apesar do apoio da FA, a questão não parecia “se” ele deixaria o cargo, e sim “quando”.

Ademais, pesou a falta de experiência prévia. Ele chegou a ser auxiliar da seleção masculina sub-21, do Manchester United e do Valencia, mas não comandou nenhuma equipe no masculino e no feminino até assumir as Lionesses.

Certamente ele mudou a sua visão sobre o futebol feminino (chegou a fazer comentários sexistas nas redes sociais em 2012, que foram apagados em 2018) com a passagem pela seleção. Mas nitidamente era hora da mudança. A Inglaterra tentou dar o último passo para se consolidar de vez, e Phil Neville não se mostrou apto para tal.

Quem pode substituir Phil Neville na seleção inglesa feminina?

Stacy Revere/Getty Images

Rapidamente começaram a surgir os rumores sobre quem irá Phil Neville no comando da seleção inglesa feminina. Logo de cara, são três os nomes principais.

O primeiro é o de Jill Ellis. A britânica de Portsmouth foi bicampeã da Copa do Mundo pelos EUA em 2015 e 2019, e deixou o cargo após a conquista do ano passado. Muito experiente e acostumada a lidar com grandes elencos, pode ser justamente o que um time novo e em construção precisa.

As outras duas já estão na Inglaterra. Primeiro, Emma Hayes. A técnica do Chelsea, atual líder da Women's Super League e melhor time do país, está na equipe londrina desde 2012 e foi bicampeã da WSL e da FA Women’s Cup. Um nome consolidado localmente, vencedor e especialista na parte tática que pode acrescentar bastante.

Por fim, Casey Stoney. Ela assumiu o Manchester United na temporada 2018/19, a primeira do clube no futebol feminino. A equipe foi campeã da WSL 2, a segunda divisão, e chegou na WSL esperando brigar para não cair.

Mas nas mãos de Stoney, as Red Devils estão no quarto lugar da liga. Promissora, de qualidade e com boa mão para lidar com jogadoras jovens, combina justamente com os atributos das Lionesses.

Os relatos da mídia inglesa falam no desejo por uma treinadora no comando da seleção. Caso isso aconteça, são estes os principais nomes. Cada uma com sua qualidade, experiência e característica, todas têm muito a somar.

Definitivamente, Phil Neville já não podia mais fazer as Lionesses crescerem. E a FA tem boas possibilidades de escolhas em mãos para consolidar a sua seleção de vez.