Ryan Giggs: a carreira e os compromissos da lenda do Manchester United

Craque galês dedicou toda a carreira aos Red Devils

Ryan Giggs: a carreira e os compromissos da lenda do Manchester United

Há muito do que falar sobre Ryan Giggs. Uma carreira de mais de mil jogos, distribuídos em mais de duas décadas de futebol, certamente não pode ser resumida a um aspecto ou outro.

Ryan Giggs: a carreira e os compromissos da lenda do Manchester United

Os diferentes estilos de jogo que aplicou, a longevidade, a lealdade ao seu time, a relação com a sua cidade, com seus companheiros de time, todos esses aspectos são pedaços de tamanhos diferentes dentro do mosaico da vida de Ryan Giggs.

O certo seria não ignorar nenhum, já que podem ser essenciais para entender a vida e o jogo do maior britânico da era Premier League e um dos maiores do Manchester United.

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Um exemplo: como Ryan Giggs imita bem seus companheiros de equipe e colegas de trabalho. Ferguson, Scholes e Neville estão entre seus melhores “trabalhos”. Um sinal de ser não somente um bom conversador, bom de vestiário, mas bom observador. No fim, muito da longa carreira do galês foi observar.

12º homem por quase metade da carreira, pode combinar o hipotético com o empírico ao colocar em prática o que foi teorizado no vestiário e no banco de reservas, sobre o que o futebol deve ser naquele dia.

O resultado, muitas vezes, era a força motriz do famoso Fergie-Time, a frieza combinada com agressividade, e depois inteligência, os requisitos necessários para gols heróicos e/ou históricos. Este último, mais do que todos.

E aquela fria e agressiva arrancada contra o Arsenal, em 1998? Muitos viram o galês como uma espécie de Forrest Gump bretão, que marchava indiscretamente contra a muralha dos canhoneiros.

Mas há esperteza ali. De um jogador fresco, descansado e veloz, partindo para cima de uma marcação cansada, mas que dominava a defesa dos espaços.

Depois de dois, três toques bem direcionados na bola, dois dribles de corpo consecutivos puseram a retaguarda arsenalista para bailar.

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A arte do drible está em desequilibrar o “joão” que ousa estar mais próximo. Em tirar sua atenção, seu foco da bola, e direcioná-lo para o balé de pernas e corpos. Um balé não, um show de magia: desviar o olhar do espectador da verdade.

E a bola é a verdade. É quem dita tudo. Quem a têm – na verdade, quem decide para onde ela vai -, tem o poder.

E girar e contorcer o equilíbrio do adversário a ponto do mesmo sentir-se completamente inapto de participar da deliberação do destino da esférica, é o domínio.

Giggs, sádico, oferecia o doce do espaço para negá-lo instantes depois. Os zagueiros, pobre deles, agachavam e giravam e brecavam, buscando um suspiro de realidade para se agarrar.

E aquela realidade, em que nem a bola, nem o espaço estavam em sua posse, ou ao menos ao toque, os tiravam do tempo presente. E sem tempo, a sensação de prisão prevalece. Deveria?

Olhe lá, se não, é Giggs fazendo um de seus truques de mágica.

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Mas e o chute? Seguro, forte, decidido. Contra David “Ponytail” Seaman – aquele, que tomou o gol do Ronaldinho em 2002 – o melhor goleiro inglês em atividade, o último, se você pensar, melhor goleiro inglês do século XX. Histórico.

O chute é a frieza e agressividade expressos. Um disparo de músculos da perna e também do cérebro. Milhões de neurônios em atividade total para fazer voar os sonhos objetificados numa esfera.

Está tudo unido: a inteligência, a decisão, a observação, a longevidade. Todas as maneiras de que Ryan faz sua arte.

O momento do chute: gol de Giggs empurrou o United rumo ao Treble (Foto: Getty/Irish Mirror)

Diferente de artistas, porém, Giggs negava, assim como o espaço indicado para os zagueiros do Arsenal, a celebridade. Foi protegido por papa Fergie, que rapidamente avistou como as mazelas da fama poderiam afetar seu precioso winger.

Era uma festa – um esquenta, na verdade. Giggs e o “parça” Lee Sharpe se preparavam para a night quando o próprio Alex Ferguson surgiu para atender aos seus. O desespero se instalou rápido, já que aquele não era dia para sair. Restaram a bronca e a resignação.

Àquela altura, o galês dava sinais de deslumbramento, com câmeras e paparazzis começando pegar gosto pelo jovem atleta. A pesada comparação com o George Best, antes dentro de campo, começava a se alinhar fora dele também.

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Os hormônios reprimidos teriam sua vazão, uma hora ou outra, em casos indiscretos, para ficar no eufemismo. Mas talvez esse aspecto não interesse.

Ou talvez interesse, se a oposição entre vida pessoal e profissional ilustrar a total lealdade ao Manchester United. Compromisso certamente nunca foi problema.

Do episódio em diante, Giggsy – seu apelido de vestiário – sossegou e foi sossegado de câmeras, de exposição, da tentação. Melhor para o futebol, que pôde receber a exclusividade da expressão do seu ser.

Correr era como olhar, driblar era como falar, e levar para o fundo, seu destino. O cruzamento para a área era o sexo, talvez? Não, isso tinha bastante dentro e aparentemente fora de casa. Maldade. A parábola da bola era tão sensual, entretanto, quanto as curvas das mulheres de sua vida.

O cabeceio certeiro do centroavante era a consagração ou o destino inevitável da bola? Bom, que a canhotinha do camisa onze era poderosa, era.

Compromisso

São mais de mil jogos e são diversos os aspectos que compõem o seu ser, mas apenas um valor parece guiá-lo, presente em todos os episódios que definiram os rumos de sua carreira e sua vida pessoal.

Da sua família ao seu clube, de seu corpo ao seu jogo, de sua cidade à seu país, o compromisso foi o grande ponto de tensão das ações e relações de Ryan Giggs.

Como objetos de estudo da física quântica, cada comprometimento do galês implicou em um caminho diferente, definidor e definitivo em sua vida, além um universo infinito de possibilidades deixado para trás.

A começar pelo seu nome. Como seria a carreira de Ryan Wilson? Assim seria chamado, não tivesse adotado (e se comprometido com) o sobrenome materno após a separação dos pais.

Giggs nasceu Ryan Joseph Wilson, filho de Lynne Giggs e Danny Wilson, no dia 29 de novembro de 1973, em Cardiff, País de Gales.

Assim se manteve até meados de 1987, quando um doloroso processo de divórcio dos pais culminou no afastamento de Danny da família e na adoção do sobrenome de Lynne por parte de Ryan.

Lynne e Danny (cima), Ryan e Rhodri (baixo): família viveu junta em Manchester por oito anos (Foto: Divulgação/Daily Star)

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À esta altura, já integrava as categorias de base do Manchester City, catapultado pelos tempos no Dean’s Youth FC, um dos times juvenis da cidade.

O jovem foi parar na Terra da Rainha oito anos antes, quando o pai, jogador de rúgbi, foi contratado pelo Swinton, clube da Grande Manchester, região metropolitana da cidade do noroeste inglês.

Nunca saberemos se Ryan Wilson teria uma carreira longeva e bem sucedida, mas o fato é que quando o jogador caiu nas graças de Alex Ferguson, já era sob o nome materno.

O treinador escocês foi a um dos jogos do galês por indicação de Dennis Schofield, diretor do Dean’s Youth e recém-ingresso na rede de olheiros do manager. O encanto se deu ao apito inicial.

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“Ele tinha treze anos e flutuava pelo gramado como um cocker spaniel  perseguindo uma folha ao vento”, disse Ferguson sobre a ocasião, em uma clássica entrevista à BBC.

No dia que completou catorze anos, Ryan, que já era Giggs, assinou seu primeiro contrato com o Manchester United Football Club. Na teoria, uma boa e velha virada de casaca. Na prática, mais um compromisso do jovem atleta. Afinal, era um legítimo Red Devil.

Dos seus seis – quando saiu de Cardiff – a meados dos seus onze anos, quando ingressou na base do City, o pequeno Ryan se entregou à cidade, em especial ao bairro de Trafford.

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Tardes nos arredores de Old Trafford, em dias de jogo ou em dias de treino, faziam parte de sua rotina.

Ao passo que crescia, estreitava as relações que seriam objeto de seus futuros compromissos. Juventude, cidade e clube se misturavam, conectavam e agregavam significado para o jovem galês.

O jovem Giggs comemora a Copa da Liga 1992: jogador é um dos maiores vencedores do futebol mundial (Foto: Bob Thomas/Getty Images)

Tudo faria sentido a partir de 1991, quando Ryan, aos dezessete anos, estreou pelo time principal do Manchester United. Entrou ao final de uma vitória relativamente tranquila sobre o Everton, por 2 a 0.

Aquele seria o primeiro de 963 jogos do galês pelos Red Devils, uma jornada que terminaria 22 anos e 34 títulos depois. Nela, Giggs empilhou conquistas, colecionou recordes e escreveu seu nome na história do futebol britânico e mundial.

Esses números, essa magnitude, no entanto, só puderam ser atingidos a partir de outro compromisso, e um dos mais importantes: com Sir Alex Ferguson.

A fórmula Giggs – Ferguson

Desde o começo, Giggs e Ferguson estabeleceram uma relação próxima, quase parental. Isso se deu não somente pela situação que o jovem galês vivia na época em que se encontraram, mas também pela característica do escocês.

O treinador tinha um olhar bastante atento e zeloso por seus jogadores. Seu cuidado e sua atuação ultrapassavam os limites esportivos e até profissionais, ao ajudar os atletas em questões familiares e pessoais – um dos motivos, inclusive, de ser um dos maiores da história de sua profissão.

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Com Ryan Giggs não era diferente. O que Fergie via nele foi um potencial enorme, claro, mas uma capacidade técnica tão grande que por vezes tirava o seu foco. 

Nos treinos, por exemplo, por vezes descumpria solenemente as instruções do treinador. “Bom, talvez você esteja certo, mas eu queria tentar”, ele dizia ao chefe, este vermelho como um pimentão, de raiva.

“Paizão”, Ferguson deu uma força na carreira de jogador e de treinador de Ryan Giggs(Foto: Alex Livesey/Manchester United/Divulgação)

A cobertura midiática em cima do “novo George Best” certamente não ajudava, quando não piorava, interferindo no seu comportamento extra-campo. O episódio da quase-saída, que já havia sido precedido por uma saída completa mesmo, com direito a fotos em páginas de revista, foi a gota d’água.

A ruptura com a vida de celebridade foi pensada de uma maneira mais protetora do que punitiva. E foi entendida assim.

“Eu era um garoto crescendo em público, era um choque” ele afirmou à BBC, anos depois. “Mas eu percebi que era algo que eu, na verdade, não gostava, então fiz um esforço consciente para sossegar e ser mais discreto”.

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Giggs ganhaa seu primeiro carro, em 1991: deslumbre com a fama foi rapidamente corrigida por Ferguson e sua comissão (Foto: Divulgação/Man Evening News)

O episódio foi um divisor de águas, para ambos técnico e jogador.  Ferguson passou a vislumbrar em Giggs algo além de um atleta, assim como o próprio passou a ter maior clareza nas coisas fora do campo.

Juntos, planejaram uma carreira para o jogador, pensando nos seus treinos, no seu corpo, no seu estilo de jogo e na sua representatividade perante clube e torcida. Do compromisso com o manager, portanto, forjou-se um grande profissional.

 A oportunidade, então, do meia liderar um grupo de jogadores da base recém-promovidos, pensados pelo próprio Ferguson como o futuro do Manchester, era perfeita.

A “classe” de 92

Giggs, Beckham e Neville na Youth FA Cup de 1992: primeiro de muitos títulos dos três (Foto: Divulgação/Man Evening News)

Conta o documentário “Class of 92” (2013), que Beckham, Scholes, Nick Butt e os irmãos Neville – os jovens promovidos em 1992, ou pelo menos os bem sucedidos – viam Giggs como um irmão mais velho.

Além da diferença real de idade, o meia foi de fato um jogador mais pronto, física e psicologicamente, para o profissional. Não à toa, foi promovido um ano antes de seus companheiros.

Se Ryan era um irmão mais velho para os novatos de 92, estes eram uma família para ele. Rostos conhecidos, amigos para compartilhar a nova vida e, de quebra, mudar o seu foco das câmeras para o centro de treinamentos.

O dia a dia com os garotos de Manchester que, como ele, respiravam a cidade por meio de Old Trafford, lhe rendeu, fora o enorme entrosamento, uma nova dinâmica. Combinando-se dentro e fora de campo com seus colegas, crescia.

David Beckham, com sua cadência e seus lançamentos, por exemplo, foi além de um contraponto natural ao ritmo frenético de dribles e arrancadas de Giggs. Ao “assumir” a fama, o inglês deixou o galês livre para desenvolver seu futebol à sua maneira.

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Outro caso é o de Gary Neville, que segurava o piano para Giggs tanto dentro como fora de campo, assumindo um tipo de liderança da qual o camisa onze não era o mais indicado a fazer, com a voz, com cobranças, incentivos.

Ah, e títulos. Com eles, Ryan e o novo Manchester passaram a sentir o gosto do triunfo e da glória. E se acostumaram. Até a transferência de Beckham ao Real Madrid, foram dezoito conquistas – oito só na Premier League – praticamente levantando pelo menos um troféu por temporada, quando não mais.

Em 1998-99, por exemplo, foram quatro: Premier League, Copa da Inglaterra, Champions League e o Intercontinental de Clubes. Foi também a temporada em que aconteceu aquela jogada contra o Arsenal.

https://www.youtube.com/watch?v=uigMSfM-_Mk

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A saída do galã, porém, não alterou a fome por vitórias e Giggs e os remanescentes seguiram vencendo. Premier League, Copa da Inglaterra, Supercopa da Inglaterra, Champions, que seja: os títulos continuaram chegando a Old Trafford.

O mesmo pode ser dito para a saída de Phill Neville, Butt, a aposentadoria de Gary Neville e de Scholes (as duas). Seus companheiros deixavam o campo, mas o camisa onze seguia jogando e seguia se superando.

Às vezes, as glórias eram individuais, com prêmios e recordes e números. Virou o maior assistente da história da Premier League, com 162, assim como o seu 23º maior artilheiro e quem mais tem partidas na competição (635); no Manchester United, é o segundo maior artilheiro, com 157 gols, e quem mais atuou, em 935 partidas.

Tantos títulos e consagrações não vieram por acaso. Ferguson, a “classe de 92”, todos o ajudaram a crescer e juntos encontraram o caminho das vitórias. Mas manter-se no topo foi a custo de muita dedicação e compromisso de sua parte. E de escolhas difíceis.

O preço

“Tapa” do galês em 2010: recuo estratégico garantiu mais uns aninhos de carreira (Foto: Wikimedia/Ytoyoda)

Não há duvidas de que Ryan Giggs é uma das lendas do futebol inglês. Os títulos que conquistou, os números que alcançou, sua própria história longeva num gigante como o Manchester United, cada um destes, sozinhos, já lhe garantiriam o posto.

O galês é facilmente o melhor britânico da era Premier League. Ninguém da ilha teve carreira mais sólida, com mais conquistas e mais bola mesmo, do que ele.

Ainda assim, Giggs nunca parece ter sido “o cara” do time. Cantona, Keane, Cristiano Ronaldo, Rooney, entre outros, ficaram com esse posto. São eles os mencionados na memória coletiva das equipes passadas.

Até porque, bom… Giggs sempre esteve lá, e falar sobre o “United do Giggs” não é exatamente um filtro muito eficiente. Ele deixou, de certa forma, a carreira de estrela de lado para atuar pelo time, acima de tudo.

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Sua posição, por exemplo. Ao invés de se ater a sua especialidade, um winger puro, o homem pela esquerda, se deixou passear pelo meio-campo ao comando de Ferguson e às necessidades do Manchester.

Já foi para a ponta de lança, para abrir o corredor para Cristiano Ronaldo, e para a meia direita, com o pé invertido, para servir à artilharia dos companheiros.

Um posicionamento marcante foi quando jogou de segundo volante, na temporada 2010-11. Era um armador, na verdade, levando a campo a experiência de vinte anos de carreira e todo o calibre de sua perna esquerda.

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Cadência, lançamentos, e por que não, dribles, fizeram o repertório daquele ano, fora a dobradinha com a potência e o ímpeto de um Wayne Rooney jogando de ponta de lança, mas por vezes trocando de posição com o camisa onze.

Essa formação do United só não foi párea para o Barcelona de Guardiola e Messi, para quem foram derrotados na final da Champions League.

O que chamou atenção, além da fácil adaptação ao novo posicionamento, foi o quão longe o meia de 38 anos parecia longe da aposentadoria, que realmente, só viria a acontecer três anos depois.

Parte da explicação para o sucesso físico do vovô-garoto está no seu próprio corpo, dono de um metabolismo acelerado, a outra está no planejamento preciso de, adivinha, Alex Ferguson.

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“Ele (Giggs) estava tendo problemas físicos, e identificamos que ele precisaria de um trabalho diferente, porque não aguentaria todos os jogos. No começo de cada temporada, então, eu me sentava com ele e, com o calendário na mão, escolhíamos os jogos que ele jogaria e os que ficaria de fora”, explica o próprio treinador, no documentário “Life of Ryan: Caretaker Manager” (2014).

Esse rodízio não custou somente minutos em campo e um maior protagonismo dentro da equipe. Na agenda especial de Ryan Giggs, não havia muito espaço para a seleção galesa, especialmente para amistosos, notórios agentes de lesões de atletas.

Quando de fato jogava, as expectativas eram altas, mas o time era fraco. Os inevitáveis fracassos frustraram ainda mais o torcedor galês, que já entortava o nariz para suas recorrentes ausências. As relações entre o jogador e sua seleção são estremecidas até hoje.

Foi o preço a se pagar. Uma carreira longeva e vitoriosa, mas talvez sem o reconhecimento que o seu talento merecia e sem a idolatria de seus conterrâneos, pelo contrário.

O camisa 11 à plenos pulmões em 2009: preparação diferenciada foi o segredo de sua logevidade (Foto: Wikimedia/ Jacoplane)

A lealdade do camisa onze ao seu clube, ao seu treinador, aos seus amigos de campo, sempre foi maior que a fama, que as propostas milionárias, que seu potencial para ser “o cara”. Foi maior até que sua própria memória.

O fim é um novo começo

A sala era aconchegante, mas pequena. Na meia luz do projetor, Giggs, de terno, falava baixo, quase tímido, aos jogadores relacionados para a partida contra o Southampton, válida pela 38ª e última rodada da Premier League 2013/14.

– É… é isso, deem aos torcedores algum motivo para gritar – finalizava o meia, na ocasião o técnico interino.

Com essa fala, Ryan Giggs terminou sua última preleção do seu último jogo a serviço dos Manchester United Football Club.

Naquela temporada, a primeira depois da aposentadoria de Ferguson, as coisas não deram certo. Os Red Devils ficaram sem títulos e sem vaga à Champions League, e ainda demitiram o substituto David Moyes antes do fim da temporada.

Giggs então assumiu como técnico interino nas últimas cinco rodadas, no regime player-manager. O jogador tinha 42 anos e a direção do clube só precisava de alguém para segurar as pontas antes da chegada de Louis Van Gaal, negociada para o início da temporada seguinte.

Nada muito fora do normal, a não ser pela sua repentina aposentadoria e “desligamento” do clube, alguns dias depois da derradeira partida do ano. O galês nem sequer jogou essa partida, que terminou num 1 a 1 sem graça.

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Sua despedida de fato foram vinte minutos contra o Hull City, na 37ª rodada, em que deu uma assistência para Van Persie e teve um gol praticamente certo defendido por Jakupovic, que o impediu de alcançar a marca de pelo menos um gol em vinte e três edições consecutivas da Premier League. Antes o goleiro soubesse…

Dias depois, confirmou os rumores de que aquela teria sido sua última aparição como atleta profissional, e de que faria parte da comissão técnica do Manchester United, como assistente técnico.

Apesar de melancólica, a despedida de Giggs não foi nada além de coerente: uma carreira inteira devota a um clube, finalizada por uma dedicação maior ainda.

Em 2016, deixou o clube para assumir a seleção do País de Gales, como técnico mesmo. Foi o fim de uma parceria de 29 anos com o seu time do coração e o início de mais um compromisso, e, quem sabe, uma redenção.