Paul Gascoigne: as loucuras e vícios de um craque inigualável

Relembramos a carreira de Paul Gascoigne, craque da década de 90

1
431
paul gascoigne

Talvez no futebol mundial nenhum jogador tenha sido tão controverso quanto Paul Gascoigne. Apesar de ser um craque dentro de campo, era uma bomba relógio fora dele. Apelidado de Gazza, sempre teve um gênio forte e um futebol tão espetacular quanto.

Taxado como o “meio-campista com o maior talento natural de sua geração” pelo Museu Nacional do Futebol Inglês, já que era extremamente criativo, técnico e cheio de garra. Juntando força física e talento era capaz de driblar e proteger a bola como poucos.

Apesar das qualidades, costumava ser violento e entrar forte nas divididas, o que deixava seus treinadores receosos ao escalá-lo. Ainda mais, tinha corpo propenso a sérias lesões, característica determinante em sua carreira.

Origens de Paul Gascoigne

Nascido em Gateshead, nordeste da Inglaterra, em 1967, Paul John Gascoigne foi assim batizado em homenagem aos Beatles Paul McCartney e John Lennon. Se tornou jogador do Newcastle aos 13 anos e foi por lá que começou sua carreira profissional.

Vindo de família humilde, viu no talento para o futebol um meio de ajudar seus pais e controlar sua instabilidade emocional. Afinal, na infância, testemunhou a morte do irmão de um amigo num acidente de trânsito.

Nesta mesma época, seu pai começou a ter convulsões e Paul teve que ir à terapia, mas parou após poucas sessões por desconfiança de sua família nos métodos de tratamento da clínica.

O Newcastle já estava em sua vida mesmo antes de começar a jogar pelo time alvinegro. Até porque Paul era torcedor dos Magpies desde pequeno. Depois de comandar o time de base na conquista da FA Youth Cup, foi promovido ao time principal.

Período no Newcastle United

Gascoigne (a esquerda) na base do Newcastle vencendo a FA Cup Youth (Getty Images)

Primeiramente, estreou em 1985, comandado por Jack Charlton (irmão mais velho da lenda Bobby Charlton) contra o Queens Park Rangers. Na época, já mostrava problemas de disciplina, mesmo com apenas 17 anos.

O presidente do Newcastle durante o período que jogou na base, Stan Seymour, o classificou como “George Best sem cérebro”. Título devido a sua técnica e visão de jogo incríveis contrastando com suas atitudes irresponsáveis fora do campo.

Gascoigne ficou no Newcastle por três temporadas e marcou 21 gols em 92 aparições. Na última temporada (1987-88), foi eleito o melhor jogador jovem da competição e escalado no melhor onze da temporada.

Fez parcerias memoráveis em St. James Park com Peter Beardsley, Mirandinha e Michael O'Neill. Assim, seu talento foi observado por ninguém menos que Sir Alex Ferguson, que desejou levá-lo ao Manchester United.

O negócio, mesmo apalavrado, não aconteceu e Gascoigne acabou assinando com o Tottenham por 2,2 milhões de libras, valor recorde na época. Ferguson diria em sua biografia que o acordo só aconteceu porque o Tottenham havia comprado uma casa para seus pais.

Em sua estreia pelos Spurs, enfrentou justamente a sua ex-equipe.

Brilho no Tottenham Hotspur

Em sua primeira temporada em White Hart Lane, Gascoigne formou uma parceria espetacular com Gary Lineker e ajudou o time comandado por Terry Venable a alcançar a sexta posição na primeira divisão inglesa.

Na temporada seguinte, o  time terminou em terceiro. Como resultado, Paul foi eleito “Personalidade Esportiva do Ano” pela BBC e “jogador do ano” do Tottenham.

Após a Copa do Mundo da Itália em 1990, Gazza conquistou seu primeiro troféu como jogador profissional: a Copa da Inglaterra. Anotara um gol de falta histórico contra o Arsenal na semifinal antes de sair machucado no jogo decisivo contra o Nottingham Forest em Wembley.

Esta lesão o tiraria da temporada 91-92 por completo. Logo em seguida na partida, Stuart Pearce marcou o gol do Forest, que tomaria a virada na prorrogação.

paul gascoigne
Gazza em ação pelo Tottenham: foram 19 gols em 92 jogos (Getty Images)

Leia mais: A chave para o Tottenham disputar títulos (dentro e fora da Inglaterra)

Na Lazio, um gol no clássico local

Antes da final, a Lazio tinha chegado a um acerto com o clube londrino e levaria o camisa 8 por 8,5 milhões de libras. Apesar de chegar à cidade eterna uma temporada depois do previsto, foi bem recebido pelos torcedores e seu jogo de estreia contra o Genoa foi transmitido também para a Grã-Bretanha.

Seu rendimento não foi dos melhores, mas seu lugar no coração dos fãs da Lazio foi conquistado após um gol no dérbi de Roma aos 41 do segundo tempo no Stadio Olimpico. Os Biancocelesti terminaram em quinto na Serie A e se classificaram para uma competição europeia após 16 anos.

Dino Zoff assumiu a equipe em 1993-94 e encontrou um Paul Gascoigne completamente fora de forma.

A princípio, a proposta do italiano era que Paul perdesse 13kg até o início da campanha ou não seria titular. Além de cumprir com a perda de peso, Gazza se tornou capitão do time na ausência de Roberto Cravero.

Porém, a passagem teve mais confusão do que bons momentos. Em abril de 94, ele quebrou a perna num treino ao tentar atingir Alessandro Nesta e, durante a recuperação, teve problemas com Zdenek Zeman, que acabava de assumir o time.

No fim da temporada de 95, clube e jogador decidiram encerrar o contrato.

Títulos e provocações no Rangers

Em julho de 1995, assinou contrato com o Rangers por 4,3 milhões de libras e mais uma vez se tornava a transferência mais cara de um clube. Ficou por três temporadas e venceu dois títulos escoceses.

Sua passagem pela Escócia teve momentos espetaculares e um impacto imediato no time. Porém, ao mesmo tempo que marcava gols correndo o campo inteiro, era suspenso por mostrar o cartão amarelo para o árbitro.

Na primeira temporada, foram 19 gols em 42 jogos, contando um hat-trick contra o Aberdeen no jogo do título. Na seguinte, anotou 17 tentos em 34 jogos (0,5 gol por jogo) e fez dois hat-tricks na campanha vitoriosa dos Rangers.

Conquistou o double (campeonato e copa em 97) e uma legião de inimigos. Torcedores do Celtic ficaram furiosos com ele após uma comemoração feita no Old Firm, quando imitou estar tocando uma flauta.

A celebração tem referência à “Ordem Laranja”, ordem religiosa protestante (O Celtic, historicamente, representa a parte católica da Escócia). Por isso, foi ameaçado de morte pelo Exército Republicano Irlandês e levou uma multa de 20 mil libras.

Entretanto, no seu último ano, perdeu o título para o Celtic e não foi eleito o jogador do Campeonato Escocês. Ali começava o declínio.

O polêmico gesto que rendeu até em ameaça de morte (Getty Images)

Fim de carreira

Envolvido com alcoolismo mais do que nunca, Paul sequer terminou a temporada em Glasgow. Assinou pelo Middlesbrough, que disputava a Championship, em março de 1998.

Ajudou no acesso do time a Premier League, mas seu talento não conseguia mais se sobressair à sua vida pessoal turbulenta.

Teve outra chance, talvez a última, no Everton e pouco jogou nas duas temporadas que teve em Goodison Park graças às lesões, má forma física, álcool e drogas.

Terminaria ainda passando por Bunrley, Gansu Tianma e encerrando no Boston United, aos 37 anos.

Seleção inglesa

Na seleção da Inglaterra, foi o principal expoente da década de 1990 junto de Gary Lineker, seu parceiro no Tottenham. Entretanto, já havia sido chamado por Bobby Robson em 1988 para um amistoso contra a Dinamarca.

A Copa do Mundo de 1990 foi seu melhor momento pela Inglaterra, que terminou em 4º lugar no torneio realizado na Itália. Mesmo com a derrota contra a Alemanha Ocidental na semifinal, Gascoigne esteve entre os 11 melhores da competição.

No jogo contra a Alemanha inclusive, chorou ao receber um cartão amarelo que o afastaria da final, caso a Inglaterra vencesse.

Gascoigne às lágrimas após o amarelo que o tiraria da potencial final (Getty Images)

Não conseguiu classificar o time inglês para a Copa seguinte nos EUA, mas foi peça fundamental na Eurocopa de 1996, sediada na Terra da Rainha. Só que mais uma vez a Alemanha entrava em seu caminho.

Os times se enfrentaram novamente na semifinal e, pela segunda vez, a Alemanha passava nos pênaltis. Gascoigne fez o seu, mas Gareth Southgate, atual técnico da seleção, foi quem desperdiçou a cobrança decisiva.

Suas últimas atuações pelo selecionado nacional aconteceram nas Eliminatórias para a Copa de 98 e, mesmo depois de ajudar a equipe na classificação com um empate contra a Itália no Olimpico, ficou de fora da convocação final e nunca mais jogou por seu país.

Vida pessoal e volta por cima

Apesar do talento inato, Gascoigne ficou mais famoso por suas confusões fora de campo. Seu emocional instável sempre foi seu ponto fraco e vícios em bebidas, drogas e apostas não demoraram a aparecer.

Ele via no futebol um escape à realidade, um contraceptivo a seus demônios. E quando parou de jogar, já não conseguia mais se segurar.

“Eu tive que aceitar que era um alcoólatra, era a coisa principal. Eu acho que você tem que fazer isso. Mas eu tento não dizer que sou alcoólatra. Eu prefiro dizer que é uma doença que tenho.”

Ainda como jogador, foi acusado de violência doméstica contra sua esposa, Sheryl, e se divorciou em 1999, após 3 anos de casamento. Em 1998, teve que ser internado em coma alcoólico quando bebeu aproximadamente 32 doses de whisky.

Com a aposentadoria e o futebol fora de sua vida, Paul não parava de cair. Precisou de terapia quando diagnosticado com desordem bipolar e quase chegou à falência em 2008 devido a apostas constantes e sonegação de impostos.

Foi preso várias vezes por conta de agressões, excesso de velocidade e porte de cocaína.

Aliás, chegou a tentar suicídio após overdose em setembro de 2008. As tentativas de se reabilitar estavam se esgotando, já que fora a mais de sete clínicas.

Um atleta cheio de vida, um homem viciado (Getty Images)

Contudo, no meio desse caos, Gascoigne foi considerado herói depois de confrontar assaltantes em sua vizinhança em abril de 2017. Fato ocorrido pouco tempo depois de decidir de vez se livrar dos vícios.

Atualmente, com 51 anos, ele mostra uma nova vida nas redes sociais. As brigas, drogas e bebidas deram lugar ao golfe, a pesca e atividades saudáveis.

Gazza luta para manter a independência química e a redenção, parecendo se renovar como ser humano após a tristeza que foi deixar os campos de futebol.

1 COMENTÁRIO

Comments are closed.