O efeito milagreiro de Sam Allardyce

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Sam Allardyce
TIM KEETON/POOL/AFP via Getty Images

Toda vez que falamos sobre a história da Premier League, nossa mente automaticamente remete a determinadas figuras importantíssimas, como é Sam Allardyce, aquele que muitas vezes é visto como um salvador, por diversos times ingleses. Mas de onde surge essa fama do efeito milagreiro do histórico treinador?

Certamente, os times da Premier League que se encontram em dificuldades na tabela escolhem Sam Allardyce por seu vasto conhecimento sobre o futebol inglês. Ele consegue entender a história e o DNA que formou a terra da Rainha Elizabeth II no país do futebol. Não à toa, dirigiu sete times na PL e nunca foi rebaixado com nenhum deles.

Mas é claro que, hoje, essa opção acontece também por conta do histórico de Big Sam, que começa em 1989, quando ele era jogador, já em fim de carreira, e membro da comissão técnica do West Bromwich. Em 1991, iniciou sua carreira solo como técnico no Limerick FC, time da Irlanda, e a partir daí não parou mais.

O efeito milagreiro de Sam Allardyce

O grande trabalho

A melhor temporada da carreira de Sam Allardyce se deu no Bolton Wanderers, ainda na segunda divisão inglesa, mais precisamente na temporada 1999/2000. Na edição seguinte, Sam levou o Bolton de volta à Premier League, após bater o Preston North End por 3 a 0 nos playoffs.

Na elite do futebol nacional, o Bolton se segurou firme para não cair em suas duas primeiras temporadas, terminando em 16º e 17º respectivamente. Entre 2003 e 2007, o clube viveu seu maior período de sucesso nas últimas três décadas. Big Sam colocou o Bolton para brigar pelas vagas continentais e até conseguiu isso duas vezes.

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Sua passagem pelo histórico clube terminou no dia 29 de abril de 2007, deixando o Bolton no quinto lugar com duas partidas restantes para o fim da Premier League. Comandados pelo auxiliar Sammy Lee nas partidas restantes, o Bolton terminou na sétima colocação. 

Adquirindo conhecimento e rodagem

Se Sam Allardyce não demonstra ser aquele técnico estudioso e que adquire conhecimento teórico, sua busca por conhecimento é prática. Depois da passagem pelo Bolton, ele se tornou o primeiro técnico da era Mike Ashley, no Newcastle United. Sua estadia no St. James Park foi curta, durou apenas sete meses. 

Quase um ano depois de ter deixado os Magpies, um outro tradicional clube inglês contratou os serviços de Allardyce. Nos dois anos que foi comandado por Sam Allardyce, o Blackburn Rovers não correu riscos reais de rebaixamento. Contratado em dezembro de 2008, Sam deixou os Blue & Whites exatamente dois anos depois.

Após quase uma década dirigindo apenas clubes da Premier League, Sam Allardyce optou por dar um passo atrás para dar dois à frente depois. Em junho de 2011 ele chegou ao West Ham, clube que havia sido rebaixado para a Championship na temporada anterior. Os Hammers voltaram à Premier League via playoffs e Sam Allardyce permaneceu no cargo até o fim da temporada 2014/2015.

Richard Heathcote/Getty Images

Inegavelmente essas passagens de Allardyce por esses diferentes clubes do futebol inglês lhe deram um conhecimento profundo sobre o futebol do país. Nesses clubes, trabalhou com diferentes estilos de administração de clubes, como a forte figura de Mike Ashley.

Além disso, Big Sam também presenciou a mudança de perfil da liga e fez parte dessa mudança, principalmente no quesito de observação e contratação de atletas. Esse acompanhamento próximo, muitas vezes imerso na mudança da liga, fez com que o treinador conhecesse o futebol inglês na palma da sua mão, principalmente as equipes de menor poder aquisitivo. 

O primeiro milagre de Big Sam

Foi em 2015 que o efeito milagreiro de Sam Allardyce deu sua primeira cartada, para que ele ficasse conhecido como “aquele que não pode ser rebaixado”. Em outubro, assumiu um precário Sunderland, completamente vazio de ideias e de resultados.

O clube do nordeste inglês se encontrava na 19ª posição com apenas três pontos conquistados em oito jogos. Sam foi o primeiro técnico a dirigir tanto o Newcastle quanto o Sunderland, rivais que fazem o Tyne and Wear derby.

Gareth Copley/Getty Images

Aos poucos, Sam Allardyce conseguia dar sua cara ao time branco e vermelho. Pode não ser o estilo de jogo que você, meu caro leitor, goste. Mas para aquele momento, em meio ao fogo cruzado, era o que se podia fazer.

Um futebol direto, baseado em transições rapidíssimas com poucos toques para chegar ao gol e uma defesa sólida, além de, é claro, um time forte fisicamente, que remetesse aos “duros” ingleses, conhecidos da época do kick and rush. Eram esses os princípios de Big Sam.

O dia do primeiro milagre

Foram essas ideias que permitiram que, na manhã do dia 16 de abril de 2016 o Sunderland se encontrasse há apenas um ponto do 17º colocado Norwich. À tarde, ambos iriam se enfrentar. Com uma grande vitória por 3 a 0 em pleno estádio do rival, o Sunderland saiu da zona do rebaixamento pela primeira vez na temporada – e era a 34ª rodada. 

Para não ser injusto, o Sunderland não passou as outras 33 rodadas anteriores na zona de rebaixamento. Na primeira rodada daquela Premier League, os Black Cats se encontravam na 16ª colocação, com zero pontos, mas fora da zona de rebaixamento pelo saldo de gols.

Mas o fato é que, inesperadamente o Sunderland se salvou da degola naquele ano e ainda se deu ao luxo de se safar com uma rodada de antecedência. Se a alegria pela permanência já era grande, imagina então quando foi decretado o rebaixamento do Newcastle, o principal rival do Sunderland? Era o início do efeito Big Sam.

A passagem de Allardyce pelo Sunderland havia sido emocionante, mas também foi curta. Durou apenas esta única temporada, a do milagre. Ao fim daquela edição da Premier League, Sam Allardyce aceitou o convite da Football Association e se tornou técnico da seleção inglesa.

ANTHONY DEVLIN/AFP via Getty Images

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O segundo milagre, desta vez em Londres

No fim de 2016, a situação pelos lados do Selhurst Park não estavam nada boas. Chegava ao fim a curta era Alan Pardew no comando do Crystal Palace. Com o time há apenas um ponto de entrar na zona de rebaixamento, não bastou alternativas a não ser chamar Big Sam.

Ao contrário do que foi em Sunderland, o Crystal Palace não conseguiu sair da zona de rebaixamento e não voltar mais para lá durante a competição. A equipe oscilou bastante naquela Premier League e só foi engrenar mesmo no último quarto do campeonato, quando, inclusive, venceu o gigante Arsenal por 3 a 0.

Os Eagles ficaram seis rodadas na zona de rebaixamento sob o comando de Sam Allardyce, ainda assim, o técnico parecia bem seguro sobre a permanência. A salvação matemática só veio mesmo na 37ª rodada. No fim das contas, o Palace ainda terminou na segura 14ª colocação, com sete pontos a mais que o primeiro rebaixado Hull City

Sam Allardyce Palace
PAUL ELLIS/AFP via Getty Images

Nesse meio tempo, após deixar o Crystal Palace em maio de 2017, Sam Allardyce deu pistas sobre uma possível aposentadoria, que em novembro daquele ano não se confirmou. Ele assumiria naquele fim de ano o Everton, clube o qual ficou apenas seis meses. 

Mais uma dose do efeito milagreiro de Sam Allardyce?

Uma das críticas mais constantes a Sam Allardyce durante toda sua carreira, e que se intensificaram no período pelo Everton, era em relação ao estilo de jogo direto, conservador ao extremo e sem nenhum brilhantismo. Naquilo que se idealiza de um futebol bonito, Sam não passa nem perto. No entanto, não se pode dizer que é um futebol mal jogado.

Por isso, esse estilo de Sam Allardyce é um motivo que faz diversos clubes que lutam contra o rebaixamento o contratarem. Outro principal motivo é o conhecimento gigantesco que o técnico inglês tem sobre o futebol local. Dos que estão na ativa, talvez apenas Roy Hodgson, de 73 anos, tenha mais conhecimento sobre esse nicho.

Mesmo resultados expressivos, como os empates contra Manchester City e Chelsea, não foram o suficiente para segurar Slaven Bilić no cargo de técnico do West Bromwich. Nas últimas posições da tabela de classificação, a alternativa foi então recorrer ao efeito milagreiro de Sam Allardyce.

O efeito imediato que ainda não perdurou

Assim que chegou, em sua primeira partida, Sam já mostrou o que deve oferecer: solidez defensiva e jogo direto, com enfoque no quinto momento do jogo: a bola parada. Dessa forma, os Baggies seguraram o ímpeto do Liverpool em pleno Anfield Road e conquistaram um valioso ponto.

Por exemplo, neste duelo contra o Liverpool, o West Bromwich teve apenas 18% de posse de bola no primeiro tempo. Outra estatística curiosa é que Jordan Henderson, meio-campo dos Reds, completou duas vezes mais passes que o time inteiro de Big Sam.

Sam Allardyce Liverpool
CLIVE BRUNSKILL/POOL/AFP via Getty Images

Apesar de ter funcionado e muito em sua partida de estreia, a solidez defensiva esperada com a contratação de Sam Allardyce parece ter se perdido em algum lugar. Nos outros dois jogos dos Baggies sob o comando de Allardyce, mesmo jogando em casa o West Bromwich não marcou nenhum gol e sofreu nove: cinco do Leeds e quatro do Arsenal.

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Inegavelmente, Sam Allardyce terá mais um duro trabalho pela frente, com perspectivas bem complicadas. Com 17 jogos disputados, os Baggies estão na 19ª colocação com seis pontos a menos do que o primeiro colocado fora da zona de rebaixamento. Mas se a esperança é a última que morre, com o efeito milagreiro de Sam Allardyce ela pode ficar viva por mais tempo.

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