O caminho do gol: Como os gols são construídos na Premier League?

Confira nossa análise especial sobre os gols marcados na Premier League

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Construção dos gols do Man United na Premier League 19-20

Com a rodada de Boxing Day, a Premier League 2019/20 chegou ao fim do primeiro turno. O Liverpool, recentemente campeão mundial no Catar, é quem lidera o torneio com alguma folga sobre o vice-líder. Ao final da 19ª rodada a média de gols da competição é de 2,82 por jogo, porém mais importante que o número em si, é saber como esses gols são construídos.

É comum que as equipes campeãs ditem as tendências do jogo após títulos. No Brasil, por exemplo, isso aconteceu com o Corinthians de Fábio Carille e alguns times começaram a desenvolver filosofias de jogo baseadas em segurança defensiva e um ataque direto com construções rápidas.

Após dois títulos com o Manchester City, sendo um deles uma campanha absurda em 2017/18 ganhando 100 pontos de 114 possíveis, é natural que o estilo de jogo de Pep Guardiola influencie o futebol na Inglaterra. Mas será que isso realmente aconteceu?

Para compreender melhor as tendências da Premier League na temporada 2019/20, fizemos um banco de dados com todos os gols da atual edição e como eles foram construídos. Contra-ataque, construção paciente, construção rápida, bola parada, enfim. Existem várias formas se chegar ao gol adversário, porém, podemos tirar algumas informações desses números a seguir.

gols construídos na Premier League

A construção rápida

A construção rápida é aquela em que o time trabalha sua posse de bola bem rapidamente, em poucos toques, sempre em progressão, com velocidade, com passes agressivos e quebrando linhas do adversário. O Liverpool e o Chelsea fazem muito bem isso.

Não existe um ideal quando falamos em ideias de futebol, mas esse tipo de construção é algo bem eficiente e que domina os números na Premier League. Trabalhar com velocidade e chegar ao gol adversário em pouco tempo é difícil, mas tem dado certo. Tanto é que o Liverpool, atual campeão da Europa, construiu 28,9% de seus gols assim nesta Premier League.

gols construídos na Premier League

Aliás, outra marca desse Liverpool e que também “conversa com a construção rápida” é o contra-ataque. São cinco gols marcados assim. A priori parece um número um pouco baixo, são 13,3% do total, mas isso se torna algo expressivo se levarmos em consideração que a média de posse de bola da equipe é de 57% durante os jogos. Ou seja, o Liverpool fica mais com bola que o adversário, logo, não tem tantas chances de roubar a bola e partir para o contra-ataque.

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A construção paciente

Pep Guardiola diz que prefere dominar o jogo por meio do controle da bola. Para ele, tê-la é a forma mais segura de se defender. E então quando atacar, ter paciência para encontrar os espaços. “Eu odeio o tique-taca. Isso é passar a bola por passar. Em todos os esportes de equipe, o segredo é sobrecarregar um dos lados do campo para confundir o adversário. Concentrar o jogo de um lado para que o rival deixa o outro livre. Por isso precisamos passar a bola, sim, mas com intenção”. Disse Pep em “Guardiola Confidencial”, livro de Martí Perarnau.

Implantar sua filosofia foi um dos desafios que Pep enfrentou quando chegou em Manchester no ano de 2016. A Inglaterra sempre foi conhecida por ter um futebol muito veloz, de muito jogo direto e pouca retenção de posse de bola. Mas após três temporadas, parece que seu time conseguiu absorver o que o técnico acredita e também influenciar algumas outras equipes da liga.

O Manchester City é o maior expoente da construção paciente na liga, tendo em média 60,9% de posse por jogo. Esse é aquele tipo de ataque em que a defesa adversária já está postada, defendendo sua área, enquanto o time que ataca vai trabalhando a bola, triangulando, invertendo o lado, até achar alguma brecha. Sendo o atual bicampeão, é natural que o City enfrentasse muitas equipes fechadas e com propostas muito defensivas.

gols construídos na Premier League

Mais da metade dos gols construídos do City na Premier League são provenientes de construções deste tipo. Isso sem contar os casos em que o gol sai de uma bola parada gerada por um ataque assim. Outros destaques são o Brighton, do técnico Graham Potter, que produziu mais de 20% dos seus gols assim. E o Leicester, de Brendan Rodgers, que marcou 12 gols, ou seja, 29,3% dos seus tentos construindo o seu ataque desta forma.

O contra-ataque

Defender em seu campo para roubar a bola e sair em velocidade nem sempre é uma arma apenas de equipes modestas. Grandes times, como os já citados Liverpool e Leicester, utilizam deste recurso para produzir chances e gols. Mas nesta edição da Premier League, quem mais faz isso é o Manchester United, com 26,7% dos seus gols.

Diferente dos dois casos citados, os Red Devils passam por um momento turbulento em campo e sem conseguir ter boas atuações quando tem a posse sobre seu controle, mesmo tendo uma média de 53% por jogo, o contra-ataque é a melhor válvula de escape do time. Esse tipo de construção é ainda mais potencializada pelo talento e forma recente de Marcus Rashford.

O atacante inglês vive um bom momento, adora esse tipo de jogada, e como ele é a principal arma ofensiva do Manchester United, é natural que a maioria dos gols da equipe saia assim.

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A bola parada

Independente do país local, os gols de bola parada sempre têm porcentagem significativa no campeonato. E na Premier League isso não é diferente. São 22,3% dos gols anotados desse jeito, em especial, vindo de escanteio.

O atual líder, Liverpool, utiliza muito bem a bola parada à seu favor: foram 11 gols construídos no primeiro turno da Premier League assim. Inclusive, alguns deste sendo os da vitória, como os gols de pênalti contra Leicester e Tottenham, e após cobrança de escanteio contra o Aston Villa.

Em uma outra realidade, que já foi citada acima, o Manchester United usa a bola parada como uma arma no seu contexto de pouca criação ofensiva. Ao todo 23% dos gols dos Red Devils saem assim, com destaque para os gols de pênalti de Rashford, quatro no total. Ou seja, a bola parada é algo útil para todo tipo de equipe.

As jogadas ensaiadas vindas de bolas paradas são uma boa opção também. Ao total foram seis gols assim. E com destaque para o Wolves, que construiu gols desta forma em duas vitórias seguidas, na rodada 12 e 13, por exemplo.

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Outros tipos de construção

Fora os quatro tipos mais comuns na Premier League já citados, existem outros tipos de construção que, apesar de representar um número bem menor, também merecem atenção.
Muitos treinadores exigem atenção na hora de disputar a 2ª bola, aquela que sobra após a disputa pelo alto ou rebatida da defesa. A preocupação é legitimada quando notamos que quase 8% dos gols saem assim, normalmente após algum cruzamento cortada pela zaga que sobra na entrada da área.

Gols originados de roubadas de bola no campo de ataque não são tão altos, apenas 3,8%. O que mostra a qualidade e os cuidados com a posse de bola que as equipes têm, se caso estas optem por sair jogando curto. Isso também é refletido na porcentagem de gols gerados após erros na saída de bola, 2,6%. De um modo geral, ou as equipes saem por bola longa pelo alto, ou são bem treinadas para sair curto.

Aliás, o lançamento longo é uma das armas utilizadas na Premier League (3,2%). É aquele passe dos zagueiros ou goleiro do campo de defesa direto para a corrida do atacante. Como o gol de Neal Maupay contra o Wolves na 16ª rodada.

Uma liga plural

Estes números são reflexo de uma liga com algumas tendências, como a construção paciente encabeçada pelo City, porém com muita pluralidade de ideias. Afinal, são oito nacionalidades diferentes entre os técnicos atuais na Premier League (fora Mauricio Pochettino, argentino, recém-demitido do Tottenham).

Esse levantamento dos gols construídos na Premier League também ajuda a identificarmos as preferências e momentos de cada time. Como o Brighton, por exemplo, que mudou sua filosofia de jogo após a contratação de Graham Potter e agora constrói mais gols por meio de toques curtos e construção paciente.

O Liverpool que espelha o futebol rock n’ roll de Klopp em gols de construção rápida e contra-ataque. E o Manchester United, que marca poucos gols em construções pacientes (13,3%) e mais em contra-ataques ou bolas paradas.

Existe espaço para todo tipo de futebol na Premier League. Não à toa, ostenta a fama de melhor liga do mundo.

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