A demora do novo estádio e o baixo público do Tottenham em Wembley

Nova casa dos Spurs sofre com adiamentos de inauguração e queda de público em Wembley é visível

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A demora do novo estádio e o baixo público do Tottenham em Wembley
(Foto destacada: Getty Images)

Uma das principais novelas da temporada no futebol inglês não se refere a jogadores, técnicos ou desempenhos dentro de campo. Terceiro colocado na Premier League, o Tottenham passa por uma situação incomum no país: a de estar jogando “sem casa”.

Em 14 de maio de 2017, na antepenúltima rodada da Premier League 2016/17, os Spurs bateram o Manchester United por 2 a 1 no White Hart Lane. Aquele viria a ser o último jogo no antigo estádio do clube.

Já se sabia que, na temporada seguinte, os londrinos jogariam em Wembley enquanto o velho WHL seria demolido e reconstruído. Assim durante a época 2017/18, Wembley estreou na Premier League e sediou os jogos do Tottenham.

Sempre com casa cheia, público pulsante e um clima diferenciado por conta da novidade, o maior palco do futebol inglês rapidamente virou um grande trunfo dos Lilywhites. Porém, a temporada 2018/19 chegou e a situação mudou radicalmente.

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A expectativa era que o novo estádio seria inaugurado no dia 15 de setembro de 2018, contra o Liverpool. O tempo foi passando, a temporada 2018/19 vai avançando e até agora nada da arena ficar concluída.

Com isso, o Tottenham teve que voltar a Wembley para jogar a atual temporada, enquanto seu estádio não tem as obras terminadas. E isso vem gerando algo incomum no futebol inglês: públicos baixíssimos nos jogos como mandante.

A torcida está insatisfeita, a diretoria vem dando explicações constantes e os prazos de inauguração são frequentemente adiados.

Não há expectativa certa de quando a nova casa será inaugurada e o Tottenham terá que esperar e lidar com o atual fato.

Baixos públicos em Wembley

Com a limitação de público imposta pela FA ao Tottenham em Wembley, cenas como a do anel superior vazio tornaram-se comuns (Foto: Reprodução/Burnley FC)

Com a chegada a Wembley na temporada passada, a torcida do Tottenham estava muito empolgada. O futuro parecia brilhante, com um ano jogando no maior estádio do país e, a partir daí, indo para a nova e moderna casa.

Dentro da casa provisória, o Tottenham atingiu os maiores públicos da história da Premier League (83.222 pessoas contra o Arsenal) e do futebol inglês (85.512, na Champions League 2016/17 contra o Bayer Leverkusen) e criou uma grande atmosfera.

Porém, 2018/19 chegou e o novo estádio começou a atrasar. O hiato que hoje já dura dezenove meses desde o último jogo no antigo White Hart Lane irritou os fãs, que cada vez menos estão indo à Wembley.

Até agora foram nove jogos em Wembley pela Premier League. Destes, exceto contra o Liverpool (com 80.188 pessoas), nenhum bateu a casa dos 60 mil ocupantes. O público mais alto destes foi contra o Fulham, ainda em agosto de 2018 – 58.297 torcedores.

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O mais baixo foi em dezembro, contra o Southampton: assustadores 33.012 torcedores. A média de público do Tottenham pela Premier League em 2018/19 é de 51.137 pessoas, enquanto seu atual campo tem espaço para 90 mil lugares.

Ou seja, mesmo com a sétima maior média de público desta PL, a porcentagem de ocupação atual dos Spurs como mandante na liga é de 56,8%, a menor entre os 20 participantes. Para se ter uma ideia, a segunda menor é a do Southampton no St. Mary’s Stadium: 92,1%.

Os constantes adiamentos e a falta de certeza sobre a nova data influenciam diretamente nesse número. Obviamente é difícil lotar com 90 mil pessoas todo jogo, mas ainda assim a atual taxa é decepcionante.

No jogo contra o Man City, o péssimo estado do gramado pós-NFL chamou a atenção do mundo (Foto: Reprodução/Premier League)

Outro problema que gerou muitas críticas foi a divisão de jogos com a NFL. Em outubro, a liga de futebol americano dos EUA realizou três partidas em Wembley, como de costume há algumas temporadas. Os jogos foram nos domingos de 14, 21 e 28 de outubro.

Na segunda-feira seguinte, 29, o local recebeu Tottenham x Manchester City pela PL. O estado crítico do gramado chamou muito a atenção e foi mais um alvo de contestações. A NFL, inclusive, já tem acordo para sediar partidas no novo estádio dos Spurs.

Para completar, já não bastando a decepção do público, a FA mudou o acordo com o Tottenham. Inicialmente o clube poderia jogar até o fim de 2018 em Wembley; agora pode continuar por tempo indeterminado no estádio, mas com capacidade máxima de 51 mil pessoas.

Há negociações para que esse número mude para 62 mil pessoas, mas nada confirmado. Tudo isso acabou afastando de forma definitiva a torcida Lilywhite do estádio e gerou cenas inusitadas de setores totalmente vazios nos jogos em casa.

Novo estádio só atrasa e custo da construção dispara

Como dito anteriormente, a previsão inicial era que o Tottenham estreasse o novo estádio contra o Liverpool, em setembro do ano passado. Porém, o jogo da quinta rodada (vencido pelos Reds por 2 a 1) aconteceu em Wembley.

Foi apenas o primeiro dos adiamentos. Vários boatos surgiram de que a abertura poderia acontecer contra o Manchester City em outubro, o que não se concretizou. Também foi cogitada a estreia contra o Burnley em dezembro, mas nada feito.

No fim de outubro, foi confirmado que o Tottenham jogaria todo o fim de 2018 em Wembley, sem data ainda confirmada para abertura do novo estádio. A expectativa era que isso pudesse acontecer contra o Manchester United, no próximo dia 13 de janeiro.

O novo e moderníssimo White Hart Lane promete ser um marco para os Spurs (Foto: Reprodução/Tottenham Hotspur FC)

Mas a ideia não saiu do papel e o evento foi novamente adiado. A esperança era que a nova casa recebesse seu primeiro jogo em 2 de fevereiro, na partida entre Tottenham e Newcastle, o que também não deu certo.

No último dia 9 de janeiro, segundo o presidente do Tottenham, Daniel Levy, o clube não conseguiria realizar jogos no novo estádio no mínimo até o fim de fevereiro. Com isso, também foi quebrada a expectativa de receber o próximo mata-mata da Champions League.

Os fãs torciam para que a arena fosse concluída a tempo das oitavas de final da UCL. Mas o Tottenham terá que enfrentar o Borussia Dortmund na partida de ida, em 13 de fevereiro, jogando em Wembley.

Outro problema além dos adiamentos é o custo. A projeção inicial do Tottenham era de uma construção que gerasse gastos em torno de £450 milhões. Porém, o tempo foi passando e esse número só aumentou.

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Segundo a imprensa inglesa, os valores passaram para £750 milhões, e agora chegam a £850 milhões. Além disso, também aumentou a quantidade de empréstimos que os Spurs precisaram fazer para bancar alguns gastos extras.

Com isso, de acordo com os jornais do país, isso representaria uma necessidade de economia por parte do clube, que pode vir em situações como vendas de jogadores ou menos gastos em janelas de transferências.

É uma situação parecida com a que passou seu grande rival: depois da inauguração do Emirates Stadium em 2006, o Arsenal passou um bom período de “vacas magras”, sem poder fazer grandes contratações, justamente pelo gasto com o sucessor do Highbury.

O treinador Mauricio Pochettino comentou sobre o assunto de forma clara em abril do ano passado: “A ida para o novo estádio não vai de repente mudar tudo e milhões de libras cairão do céu. Você tem que se controlar e saber quais são as expectativas. Será importante rever e acertar os princípios novamente, como será o time assim que nos mudarmos”.

As obras do novo estádio ficaram cada vez mais caras, o que pode ser um problema futuro (Foto: Reprodução/Tottenham Hotspur FC)

Futuro e perspectivas

Ainda há todo um processo para que o Tottenham possa enfim começar a jogar em seu novo estádio. E como em qualquer nova arena esportiva, não é tão fácil quanto parece para o grande público.

O estádio precisa de certificados de segurança do Haringey Council, autoridade que comanda o distrito de Haringey – região de Londres onde ele fica. Para isso, primeiramente é necessário que seja feito um manual de operações sobre o assunto.

Este manual é um documento que contém os planos de posicionamento e movimentação dos stewards, estrutura médica, detalhes de equipamento de segurança, planos de contingência, métodos de garantia de segurança, etc.

Depois do envio desse documento, o Tottenham precisa organizar dois eventos testes para receber os certificados. Ambos devem ter a ocupação próxima do total de 62.062 pessoas para que o conselho aprove as condições.

Um pequeno evento para seis mil torcedores foi organizado no novo estádio, mas não foi computado como evento-teste (Foto: Reprodução/BBC)

Os Spurs tentaram organizar os testes no Natal, mas pela divisão do contingente policial em outros eventos da cidade, o pedido foi negado. Eles também precisam testar situações de total perda de energia (o “black building test”) e a comunicação entre os setores da arena.

Depois disso, o certificado de segurança é emitido em uma semana. Porém, tudo isso só acontece quando a estrutura estiver totalmente pronta, os sistemas estiverem 100% testados e o manual de operações esteja entregue – sem exceções, nesta ordem.

O Haringey Council falou oficialmente à Sky Sports em dezembro sobre o assunto: “Veremos todos os aspectos do estádio, como é gerido, como os sistemas de incêndio, energia, luzes de emergência, câmeras e saídas de emergência funcionam, e como se relacionam”.

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Em dezembro o Tottenham chegou a organizar um evento para 6.000 torcedores de “familiarização” ao estádio, mas ele não seguiu os critérios de um evento-teste oficial. Apesar disso, já deu ao clube algumas impressões iniciais sobre alguns procedimentos.

Com isso, a liberação completa pode demorar. Como dito anteriormente, o anúncio oficial mais recente é que o Tottenham só receberá jogos no estádio pelo menos em março. O primeiro jogo do mês é o North London Derby contra o Arsenal, no dia 2.

A mais recente polêmica é do fim de 2018. Em dezembro, o Observer, jornal associado ao The Guardian, revelou que dirigentes do Tottenham questionaram a região em volta do estádio.

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Segundo eles, as ruas na área eram muito sujas e precisariam de limpeza não só permanente, mas também entre os jogos.

Além disso, de acordo com as mesmas pessoas do clube, essa limpeza deveria ter custo bancado pela administração pública. Obviamente isso acabou irritando moradores da área, que segundo a imprensa inglesa, não ficaram nada satisfeitos com as críticas.

O bairro de Tottenham, onde está o clube, fica no distrito de Haringey, no norte de Londres (Foto: Reprodução/Tottenham Hotspur FC)

No começo de 2019, o experiente técnico do Cardiff City, Neil Warnock, opinou que o Tottenham deveria terminar a temporada em Wembley. “Não deveria haver qualquer chance de vantagem aos nossos oponentes, isso não é culpa nossa”, afirmou.

O dono dos Spurs, Daniel Levy, se desculpou publicamente no último adiamento. “Eu gostaria de pedir desculpas aos fãs e agradecer pela contínua paciência. Vamos agora estudar os calendários de obras e testes e dar informações futuras nas próximas semanas”, afirmou.

Já Mauricio Pochettino diz que compreende a torcida por conta da espera e das dificuldades em alguns jogos para chegar a Wembley. O técnico argentino também expressou publicamente o desejo de que a mudança ocorra o mais rápido possível.

“Quando me perguntam se quero a mudança durante a temporada, digo ‘claro que sim’. Será um grande incentivo para todos. Vai ser um lugar onde os fãs podem ajudar a equipe a atingir o que queremos. por isso, não tenho dúvidas. Estou feliz em Wembley, mas se o novo estádio estiver pronto, vamos para lá e faREMOS dele nossa casa” – Mauricio Pochettino.

A mudança é complicada e os problemas são vários. Mas inegavelmente o Tottenham luta contra o tempo e a inauguração do novo estádio será um excelente e histórico marco para o clube e o futebol inglês. De qualquer forma, esta é uma longa novela que ainda parece estar longe do último capítulo.