Nove clubes da Premier League têm olheiros no Brasil. O que eles fazem e por que estão aqui?

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Em um caderno pequeno, um profissional de scouting de um clube do Big 6 da Premier League escreve as observações que faz com atenção durante uma partida da Copa do Brasil sub-20 de 2023.

Somando os dois times em campo, cerca de cinco atletas concentravam seu interesse. A cada ação de destaque — tanto positiva quanto negativa — havia uma anotação curta e rápida, para que nada passasse despercebido ou se perdesse na memória de um sujeito que observa dezenas de jogos ao longo do mês.

Representação fictícia de um profissional ‘scout' (Arte: Diana Lopes / PL Brasil)

Naquele dia, o profissional estava acompanhado da reportagem da PL Brasil. Nos sentamos na parte superior das arquibancadas de um estádio na zona metropolitana de São Paulo, onde a visão do campo era mais abrangente.

Era um setor mais vazio, com alguns grupos espalhados: familiares, jogadores de categorias inferiores, que prestigiavam seus “veteranos”, e outros scouts.

A cada “colega” que passava, um cumprimento singelo, um aperto de mão… Alguns mais calorosos do que os outros.

Sabe aquele cara que acabou de cumprimentar a gente? Trabalha no… –– e citou um clube da Premier League.

Atualmente, segundo levantamento da PL Brasil, nove times da primeira divisão do Campeonato Inglês contam com scouts dedicados ao futebol brasileiro, sejam vivendo por aqui ou em outro país da América do Sul.

A reportagem entrevistou, acompanhou, se encontrou e se relacionou, ao longo de seis meses, com três deles. Dois brasileiros, um estrangeiro – todos homens e residentes no Brasil.

Alguns detalhes, como nomes, localidades, personagens e alvos de observação, serão omitidos. A política dos clubes ingleses não permite que esses profissionais, cruciais nos bastidores da indústria, concedam entrevistas. Portanto, o ocultamento de determinadas informações foi uma condição aceita para a publicação desta reportagem.

Sobre a função de scout de um clube inglês, este texto busca responder:

  • Que tipo de jogador procuram?
  • Quantos jogos assistem?
  • Como funciona o relacionamento com o clube sediado na Inglaterra?
  • Com o alvo uma vez identificado, como se iniciam as negociações?

Afinal, o que é um scout?

O termo scout é, basicamente, a tradução para o inglês da palavra olheiro, profissão antiga e tradicional em diversos esportes. Em inglês, o verbo “to scout“, por exemplo, significar “observar“. “Scouting“, portanto, é o trabalho de observação feito por esses empregados nesta função.

No entanto, o nível de detalhamento das análises, o material produzido, as zonas de mapeamento, as técnicas e métricas utilizadas por esses profissionais evoluíram com o tempo e ainda mais drasticamente na última década.

Por isso, pode se dizer que o estrangeirismo “scout” passou a ser usado para identificar “olheiros do nosso tempo“, que além de experiência e instinto, abusam da ciência de dados em suas avaliações.

Scout ou analista de desempenho?

Por mais que sejam trabalhos semelhantes e que podem se relacionar no dia a dia de um clube, a as funções de scout e de analistas de desempenho são diferentes — estes, por sua vez, também têm um departamento específico no clube.

A rotina de um scout da Premier League no Brasil

O ritmo de trabalho depende da experiência do profissional e do tamanho da equipe em que ele está inserido. Os olheiros da Premier League sediados no Brasil podem ter que dividir a atenção entre o futebol brasileiro e outros ligas sul-americanas. Esse é o caso de dois dos scouts ouvidos pela PL Brasil.

Esta é a rotina, por exemplo, do scout estrangeiro. Sua rotina envolve viagens: agora, ele está na Venezuela para acompanhar a disputa do torneio Pré-Olímpico sul-americano. De grande experiência, ele tem grande autonomia sobre as contratações do clube que parte de dentro de seu raio de observação. A grande maioria passa pelo seu aval.

O profissional que acompanhamos durante um jogo da Copa do Brasil sub-20 do ano passado, por outro lado, cobre apenas o futebol brasileiro. Na observação de uma partida, um dos tópicos de maior atenção é a tomada de decisão do atleta — e o quanto ele pode evoluir neste quesito.

— Está vendo o camisa 8? Ele está na minha observação, mas olha como ele demora para dar prosseguimento à jogada quando recebe. Na Europa, tem que fazer essa ação em uma fração de segundo, não pode pensar muito – analisou.

No caso deste profissional, são cerca de cinco jogos por semana, “in loco” ou de casa, geralmente com vários alvos por partida. Dentro de um relatório padronizado pelo clube, ele descreve:

  • Ações positivas e negativas;
  • Pontos fortes e debilidades;
  • Atitudes comportamentais: como reage a um cartão, se reclama muito com o árbitro, como responde às adversidades.

Quem escolhe os alvos no Brasil?

Os chefes do departamento de análise do clube, os comumente chamados de “head of scouting”, são quem indica os alvos. No entanto, é normal que o analista também sugira nomes.

O profissional do Big 6 acompanhado pela reportagem na partida sub-20 na zona metropolitana de São Paulo, por exemplo, revelou que indicou ao seu departamento um jogador que atualmente está na Inglaterra quando o atleta ainda atuava no futebol brasileiro. A direção acima do scout, porém, não acatou a indicação.

Ângelo é outro jovem que deixou o Brasil (Foto: Icon Sport)

Existem particularidades em cada time, é evidente. Há casos, por exemplo, de grande influência de mega empresários, cujas indicações e poder podem acabar “passando por cima” do trabalho técnico dos scouts – ouviu a PL Brasil.

Como é feita a avaliação para a Premier League?

A Premier League ganhou notoriedade com um campeonato muito intenso, que exige atletas com grande capacidade física. A avaliação dos profissionais, portanto, passa por isso em muitos casos, ainda que haja exemplos de jogadores contrário a essas características que fazem sucesso na liga.

Um exemplo foi a recente apuração da PL Brasil em relação a André, do Fluminense, que apesar da grande capacidade técnica, não tinha o melhor perfil desejado pelo Liverpool. A dificuldade em percorrer grandes distâncias para fazer coberturas longas e a falta de imposição física em duelos, características que afastaram André, por exemplo, são valências valorizadas.

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André com a camisa do Fluminense (Foto: Icon Sport)

É evidente, porém, que a capacidade física não é a única levada em consideração. O profissional com passagem por dois clubes da Premier League revelou à reportagem toda a sua admiração por dois atletas de um grande clube paulista que se destacam pela técnica, versatilidade tática e nada chamam atenção pela velocidade ou fisicalidade.

— O treinador (do clube da Premier League) mostrou como queria que o time jogasse: com um losango no meio e os dois laterais nos meio-espaços como ‘camisas 10'. E ele queria muito levar o (jogador) pra ser esse lateral. Chegou muito perto — contou o olheiro.

Qual a idade que mais atrai os observadores?

E o trabalho de observação das promessas brasileiras vai muito além da Copinha ou dos campeonatos sub-17 e sub-20. Muitas vezes, as jovens estrelas são observadas desde os 14 anos, segundo estes profissionais, “e só termina quando eles se formam completamente”.

Um exemplo revelado à reportagem inclui um brasileiro que está na Premier League atualmente. Ele era observado desde os 15 anos, e o profissional em questão indicou que o clube em que trabalhava na época o contratasse, quando ainda atuava no Brasil.

O clube enviou uma proposta de 16 milhões de euros, que foi recusada. A direção achou que, naquele momento, o jogador ainda não estava pronto para oferecer mais dinheiro, mas o clube seguiu observando. Seis meses depois, quando o observado já estava na Europa, o mesmo clube inglês fez uma proposta de 40 milhões de euros, que também acabou recusada.

— Às vezes, a gente mantém a observação para firmar a segunda transferência do jogador na Europa, para quando ele estiver pronto para o salto ao mais alto nível — explica o scout.

Os ‘problemas' na base do futebol brasileiro

Enquanto a reportagem da PL Brasil assistia à já citada partida Copa do Brasil sub-20, ficou evidente a atenção não só a velocidade ou à força física, mas também à morfologia do atleta em questão:

— Percebe esse jogador? Ombros finos, membros pouco desenvolvidos, isso impacta muito para ver como o jogador vai se desenvolver quando estiver mais velho. Isso tem que ser levado em consideração.

Como exemplo, citou aquele que era um dos seus jogadores preferidos nas categorias de base iniciais. Um meia canhoto, camisa 10 clássico, que “parecia o Messi no sub-13 e sub-15”, mas acabou não atingindo o potencial prometido por conta de fatores que vão da preparação física à genética.

— Ele tem pernas curtas e não tem mais tanta explosão, não consegue sustentar a pressão jogando de costas… E um ponto bem negativo dele é que ele sempre sai de posição pra ir perto da bola ‘desafogar', mostra que não consegue jogar na região do campo que sua posição exige — avaliou o profissional.

Apesar de ser uma das maiores promessas do clube e ter idade suficiente, pouco tem recebido chances no profissional. O olheiro, inclusive, lembrou de um lance em um de seus únicos jogos na equipe principal, em um clássico. Na ocasião, o jovem em questão não recompôs defensivamente, “voltou andando”, e o time sofreu o gol ao fim do lance. Ele não jogou mais entre os profissionais depois daquilo.

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Um franzino Neymar no Santos, em 2011 (Foto: Icon Sport)

Também há, no entanto, a outra faceta do aspecto físico. O olheiro apontou para um jogador que entrou no segundo tempo da partida pela Copa do Brasil sub-20. Ressaltou sua estrutura “com ombros muito largos, parecendo um nadador”. Isso, segundo o analista, pode levá-lo a ter vantagens e desvantagens.

“Jovens da base deveriam tomar suplemento”

Ainda naquele dia, outro ponto de atenção. Um jovem atleta que há pouco tempo subira para o time principal estava nas arquibancadas, acompanhado de seu empresário, torcendo por seus antigos companheiros de sub-20 . Mas em uma das mãos, segurava algo que despertou pequena revolta do scout acompanhado pela reportagem.

Aquele é o (nome do jogador)? O que é aquilo na mão dele, um picolé? Isso é um absurdo. Não consegue jogar 90 minutos e aparece chupando picolé“, protestou.

Incomodado, o scout prosseguiu:

Os jogadores, principalmente os mais jovens, que vêm da base, não têm noção e instrução de uma boa alimentação. Ele é um atleta profissional, não pode aparecer tomando sorvete.

Ele não demorou a desbravar um espaço que sequer existia em seu caderno e, ali, esmagar uma anotação sobre o episódio do picolé. Em seguida, ainda motivado por aquela situação, discorreu sobre a falta de de dedicação à nutrição de jovens jogadores nas categorias de base de clubes brasileiros, de forma geral.

— Pode notar, são sempre quase todos franzinos. Perna fina, pouco desenvolvidos…

Para ele, os clubes deveriam investir em suplementação e um programa de treinos na academia, mas de forma personalizada e acompanhada. São poucas as equipes no futebol brasileiro que têm um acompanhamento profissional e dedicado às categorias inferiores, segundo o scout.

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Antony ainda pelo São Paulo (Foto: Rubens Chiri/São Paulo)

Outro profissional também comentou sobre as questões físicas dos jovens e como isso afeta a avaliação dos clubes de fora. Se o jogador é baixo, de pouca intensidade, não tem o físico privilegiado, “ele tem que ser muito bom”. Ele exagera propositalmente ao citar um jovem destaque do sub-17 — que inclusive tem sido sondado por diversos clubes de fora — como exemplo dessa dualidade.

— O moleque tem '30 quilos', mas ele vai ser um craque absoluto, então isso (físico frágil) acaba passando.

Scouts também entram na fase de negociação?

O trabalho dos scouts vai além de simplesmente observar atletas para seu clube. Também inclui o primeiro contato com os jogadores observados, seus empresários e até mesmo suas famílias. Por isso, como citamos anteriormente, relatórios não são apenas técnicos, e buscam também decifrar o lado humano do atelta.

A personalidade do jogador e o seu “background” também são pontos importantes da análise. Seu temperamento “esquentado” e reclamão, ou omisso em momentos importantes, tem origem no ambiente familiar (ou até na falta dele)? Como foi sua criação? Onde ele cresceu? Quais foram suas experiências fora dos gramados? O trabalho vai longe.

Por isso, eles podem atuar como representantes dos clubes no mercado, apresentado projetos a famílias de jogadores e fazendo contatos com empresários. É por isso que, por vezes, negociações podem começar por esses olheiros.

— Geralmente, a intenção é buscar informações com os agentes sobre o jogador: se é interessante vendê-lo agora, por quanto acham que o clube venderia, quanto ele (empresário) acha um valor justo para o clube (da Premier League) comprar, pretensão salarial, plano de carreira… — detalha um dos scouts do Big 6.

Como é a relação entre os scouts ‘rivais'?

Um destes scouts, mais recluso, revela que seu contato com outros colegas de profissão dos clubes rivais é respeitoso e profissional, e até há uma troca de informações, mas só com um ou outro que é amigo de longa data, que já existe confiança.

Outro disse à reportagem que a relação com outros scouts é muito boa, não tem problema de revelar quem ele está observando, “porque sempre vai chegar alguém oferecendo mais”. No fim, acabam se tornando amigos porque sempre viajam juntos para campeonatos para observar jogadores, então cria-se uma proximidade natural — a exemplo de repórteres de veículos diferentes.

Nos foi revelado que é necessário “muito trabalho de comunicação”, mesmo entre scouts e com empresários. “Tem que conversar para conseguir chegar na frente e ser avisado de outras propostas”, disse um deles.

Deivid Washington chegou recentemente ao Chelsea (Foto: Reprodução/Chelsea)

Enquanto isso, também existem os menos abertos. A reportagem tentou contato com um scout de um clube da parte de cima da tabela da Premier League, mas, apesar de ser respondida, foi limitada a uma recusa, dada a proibição do clube relacionada a estes profissionais de concederem entrevistas.

No fim da partida que prestigiamos com o scout da equipe do Big 6, sequer lembrava o resultado — parecia o menos importante entre tudo o que foi observado e anotado sobre as jovens promessas brasileiras. Cumprimentos de longe aos scouts “rivais” seguiram uma saída antes do apito final, para não pegar trânsito e ter mais tempo para produzir os relatórios detalhados dos seus alvos.

— Agora já vou indo. Chegando em casa tenho que completar esses cinco relatórios e mandar para o clube. Abraços! — se despediu o profissional.

Por que ter um olheiro no Brasil?

O Brasil é o país que mais exporta jogadores de futebol no mundo. Segundo um levantamento do Centro Internacional de Estudos sobre Esportes, o CIES Football Observatory, que analisou o período entre 2017 e 2022, 1.219 brasileiros deixaram o país para seguir a carreira, uma quantidade significativamente maior do que o segundo colocado na lista, a França (978).

A amostra diz que o principal destino dos brasileiros é Portugal, o que faz sentido, dada as próximas relações cultural e linguística entre os países. No entanto, o interesse da Premier League por nossos jogadores nunca foi tão alto.

Casos de sucesso de jovens que chegaram à Inglaterra e tiveram sólidas carreiras no país, como Lucas Leiva, Phillippe Coutinho, Gabriel Jesus e Martinelli, por exemplo, criaram ainda mais raízes entre os dois polos. E cada vez mais clubes da Premier League têm scouts brasileiros — ou estrangeiros residindo no Brasil — , especialmente dedicados ao nosso futebol.


Edição: Diogo Magri, João Vítor Castanheira e Diogo Magri

Guilherme Ramos
Guilherme Ramos

Jornalista pela UNESP. Escrevi um livro sobre tática no futebol e sou repórter da PL Brasil. Já passei por Total Football Analysis, Esporte News Mundo, Jumper Brasil e TechTudo.

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