No Watford, Nigel Pearson persegue mais um milagre na Inglaterra

Técnico inglês iniciou recuperação dos Hornets no Campeonato Inglês

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Clive Brunskill Collection Getty Images Sport
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Dado como morto até a metade de dezembro, quando contava com apenas nove pontos em 16 rodadas, o Watford agora possui esperança e motivos para acreditar em uma vida melhor dentro da Premier League. Nigel Pearson é o homem por trás deste processo de ressurgimento do clube.

A situação já foi bem mais feia. Ainda sob o comando de Quique Sanchez Flores, os Hornets sequer conseguiram vencer em casa pela Premier League. Naquela época, só duas equipes, dentre as 71 das quatro principais divisões do futebol inglês, não haviam triunfado como mandante. Uma delas, melancolicamente, era o Watford.

Mas antes de reviver os Hornets, Sir Elton John e demais torcedores do simpático clube de mesmo nome de sua cidade-sede, Nigel Pearson precisava ressuscitar a própria carreira.

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Richard Heathcote Collection Getty Images Sport
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O experiente treinador, já com seus 56 anos, vivenciava o fracasso no desconhecido OH Leuven, da Bélgica. Acabou demitido. Sem clube, se isolou na Escócia em uma espécie de período sabático forçado. Era fevereiro de 2019. O desemprego assolou a vida de Pearson por quase um ano.

Em entrevista recente para o Guardian, o técnico admitiu que jamais pensou que pudesse assumir uma equipe na Premier League novamente. “Eu estava semi-aposentado, mais ou menos isso”, disse. Desiludido, antes de assumir o Watford, Pearson planejava uma viagem à Índia. Precisou adiar.

 Recomeço

A direção dos Hornets chegou ao limite após mais uma derrota de Sanchez Flores e resolveu apostar em Pearson, que já possuía certa fama de salvador da pátria. Poderia parecer um ato de desespero, principalmente pelo tempo parado do treinador, mas a decisão foi tomada mesmo assim.

Logo de cara, em seus primeiros dias, Nigel Pearson quis conhecer todos os funcionários do Watford. Da turma da cozinha até o roupeiro, não importava. É o jeitão dele, um verdadeiro “manager”, que toma de conta de todas as áreas. Apertando mãos e olhando nos olhos de cada um, o técnico explicou o novo espírito do clube.

Capitão e líder da equipe, Troy Deeney, em entrevista coletiva, resumiu bem o modus operandi de seu novo comandante. “Se você não compra as ideias dele, você está fora. Pela primeira vez em oito anos estou sendo tratado como um verdadeiro homem”, pontuou.

Pearson é retratado pela maioria de seus comandados como um “paizão”. Rígido, mas que compra qualquer briga pelo atleta, desde que ele se comprometa da mesma maneira. É uma troca. “Por qual motivo eu atravessaria uma parede por ele? Porque sei que ele faria o mesmo por mim”, disse um antigo jogador seu.

Catherine Ivill Collection Getty Images Sport
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Com o emocional e a confiança dos jogadores sob controle, o novo técnico dos Hornets mexeu também na parte tática, saindo do 5-3-2 de Sanchez Flores e adotando um conhecido 4-2-3-1.

Tal mudança foi vital para ‘despertar' duas peças importantes do elenco: Gerard Deulofeu e Ismaila Sarr. A dupla, antes fora de posição, ficou encarregada das pontas e passou a participar diretamente dos gols do Yellow Army.

Deulofeu, que estava atuando mais como um segundo atacante com o antigo treinador, falou sobre as mudanças táticas. “Nós estamos bem organizados, dentro e fora de campo. Agora parece que jogamos sempre em alta intensidade, todos juntos. Estamos defendendo bem e criando várias oportunidades pelas alas. Está difícil de nos vencer”, discorreu.

A confiança da equipe aumentou, os resultados começaram a aparecer (seis jogos de invencibilidade, sendo quatro vitórias) e a torcida se animou. A diferença para sair da zona do rebaixamento, antes quase inalcançável, hoje é palpável.

Após vencer o Wolverhampton, no primeiro dia de 2020, as arquibancadas de Vicarage Road entoaram a música tema do clássico filme “The Great Scape” (“Fugindo do Inferno” em português). Justo, não é mesmo?

Fama de bombeiro? Sem problema

Gomes goleiro brasileiro Watford Dan Istitene Collection Getty Images Sport
Dan Istitene Collection Getty Images Sport

A atual situação do Watford não é novidade na vida de Nigel Pearson, pelo contrário. O técnico, inclusive, esteve envolvido diretamente em uma das maiores recuperações da história da Premier League quando comandou o Leicester em 2014/2015.

Os Foxes agonizavam na lanterna do campeonato e já era Natal. Mesmo assim, Vardy e companhia venceram sete dos último nove jogos e permaneceram na elite. Pearson não permaneceu para a temporada seguinte e Claudio Ranieri foi contratado. Vocês lembram do resto da história, certo?

Mas a escapada com o Leicester não foi a única na carreira de Pearson. O seu Southampton, em 2008, só saiu da zona da degola na última rodada e com direito a vitória de virada.

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Ainda mais dramático foi o caso do Carlisle United, seu primeiro clube como treinador. A modesta equipe precisou contar com um gol de goleiro, no último minuto, na última rodada, para fugir do rebaixamento. Coisa de filme.

Em entrevista recente para o Guardian, Nigel Pearson falou sobre os trabalhos de sua carreira e os rótulos que eles acarretaram.

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E se o Southampton não tivesse vendido seus jogadores?

“Fui perguntado sobre a minha fama de “bombeiro” e não ligo. Se é assim que as pessoas querem me rotular, ok. Da minha perspectiva, trabalhar em uma situação assim (no Watford) é só uma excelente oportunidade de retornar para um mercado que pensei que nunca mais fosse voltar. Sobre a minha reputação, eu sinceramente não ligo pra isso”

O experiente treinador é sério, compenetrado e focado. Não só no Watford, mas em todos os clubes por onde passou, o comandante, de fisionomia militar, exigiu e entregou, acima de tudo, comprometimento. Seus jogadores e funcionários, assim como ele, precisam se entregar 100% ao projeto.

Se Pearson conseguirá mais um milagre? Precisaremos esperar para ver. Mas, sinceramente? Sabendo de todo o histórico, você duvidaria de mais esse feito? Eu não.

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