Seleção brasileira e Premier League: 5 mitos sobre convocados de Diniz que atuam na Inglaterra

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A seleção brasileira amarga uma sequência incômoda na atual edição das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026. São três jogos sem vitória, com duas derrotas seguidas, para Uruguai e Colômbia. Revoltados, torcedores passaram a criticar as convocações recentes, incluindo o número de jogadores da Premier League na equipe.

A última convocação de Fernando Diniz teve oito jogadores do campeonato inglês: Alisson, Emerson Royal, Gabriel Magalhães, Bruno Guimarães, Douglas Luiz, Joelinton, Gabriel Martinelli e João Pedro.

Anteriormente, nomes como Richarlison, Matheus Cunha, Antony, Casemiro e Ederson também haviam sido chamados. Apesar do descontentamento sobre os resultados, os torcedores brasileiros acabaram caindo em alguns discursos turvos sobre os jogadores da Premier League que têm sido chamados por Diniz.

Por isso, a PL Brasil desmistifica cinco mitos sobre os convocados da seleção brasileira que atuam na Inglaterra.

1. “Alisson não é goleiro para a Seleção”

Alisson foi absoluto por grande parte do tempo desde que começou a ser convocado pela seleção principal, em 2015 — mesmo concorrendo com outro grande nome, Ederson. E isso não é por acaso.

Antes mesmo de ser multicampeão pelo Liverpool, ele já havia sido eleito o melhor goleiro do Campeonato Italiano em 2017/18, quando atuava pela Roma, e na mesma temporada esteve na seleção do ano na Champions League.

alisson becker liverpool
Alisson pelo Liverpool (Foto: Icon sport)

O ex-jogador do Internacional é possivelmente o goleiro mais consistente e o melhor desde Júlio César, que viveu seu auge entre 2006 e 2010 — e ainda não mostra sinais de decadência, nem perto disso.

Mesmo criticado na seleção brasileira atualmente, Alisson foi indicado a todos os três prêmios de melhor defesa do mês na Premier League nessa temporada. Criticado em 2018, ele já era o goleiro com mais jogos sem sofrer gols e com maior percentual de defesas no Campeonato Inglês naquela temporada.

Dizer que Alisson não é goleiro para a seleção brasileira não faz sentido. Há uma competição muito justa com Ederson, que viveu um auge no mesmo período do “rival” e figura entre os melhores goleiros do mundo com o companheiro há pelo menos cinco anos. A posição também aumenta o discurso, uma vez que é a mais específica dentro do futebol. Ainda assim, não há goleiro brasileiro melhor do que Alisson.

2. “A Seleção tem muitos volantes da Premier League”

Casemiro foi o principal volante do Brasil e, em certos momentos, de todo o mundo nos últimos oito anos, desde a época do Real Madrid. Seguiu o bom momento no Manchester United, mas caiu de produção e foi justamente deixado de fora da seleção brasileira na última convocação.

No entanto, algumas das melhores opções ainda estão na Premier League. Douglas Luiz, que era convocado por Tite e demorou a voltar à equipe com Diniz, é um dos melhores jogadores de todo o campeonato inglês.

Em um mercado que tem Caicedo, Enzo Fernández e Rice valendo 100 milhões de libras, o jogador do Aston Villa não está atrás — e até mesmo sites especializados ingleses afirmam isso.

Douglas Luiz em ação pela Seleção Olímpica
Douglas Luiz em ação pela Seleção Olímpica (Foto: Icon Sport) Photo by Icon Sport

Joelinton saiu de um centroavante que performava abaixo do nível para um meio-campista completo: agressivo em duelos, um dos melhores da posição em pressão alta e ainda mantendo a qualidade técnica e chegada ao último terço. Como “segundo-volante”, participou de sete gols na última Premier League e sua convocação também “demorou”.

Seu companheiro, Bruno Guimarães, dispensa comentários. Principal jogador do Newcastle desde que chegou ao clube, em 2021, Bruno é o “queridinho” do clube por sua disposição e “raça” — algo sempre cobrado por brasileiros — além de ser o elo técnico da equipe. Sem ele, os Magpies têm grande dificuldade de progredir a bola desde a defesa e criar oportunidades. Merece a titularidade que tem no Brasil.

A queda de Casemiro abre discussões não só para seu substituto, mas para o modelo da Seleção. André seria seu substituto natural, mas já teve seu físico avaliado como “abaixo dos padrões” do alto nível pelo Liverpool, como ouviu a PL Brasil. Ainda assim, tem muita margem de crescimento e totais condições de assumir a vaga, que também pode ser disputada com Douglas Luiz.

3. “Os atacantes da Premier League não marcam gols”

Gabriel Jesus ficou marcado por não marcar gols durante a Copa do Mundo da Rússia, em 2018, apesar de ter marcado sete gols em 10 jogos nas Eliminatórias para aquela edição do Mundial, além de ter participado de 11 gols em 10 jogos na Premier League pelo Manchester City na sua temporada de estreia.

Jesus também foi peça importante na conquista da Copa América de 2019 atuando na ponta-direita, enquanto Roberto Firmino, então jogador do Liverpool, fez com maestria o papel de falso nove no ataque. O atual camisa 9 do Arsenal, apesar da queda de rendimento, foi o terceiro maior artilheiro da era Tite, com 19 gols.

Gabriel Jesus Arsenal seleção brasileira
Gabriel Jesus em ação pela seleção brasileira (Foto: Icon Sport)

O segundo foi Richarlison, que marcou 20 vezes sob o comando de Tite e foi o camisa 9 tão elogiado da Seleção na Copa do Catar, mesmo que seu rendimento no Tottenham tenha sido muito abaixo das expectativas — a ótica tem dois lados, e o torcedor brasileiro acaba escolhendo a que o beneficia.

Mesmo não sendo centroavante, Gabriel Martinelli foi o artilheiro do Arsenal na última edição do Campeonato Inglês, com 15 gols, além de ter dado cinco assistências na campanha do vice-campeonato. Tem o “azar” de brigar com Vinícius Junior pela titularidade na ponta-esquerda, mas é um dos jogadores mais consistentes da posição na Inglaterra.

4. “Jogador do Brighton (ou times fora do Big-Six) não merece ir para a Seleção”

A convocação de João Pedro, camisa 9 do Brighton, foi criticada por um número elevado de torcedores. É natural que times de menor apelo mercadológico, principalmente os de fora do Big-Six, sejam menos vistos pelo público médio brasileiro.

No entanto, isso não faz com que convocações de jogadores desses times sejam desmerecidas. João Pedro é um claro exemplo: é o artilheiro do Brighton na Europa League e, mesmo quando não começa jogando no Campeonato Inglês, é muitas vezes um dos principais responsáveis por mudar o jogo para melhor no segundo tempo.

João Pedro marcou os dois primeiros gols do Brighton na história das competições europeias (Foto: Icon Sport)
João Pedro pelo Brighton (Foto: Icon Sport)

João ainda vive momento melhor do que outros jogadores que estavam em convocações passadas, como Richarlison e Matheus Cunha e vinha fazendo parte da Seleção Olímpica.

Douglas Luiz é outro caso e, como citado acima, é um dos melhores volantes da liga jogando no Aston Villa — que, inclusive, está na briga pelo título neste início de campeonato.

Existem os casos que são “mais aceitos”, mas ainda com ressalvas, como Lucas Paquetá. Jogando no West Ham, time que passa dificuldades na Inglaterra, é criticado por “mais dançar do que jogar”, sendo que é o melhor jogador da equipe e tem números muito positivos na Premier League, principalmente os defensivos.

Como o público pouco assiste os times menos badalados, acabam perdendo a noção de que o Brighton foi um dos melhores times ofensivos das cinco principais ligas europeias na última temporada, ou que o Aston Villa tem sido uma das equipes mais consistentes da Premier League no último ano, terminando acima de Tottenham e Chelsea e, atualmente, estar a três pontos do líder Manchester City.

5. “Os brasileiros ficaram ‘engessados’ com a tática na Inglaterra”

A Premier League tem sido dominada nos últimos anos pelo maior expoente do discurso de que “a tática engessa o jogador e tira a sua criatividade”, Pep Guardiola — que, curiosamente, comandou ao longo da sua carreira alguns dos jogadores mais criativos de todos os tempos.

O público brasileiro reclama sobre o comportamento dos jogadores quando vão à Europa de que perdem sua capacidade com dribles e viram atletas mais burocráticos. “Perdem a magia”. Isso é uma circunstância do contexto, apesar de não ser uma verdade total.

Guardiola em jogo do Manchester City
(Foto: Icon sport)

O próprio João Pedro, em entrevista exclusiva à PL Brasil, falou sobre as diferenças. Ele revelou que, no Brasil, os atletas “jogam da forma como pensam”, o que não acontece na Inglaterra:

— Aqui não, aqui você tem que jogar da forma que o time pensa, porque se você estiver se movimentando de forma errada, você vai atrapalhar os outros jogadores, então acaba que muitos vêm para cá e não têm sequência por conta disso – disse o atacante na ocasião.

A ideia de que o brasileiro é podado e “enjaulado” quando vai para a Europa é uma falácia. Jogadores notavelmente conhecidos por sua habilidade com dribles tiveram bons momentos com treinadores mais conhecidos por “engessar” o jogo, como Antony no Ajax de Erik ten Hag e David Neres no Benfica de Roger Schmidt — mesmo que ambos tenham caído de produção, por motivos diferentes.

Isso não aconteceu com Neymar, Vinícius Júnior, Rodrygo, Gabriel Martinelli, Firmino, Coutinho e com outras dezenas de brasileiros “rabisqueiros” pela Europa. Então o debate começou a ser sobre modelo de jogo e a dualidade muitas vezes errônea sobre “posicional x funcional”.

O Jogo de Posição (não confundir com ataque posicional) é uma filosofia de jogo que tem como base principal três pilares: perfilamento corporal, controle de distâncias e identificação de vantagens em função dos espaços. Em nenhum momento a ideia passa perto de “não driblar”.

O “ataque/jogo funcional”, apesar de não existir na literatura acadêmica do futebol, é um conceito válido, já foi reproduzido por Tite em coletivas de imprensa e tem sido muito ligado a treinadores como Luciano Spaletti e o próprio Fernando Diniz.

Fernando Diniz seleção brasileira 2
(Foto: Icon Sport)

A ideia do funcional seria dar liberdade para o jogador ser criativo: aglomerar jogadores habilidosos próximos um do outro e apostar que a lucidez deles traria combinações não pré-determinadas, mas espontâneas, para se livrar das adversidades. Isso também traz uma ideia errada de que modelos funcionais seriam mais desleixados e sem movimentos treinados.

Os dois modelos contam com exemplos de muito sucesso de jogadores habilidosos e que desmontam defesas a partir do drible. Neymar no Barcelona e sob o comando de Tuchel no PSG viveu anos de Jogo de Posição. Mahrez no Manchester City, Ribéry e Robben no Bayern (os três com Guardiola) são outros exemplos.

O jogador brasileiro não fica “engessado” na Europa, mas evidentemente passa por um processo de se tornar mais objetivo. Culturalmente, ingleses criticam embaixadinhas ou dribles “sem objetividade” que brasileiros muitas vezes aplaudem. E é puramente cultural, um não é melhor que o outro e os dois apenas enxergam a beleza do futebol em coisas diferentes.

Guilherme Ramos
Guilherme Ramos

Jornalista pela UNESP. Escrevi um livro sobre tática no futebol e sou repórter da PL Brasil. Já passei por Total Football Analysis, Esporte News Mundo, Jumper Brasil e TechTudo.

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