Mercado: de Manchester United a Vasco, clubes do mundo ‘se encontram às cegas’ em evento em São Paulo

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Clubes do Brasil, Premier League e MLS participam do primeiro evento do “Tinder” do mercado da bola na América Latina; entenda o encontro e como funciona a plataforma

Por Guilherme Ramos e João Vítor Castanheira

As portas se abrem e os presentes se dirigem para um grande salão e se acomodam, frente a frente, em uma série de mesas numeradas com quatro cadeiras cada. Uma campainha soa para indicar o início da contagem de 15 minutos. O encontro acontece acompanhado por relatórios, planilhas e anotações em pequenas cadernetas. A campainha soa novamente quando faltam dois minutos para o fim do encontro. Com o cronômetro zerado, os envolvidos se levantam, trocam de mesas, e começam mais uma vez.

É assim, como em uma série de “encontros às cegas”, que diretores, chefes de departamentos de “scout” de clubes, analistas de desempenho e agentes de jogadores fazem negócios durante um evento do TransferRoom, o “Tinder do mercado da bola”. A última edição do TransfersRoom Summit aconteceu na Zona Sul de São Paulo, nestas segunda e terça-feira (19 e 20 de junho) — e foi acompanhado pela PL Brasil.

– Todos sabem que o Brasil é um mercado muito importante no que diz respeito a transferências e desenvolvimento de jogadores. É o país que mais exporta atletas, mas também é um mercado muito grande de recrutamento e contratações. Olhando para a última janela de transferências, apenas a Premier League gastou mais com recrutamento do que o Brasileirão. Então faz todo sentido o evento em São Paulo, o primeiro na América Latina – explica Frederik Broholt, vice-presidente comercial da plataforma.

Transferroom Summit teve evento em São Paulo nesta terça-feira. Foto: João Vítor Castanheira/PL Brasil

Evento reuniu clubes do Brasil, Premier League, América Latina e MLS

O encontro reuniu profissionais de diversos clubes de Europa, América Latina e Estados Unidos. Do Brasil, Vasco, AméricaMG, Vasco, Internacional, Bahia e Red Bull Bragantino foram representados. O diretor-executivo do Botafogo, André Mazzuco, Johannes Spors (diretor esportivo da 777 Partners, dona do Vasco), além Wiltor Barros e Rafael Barros, analistas de mercado do clube cruzmaltino, compareceram ao evento.

— Este tipo de evento serve para tirar dúvida da intenção dos clubes de negociar. Claro que jogadores como Matheus Nascimento, por exemplo, chamam atenção. Ainda não houve proposta, apenas sondagem. Queremos esperar até o fim do ano para negociar jogadores — contou André Mazzuco à reportagem da PL Brasil.

Da Premier League, Brentford, Nottingham Forest e Manchester United, este com dois representantes, marcaram presença.

Ferramenta online e encontros presenciais são partes complementares do TransferRoom. Além de divulgar o serviço, o evento tem a intenção de colocar os usuários da plataforma em contato, acelerar negociações e ampliar a rede de contatos dos integrantes.

— Às vezes o interesse é manifestado na plataforma e intensificado nesses encontros. Às vezes o interesse começa aqui. Esses eventos são muito importantes para conhecermos pessoas, ampliarmos nosso networking, entendermos as necessidades de cada mercado e encontrarmos boas oportunidades – disse o representante de um equipe da Série A do Brasileirão presente no evento que, pelo regimento do clube, pediu para não ser identificado. Vamos chamá-lo de “representante X”.

Como funciona o TransferRoom, ferramenta “queridinha” do mercado da bola

tinder match mercado da bola
TransfersRoom: tecnologia de speed-dating a serviço do futebol (Arte: PL Brasil)

A lógica é simples: uma parte busca uma necessidade, e vice-versa — como um aplicativo de relacionamento, ou até mesmo um marketplace comum, como a Amazon ou Ebay, define Frederik Broholt.

— Alguns chamam de ‘Tinder do futebol', outros falam que é um marketplace, onde se tem comprador, vendedor e um produto. Aqui, se tem os clubes, os agentes – e os jogadores como ‘produtos'.

Frederik estabelece outro paralelo. Sabe quando você tenta encontrar, contratar e vender jogadores no Football Manager?

“É bem parecido”, afirma o executivo.

Quanto custa?

O TransferRoom não cobra comissões pelas transações fechadas com o auxílio da plataforma. A ferramenta cobra um valor fixo de inscrição anual dividido em três planos que variam de 10 mil a 40 mil libras anuais (R$ 61 mil a R$ 244 mil anuais).

A plataforma tem uma posição neutra quanto às negociações. A principal funcionalidade é eliminar intermediários e colocar compradores e vendedores diretamente em contato.

— Antes, se eu quisesse entrar em contato com alguém do Borussia Dortmund diretamente, eu precisaria ter um contato que me levasse à pessoa. Um ex-jogador que passou por lá e me pudesse passar um número e um e-mail. O TransferRoom encurta o caminho e me leva diretamente até os tomadores de decisão – disse o “representante X” do clube da Série A do Campeonato Brasileiro.

TransferRoom é o Tinder do mercado da bola. Foto: Guilherme Ramos/PL Brasil

O “representante Y”, de outro clube da Série A, usuário fiel do TransferRoom, reforçou a utilidade do serviço.

— Eu sou um entusiasta. Eu fui o usuário número 1 no Brasil, estou desde o início. Utilizava no clube anterior em que eu trabalhava e agora trouxe para este. É um facilitador, não há outra ferramenta no mundo que faça algo parecido.

Frederik Broholt explica que é difícil monitorar quantas negociações acontecem efetivamente por causa da plataforma.

—- Historicamente, o que temos visto é que cada clube que vai aos eventos fecha pelo menos um acordo subsequentemente, enquanto um agente geralmente completa um ou dois acordos. É importante ressaltar que as negociações podem demorar semanas ou meses, mas tudo começa em uma reunião naquela sala.

–Nós tivemos clube e empresário confirmando que as reuniões que eles tiveram no Stamford Bridge em março (data e local do último evento) levaram a uma contratação de um jogador do Cruzeiro que foi anunciado recentemente — disse Frederik. Esse jogador foi Matheus Davó, que foi emprestado pelo clube mineiro ao Pafos, do Chipre.

— Assim que as contratações são anunciadas, nós rastreamos e vemos quais estiveram ligadas à atividade na plataforma. No TransferRoom, podemos ver, por exemplo, que um clube falou sobre um jogador específico, outra equipe demonstrou interesse e, posteriormente, anunciou a contratação. Com isso, você sabe com 95% de chance que esse acordo veio do TransferRoom.

É como nos aplicativos de relacionamento. O TransferRoom faz o trabalho de colocar as metades em contato. Se o “match” virtual vai dar em “cositas más” na vida real, está além da influência da ferramenta.

Desta forma, a plataforma, criada em 2017, estima que mais de 3 mil negociações foram fechadas pelo TransferRoom desde então. Atualmente, o serviço é utilizado por mais de 700 clubes de todo o mundo. Mas nem sempre foi assim. Para que a plataforma funcione, ela precisa de compradores e vendedores. E no início, foi preciso poder de convencimento.

O TransferRoom começou em 2017. Antes disso, o cofundador, Jonas Ankersen, passou um bom tempo visitando clubes na Europa e perguntando quais os seus maiores problemas relacionados ao mercado de transferências. Ele viu que existiam marketplaces em outros setores e se perguntava por que isso não ocorria no futebol.

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