Matt Busby: o técnico que mudou o patamar do Manchester United

Conheça mais a história do primeiro treinador lendário do Manchester United

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Photo by Norman Quicke/Daily Express/Hulton Archive/Getty Images

Um escocês de Lanarkshire, chamado Alexander, com o título de “Sir” (Cavaleiro do Império Britânico) e no currículo um trabalho de mais de 20 anos no Manchester United, além de títulos nacionais e internacionais. Certamente a grande maioria dos torcedores dos Red Devils cravaria que estamos falando de Sir Alex Ferguson, mas hoje lembramos e homenageamos outro escocês lendário da história do United: Sir Alexander Matthew “Matt” Busby.

Matt Busby: uma vida afetada por duas Guerras Mundiais

Nascido em 26 de maio de 1909 na vila de Orbiston, em Bellshill a apenas 21km de Glasgow, Matt Busby cresceu num ambiente simples. Era filho de um mineiro de carvão e uma dona de casa. Aos oito anos, o garoto perdeu o pai, vítima da 1ª Guerra Mundial, o que o afetou profundamente, mas alimentou ainda mais seu sonho de mudar de vida e perseguir uma carreira no esporte que tanto amava: o futebol.

Aos 18 anos, Busby trabalhava como mineiro de carvão. Nas horas vagas, jogava pela categoria de base do Denny Hibernians, um pequeno clube do condado vizinho, Sterlingshire. Seu bom desempenho pelo clube chamou a atenção, por ironia do destino, do time do lado azul de Manchester, que o ofereceu seu primeiro contrato profissional, em 1928: 5 libras por semana durante um ano.

Pelo Manchester City, o jovem escocês começou sua busca por espaço entre os titulares como um atacante. No entanto, com o tempo Busby se converteu em lateral-direito, e começou a se destacar por sua inteligência e visão de jogo.

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Em oito anos de City, Matt Busby acumulou 229 jogos em todas as competições, com 14 gols e um troféu: a Copa da Inglaterra de 1933/1934. Além disso, nesse período o lateral teve sua primeira – e única – partida oficial pela seleção escocesa. Foi uma derrota por 3 a 2 para o País de Gales em 1933, válida pelo British Home Championship (“Campeonato Britânico de Seleções”, tradução livre).

Em 1936, o Liverpool contratou Busby por 8 mil de libras. Em sua passagem de apenas três temporadas pelos Reds, não vieram títulos, mas uma amizade duradoura com outra futura lenda do futebol inglês: Bob Paisley. Ele viria a treinar o Liverpool entre 1974 e 1983.

Assim como a 1ª Guerra Mundial o marcou pessoalmente, em 1939 a 2ª Guerra interrompeu antes do previsto a carreira dele. Apesar do cancelamento de competições oficiais durante o conflito – entre 1939 e 1945 – Busby atuou em alguns amistosos extraoficiais. Ele chegou a atuar por Chelsea, Bournemouth, Reading, Brentford e Hibernian, além da seleção escocesa “B”.

Primeiros passos como treinador

Durante a 2ª Guerra Mundial, Matt Busby assumiu o posto de técnico do time do Army Physical Training Corps (“Corpo de Treinamentos Físicos do Exército”, tradução livre). A experiência deu frutos. Em 1945, ele recebeu uma oferta de assistente técnico em seu último clube, Liverpool. No entanto, o escocês queria mais liberdade para treinar e introduzir sua filosofia e visão pessoais do jogo.

Sua ambição o fez recusar a proposta dos Reds. Pouco tempo depois, ainda trajando a farda do Exército Britânico, Matt Busby viajou ao Trafford Park e acertou os detalhes de seu contrato com os maiores rivais de seus dois clubes como jogador: o Manchester United.

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Pesaram para sua escolha as concessões cedidas com relação a treinamento, escalação do time e contratações de jogadores, uma vez que o jovem treinador alegava conhecer mais do esporte que os diretores do clube. Além disso, o escocês era amigo do diretor Louis Rocca, membro da bancada do United e do Manchester Catholic Sportsman's Club (“Clube do Esportista Católico de Manchester”, tradução livre), do qual Busby também era membro.

Uma política bastante inovadora e corajosa para a época, adotada por Matt Busby desde o primeiro dia, foi o desenvolvimento de talentos nas categorias de base. A confiança da diretoria na filosofia do escocês se provou justificada, visto que o clube passou a brigar constantemente por títulos.

Em suas cinco primeiras temporadas, os “Busby Babes” (“Garotos de Busby”, tradução livre) encerraram um jejum de 12 anos sem títulos, ao conquistarem a Copa da Inglaterra de 1947/1948. Além disso, foram quatro vezes vice-campeões da Primeira Divisão.

Jogando um futebol rápido e ofensivo, o clube levantaria sua primeira taça da Primeira Divisão em 41 anos na temporada 1951/1952, feito que, à época, já imortalizava Matt Busby na história do Manchester United. O clube ainda levaria a Supercopa da Inglaterra na temporada seguinte.

Entre 1955 e 1957 os comandados de Matt Busby foram bicampeões da Primeira Divisão. A média de idade do elenco nas conquistas era de, respectivamente, 21 e 22 anos, justificando o apelido de “Busby Babes”. Isso também ilustrava o sucesso de sua visão inovadora de apostar em jovens talentos e nas categorias de base.

No entanto, o sucesso arrebatador daquele jovem Manchester United teria um episódio trágico em sua bela história.

O desastre aéreo de Munique e o surgimento de uma lenda

Numa tarde fria, em 6 de fevereiro de 1958, o United embarcava num voo em Munique com destino a Manchester. Os “Busby Babes” vinham de um duelo contra o Estrela Vermelha, em Belgrado, pelas quartas da Copa dos Campeões Europeus (futura Champions League). Após heroico empate em 3 a 3 contra os sérvios, os ingleses estavam garantidos na semifinal, onde enfrentariam o Milan.

Devido à presença de uma fina camada de gelo na pista, o avião não alcançou a velocidade mínima para decolar. Ele então se chocou com a cerca de proteção do aeroporto. A tragédia resultou na morte imediata de 20 dos 44 tripulantes. Posteriormente, mais três faleceriam no hospital, em Munique. Das 23 fatalidades totais, oito eram jogadores e três eram membros da comissão técnica.

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Photo by Norman Quicke/Daily Express/Hulton Archive/Getty Images

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O episódio traumático deixou marcas profundas em Busby. Após passar dois meses se recuperando no hospital em Munique, o treinador buscou refúgio em Interlaken, na Suíça. Em depressão, o técnico cogitou abandonar o futebol, mas o apoio incondicional de sua esposa, Jean Busby, e dos jogadores e torcedores do United o fizeram mudar de ideia.

Com a ajuda de alguns recém-contratados de times semiprofissionais, atletas do time reserva e a solidariedade de outros clubes ingleses, dentre eles o grande rival Liverpool, Busby começou a reerguer sua equipe. Nesse contexto, um dos sobreviventes da tragédia surgiria como o grande ídolo de sua geração: o jovem Bobby Charlton.

Formado nas categorias de base e promovido aos 18 anos à equipe profissional por Matt Busby, Charlton já era uma figura importante na época do desastre aéreo, aos 20 anos de idade. Na temporada seguinte à tragédia, Charlton assumiu de vez o posto de principal referência e marcou incríveis 29 gols em 38 jogos na Primeira Divisão.

Redenção e consagração internacional

Liderada por Bobby Charlton, a reconstrução do gigante adormecido de Manchester levou alguns anos. No entanto, a dedicação de Busby e sua fé inabalável em jovens atletas novamente foram recompensadas. Com as apostas nos promissores Denis Law e George Best, contratados em 1962 e 1963, respectivamente, o United voltou ao topo.

Na primeira temporada do escocês no ataque, ao lado de Charlton, os Red Devils voltaram a erguer um troféu. Foi o primeiro desde a tragédia de Munique: a Copa da Inglaterra de 1962/1963. Com a chegada do irlandês do norte, os novos “Busby Babes” foram bicampeões da Primeira Divisão entre 1964 e 1967, além de voltarem a uma semifinal europeia após oito anos.

No ano seguinte, a consagração e a volta por cima definitivas daquele time que tanto havia sofrido dez anos antes.

Após eliminar Hibernians (Malta), Sarajevo (Iugoslávia), Górnik Zabrze (Polônia) e Real Madrid no caminho até a final, o Manchester United (curiosamente vestindo azul), bateu o famoso Benfica, de Eusébio, Mário Coluna e José Torres. 4 a 1 na grande final, com dois gols do capitão Charlton e um do cada vez mais ídolo George Best.

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Era a glória derradeira para o torcedor. E o grande sonho de Matt Busby se tornando realidade. O feito agora não deixava dúvida quanto à grandeza do treinador. Ele escreveu seu nome na história como o primeiro a conquistar a Copa dos Campeões (hoje Champions) por um clube inglês.

Após a consagração máxima, Busby só treinaria efetivamente o United por mais uma temporada (1968/1969), na qual levou o clube novamente até a semifinal da Copa dos Campeões (sendo eliminado pelo Milan). Com a demissão de seu sucessor, Wilf McGuinness, Busby ainda assumiria como interino de dezembro de 1970 a junho de 1971, encerrando, assim, sua carreira como técnico.

Entre 1969 e 1980, Busby atuou como diretor do United. Aliás, ele foi eleito presidente do clube em 1980, cargo que exerceu até sua aposentadoria definitiva, em 1983.

Ao todo, somando sua passagem de 1945 a 1969 ao breve período de 1970 a 1971, Sir Matt Busby comandou o Manchester United em 1.141 jogos oficiais, com 576 vitórias, 266 empates e 299 derrotas. Sob seu comando, os Red Devils conquistaram 13 títulos: cinco edições da Primeira Divisão, duas Copas da Inglaterra, cinco Supercopas e a histórica Copa dos Campeões.

Homenagens e legado de Matt Busby

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Photo by Richard Heathcote/Getty Images

Em 1993, a rua do estádio de Old Trafford acabou renomeada Sir Matt Busby Way. Após o falecimento do lendário treinador, em 1994, aos 84 anos, o prêmio de Jogador da Temporada do Manchester United, escolhido pelos torcedores, foi rebatizado Sir Matt Busby Player of the Year.

Aliás, em Bellshill, sua cidade natal, o complexo esportivo local acabou nomeado Sir Matt Busby Sports Complex.

Depois de sua Era de Ouro sob o comando de Busby, o United não conseguiu estender sua supremacia aos sucessores de seu grande técnico. Isso levou o clube, inclusive, ao seu rebaixamento mais recente, em 1973/1974.

Os Red Devils ficariam sem vencer a Primeira Divisão inglesa ou qualquer outro título internacional até a chegada de outro Sir escocês chamado Alexander e vindo da região de Lanarkshire. Mas isso já é outra história.