Martial e Manchester United: inconsistências constantes

Começo abaixo de Martial na temporada é reflexo de um United que ainda não aprimorou os eixos de sua engrenagem futebolística

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Martin Rickett - Pool/Getty Images

A temporada de 2020/2021 começou com muitas expectativas para o Manchester United e para o camisa 9 Anthony Martial. Mesmo em tempos pandêmicos, se esperava tanto do clube, como do atacante, uma temporada de menos oscilações e mais consistências. Mas, o roteiro que se vê até aqui não é esse.

Por parte do clube, inconsistência na Champions League e na Premier League. A primeira, que aparentava seguir por caminhos tranquilos após as vitórias sob PSG e RB Leipzig, terminou com mais um fracasso dentro da fase de grupos da competição.

O time, que precisava apenas de um empate na penúltima rodada para se classificar com antecedência, se viu derrotado para as mesmas equipes que já havia vencido. Terminou eliminado de forma vexatória. E isso passou pela inconsistência de Martial.

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Enquanto a partida com o Paris Saint-Germain ainda estava em 1 a 1, o atacante francês teve duas chances muito claras para marcar, uma delas sem goleiro. Pelo desenho do jogo, se marcasse em um daqueles momentos, seria muito difícil uma reação extraordinária dos parisienses.

Contudo, diferente da música feita para ele pela torcida que diz “Tony Martial marcou mais uma vez”, o camisa 9 desperdiçou as duas oportunidades. Daí, o que se viu foi o PSG não só reagir, como vencer o jogo com autoridade. Logo após o amplo domínio do United não ter sido convertido em gols.

E, mesmo que seja um recorte pequeno, por se tratar de um único jogo, é a partida onde mais se mostrou o potencial do clube e do jogador em animar e frustrar o torcedor dos Diabos Vermelhos. O United desta temporada vai do céu ao inferno muito rápido.

Martial, por estar inserido nesse contexto de inconstâncias, deu poucos sinais até aqui de que pode repetir a temporada passada. Em 2019/2020, foi o artilheiro do clube na PL ao lado de Rashford com 17 gols. Terminou o período com 23 gols e 12 assistências somando todas as competições.

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Foram 35 participações diretas em 48 jogos. Números que animaram a todos e passavam a sensação de que, mesmo que perdesse algumas oportunidades claras, o atacante estava próximo de alcançar o amadurecimento que muitos esperam/esperavam dele.

Todavia, 2020/2021 ainda não sorriu desta forma para Tony. Ele, que agora tem em Edinson Cavani um grande concorrente pela vaga de atacante titular da equipe, não parece estar com a mesma forma técnica da temporada passada.

Até aqui são três gols e três assistências em 13 jogos. Os números não são necessariamente ruins, mas estão abaixo e refletem como ele pouco tem conseguido contribuir. A partida contra o Sheffield foi um alento, marcou um gol e deu uma assistência. Foi participativo em vários momentos e reeditou a parceria que deu muito certo com Rashford no final de 2019/2020.

Mas, assim como o desempenho do clube, falta alguma coisa – ou várias. Foi o primeiro gol e a primeira assistência dele na liga, sendo essa a 13ª rodada do campeonato. Ou seja, as coisas já estão acontecendo há algum tempo.

E se o fim da linha já chegou na Liga dos Campeões, a Premier League ainda tem muito a oferecer a ambos. No presente momento, o time é o 6º colocado com 23 pontos, a 5 de distância do líder Liverpool, mas com um jogo a menos. Em caso de vitória neste jogo que resta, o United poderá se encontrar num cenário de proximidade muito maior com os clubes postulantes ao título.

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Entretanto, é aqui onde mora inconsistência mais prática e visível por parte dos Red Devils como um todo: o time praticamente não vence em Old Trafford. Até aqui, são seis jogos e apenas uma vitória, com cinco pontos conquistados dentro de seus domínios.

Apesar disso, em terras inimigas o cenário é extremamente positivo: 100% de aproveitamento. São seis jogos e seis vitórias, sendo todas elas de virada.

Daí a inconsistência. O mesmo time que consegue virar todos os resultados adversos longe de sua casa, é a equipe que é goleada pelo Tottenham por 6 a 1 e perde para o Crystal Palace por 3 a 1. E todo mundo tem responsabilidade nisso.

A diretoria, por ainda não ter resolvido sérias carências do elenco. O treinador Ole Gunnar Solskjaer, que está no cargo há dois anos e ainda não estabeleceu um padrão nítido de como a equipe joga. E claro, os jogadores, que mesmo resolvendo algumas partidas com suas próprias individualidades quando as coisas não vão muito bem, também deixam a desejar por complicarem partidas que poderiam ser mais fáceis.

Martial é reflexo disso. O jogador não consegue causar o mesmo impacto que Bruno Fernandes e Rashford, por exemplo, o fazem quando a coisa aperta. De certa forma não é completamente culpa dele, pois o futebol é um esporte coletivo e os movimentos do United em campo já deveriam estar mais coordenados.

O time permanece com muita dificuldade para envolver os adversários quando tem a posse e o jogo que mais funcionou até aqui foi o das bolas longas. Seja com os zagueiros, volantes ou meio-campistas, é recorrente ver que quando tem a posse, os mancunianos preferem pelo lançamento em velocidade ao invés de uma possível troca de passes.

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Isso é ruim? Não necessariamente, mas também não é o suficiente. Em muitos contextos é algo que vai funcionar, principalmente por Rashford, Greenwood e Martial serem jogadores com certa facilidade para jogar nas costas dos defensores. Mas e quando não tiver esse espaço?

Em muitos momentos é nítido que os jogadores não sabem muito bem o que fazer com a bola, é difícil ver uma troca de passes envolvente justamente pela falta de noção dos jogadores de como se comportar na jogada. Isso é totalmente culpa da comissão técnica.

A essa altura, mesmo que com um elenco inferior a Liverpool, Chelsea, Tottenham e Manchester City, o United já deveria ter mais válvulas de escape e domínio dentro de seu leque de opções. O jogo em velocidade é ótimo, o time aplica contragolpes como poucos, assim como tais lançamentos em profundidade. Mas, é preciso de mais.

Com mais opções, o time fica menos expostos às adversidades. Todo estilo de jogo é válido, mas é preciso repertório.

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Clive Brunskill/Getty Images

Em um cenário de mais possibilidades, recairia um peso menor para que as individualidades decidam em favor do clube. Lógico que os craques naturalmente são o diferencial de um time vencedor, mas quando a engrenagem tem coesão, torna-se mais fácil a potencialização do individual.

Como diz o treinador da seleção brasileira, Tite: “O coletivo potencializa o individual”. O United precisa disso. E Martial precisa melhorar se quiser ser titular.

Mesmo que prejudicado pela piora na qualidade do futebol do time quando comparado a temporada passada, o débito particular dele é grande. Não se pode ser a esperança de gols e passar desapercebido por tantas partidas. Não se pode perder chances tão claras de liquidar as partidas.

A engrenagem não facilita, mas ele também se complica. O problema é mútuo. Tanto do coletivo pro individual, quanto do individual pro coletivo.

Ainda que pedida por muitos, dificilmente uma demissão de Solskjaer irá acontecer. No contexto atual, parece-se a decisão mais acertada, ao menos até o fim da temporada. O time possui 63% de aproveitamento, o que é muito bom. Caso mantenha essa pegada até o fim, irá se classificar para Champions sem maiores problemas.

Difícil estabelecer algum prognóstico de briga por algum título no momento atual. Seja pelas constantes inconsistências, ou pela limitação que o futebol do grupo ainda apresenta.

Se as coisas irão caminhar de forma mais sólida para Martial e Manchester United a partir de agora é difícil dizer. Ambos precisam de mais astúcia e regularidade para se firmarem onde querem. O futuro dos vermelhos de Manchester está tal qual o Gato de Schrödinger: pode estar vivo ou não até que se veja de fato o que aconteceu.