Marcelo Bielsa e a ‘Era da Loucura’ em Leeds

Desde que a loucura invadiu os corredores do Elland Road em junho de 2018, a equipe mudou de patamar e agora disputa mais uma vez o título da Championship

Leeds Marcelo Bielsa Marc Atkins Collection Getty Images Sport
Marc Atkins Collection Getty Images Sport

O ano era 2018, o técnico Paul Heckingbottom e o Leeds United terminara a temporada 2017/2018 na 13ª colocação da Championship. Com 60 pontos, nem sequer sonhou com os playoffs naquele torneio. Mas a partir do dia 15 de junho de 2018, a loucura tomou conta do Elland Road. Marcelo Bielsa assinou um contrato de dois anos e começou uma nova era em Leeds.

O trabalho na temporada 2018/2019 começou de forma fantástica. A equipe emplacou oito jogos invictos nas primeiras oito rodadas da competição. E só teve três derrotas no primeiro turno (23 jogos).

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Porém, no segundo turno as coisas começaram a dar errado. Uma crise gigante de lesões atingiu o elenco, já enxuto, e acabou prejudicando demais o desempenho em campo. Gaetano Berardi, Stuart Dallas, Luke Ayling, Patrick Bamford, Pablo Hernández e Kemar Roofe são apenas alguns que se lesionaram.

A derrocada foi grande e o Leeds sofreu dolorosas dez derrotas no returno. Precisou disputar a última vaga nos playoffs mas acabou derrotado pelo Derby do técnico Frank Lampard. Os Whites venceram a ida por 1 a 0, mas perderam a volta por 4 a 2. O último gol foi marcado, cruelmente, aos 40 do 2º tempo, por Jack Marriott.

Vamos tentar de novo, juntos

Mesmo com o resultado que não era o esperado, a diretoria e torcedores compreenderam o tamanho do trabalho de Bielsa e seus jogadores. As energias foram renovadas e, mesmo com algumas mudanças no time principal, o Leeds começou a temporada de 2019/2020 com tudo.

Os Whites perderam duas peças fundamentais: o zagueiro Pontus Jansson e o artilheiro Kemar Roofe. Em contrapartida, chegaram Hélder Costa, do Wolves, e Ben White, do Brighton, além de outros nomes menos relevantes.

Roofe foi o artilheiro da temporada passada com 15 gols, mas mesmo sem seu goleador, o Leeds voltou forte. Terminaram o primeiro turno da atual temporada na 2ª colocação com 13 vitórias, seis empates e quatro derrotas. Uma campanha ótima e parecida com a do ano passado.

Nomes como Patrick Bamford e Jack Harrison subiram de produção de uma temporada a outra. Além do acerto gigantesco que foi a contratação de Ben White. Atualmente, o Leeds está com uma ótima vantagem de pontos, que oscila por volta de nove, sobre o 3º colocado. É importante lembrar que o campeão e vice sobem direto para a Premier League.

O Leeds desta temporada parece ser um time mais maduro. Consegue controlar mais seus jogos e não sofre mais tanto com contra-ataques. Atuações individuais, menos lesões e uma ideia ofensiva em específico ajudam a explicar isso.

Para ajudar a entender como funciona o time de Marcelo Bielsa, conversamos com Gabriel Dudziak, jornalista e comentarista de futebol das rádios Globo e CBN de São Paulo. Ele, fiel de Bielsa, acompanha o técnico argentino há tempos e o Leeds desde a chegada de El Loco.

Leeds United Ben White - Lewis Storey Getty Images
Lewis Storey Getty Images

Incomum nos times de Bielsa, a solidez defensiva impressiona

Após a 26ª rodada, o Leeds detém a marca de 2ª melhor defesa do campeonato. São apenas 21 gols sofridos até o momento, perdendo apenas para o Brentford com 20 bolas na rede. Para Dudziak, o segredo da defesa do Leeds é o controle do jogo.

“O controle é a chave. Isso pode ser explicado pelo time mais versado no estilo de jogo do técnico e algumas peças individuais como Adam Forshaw e Pablo Hernández. A ideia é estar sempre com a posse da bola e só arriscar ou acelerar em locais mais ‘seguros', como os lados do campo”, diz Dudziak.

Diferente da temporada passada, a equipe tem sofrido menos gols de contra-ataques agora. Em vez da ‘trocação de ataques', marca comum em times de Bielsa, o Leeds consegue controlar o ritmo do jogo conforme queira. Forshaw e Hernández são fundamentais nisso por sua técnica, cadência e leitura de jogo.

Se defender bem começa no ataque

“Antes o Leeds queria ser muito vertical, atacar com sete ou oito, e então vinha um cruzamento para o meio da área e sofria um contra-ataque com poucos defensores. Agora, principalmente com Pablo Hernández em campo, consegue cadenciar e reger melhor a escolha desses ataques. O lugar onde se arrisca são as pontas. Perder a bola em locais menos perigosos é pensar onde você pode perder a bola“. Afirma Gabriel Dudziak.

Ou seja, o Leeds aprendeu que na Championship é mais seguro arriscar pelas pontas. Já que a bola estando ali é mais fácil de fazer uma eficiente pressão pós-perda e cortar um contra-ataque rival. Pablo Hernández, principalmente, é fundamental nesse mecanismo pois é quem decide quando e por onde acelerar os ataques.

Leeds Marcelo Bielsa Marc Atkins Collection Getty Images Sport
Marc Atkins Collection Getty Images Sport
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As armas ofensivas do Leeds

Marcelo Bielsa sempre foi conhecido por montar times agressivos, ofensivos e intensos. Mesmo sem o seu antigo artilheiro, Kemar Roofe, a força do ataque continua presente. Atualmente, os Whites tem o 3º melhor ataque da Championship com 43 gols marcados.

Substituto de Roofe, o centroavante Patrick Bamford é o eixo central do sistema ofensivo. Começou a temporada sendo criticado, mas sua entrega e suas atuações cessaram as cornetas. Com uma capacidade incrível de sustentar lançamentos e fazer pivôs, ele participa muito das criações. Além de brigar alto e ser muito intenso na marcação.

Fora o citado centroavante, Dudziak também destaca a principal armadilha do Leeds. “Se o adversário espera postado lá atrás, o time ataca com muita gente, sete ou oito jogadores, e com ótimos mecanismos para furar defesas. Se o adversário prefere pressionar lá em cima, a transição ofensiva é mortal. Muita velocidade e tabelas rápidas”.

Liam Cooper (60,6), Ben White (57,1) e Kalvin Phillips (56,5) estão entre os dez jogadores que mais dão passes por jogo na Championship

Os destaques individuais da equipe

Marcelo Bielsa também tem a fama de melhorar individualmente seus jogadores. Não à toa ele vive recebendo elogios de quem já trabalhou junto dele. Mas nessa temporada 2019/2020 do Leeds, quatro nomes estão chamando muita atenção.

Kalvin Phillips é cria da base do clube. Chegou ainda na adolescência e vem melhorando a cada ano. Costumava jogar como segundo volante ou até mais à frente, mas, com Bielsa, o inglês se firmou mesmo como o primeiro volante.

George Wood Getty Images
George Wood Getty Images

Regendo a orquestra desde lá de trás, Kalvin Phillips recebeu o apelido de Yorkshire Pirlo nesta temporada. Além da grande capacidade de construção de jogo, Phillips tem uma fenomenal leitura de jogo e capacidade de marcação e desarme. Tanto é que o jovem de 24 anos é o 4º da liga em desarmes por jogo (3).

Indispensável e crucial, Kalvin Phillips quase saiu da equipe em 2019. Aston Villa e Manchester United queriam, mas a sua história em Leeds pesou e ele ficou. Pelo menos por enquanto, já o talento do jovem inglês é tão grande que é quase inevitável a saída para algum grande inglês em algum momento.

“Kalvin é excelente jogando. Ele é regular, sempre joga e sempre joga bem. Se esforça muito pelo time e tem uma boa personalidade. Assume riscos, não tem medo e é desinibido”.  Marcelo Bielsa, em entrevista de janeiro de 2020.

Ben White

Quando o zagueiro Pontus Jansonn foi vendido ao Brentford, no meio de 2019, a torcida ficou sem entender nada. Mais tarde o próprio defensor declarou que saiu porque o Leeds precisava de dinheiro.

Para o seu lugar, chegou o jovem e inexperiente Ben White, vindo do Brighton. Até então, White não tinha disputado nem jogo de Premier League e nem sequer de Championship.

Mas a desconfiança e desconhecimento sumiram no momento que o defensor entrou em campo. Muito competente na defesa e com uma rara capacidade de jogar com a bola, Ben White tem roubado bolas e a cena nesta temporada. Ele é jogador com mais interceptações por jogo na liga (2,6).

O único problema é que o contrato do jovem de 22 anos é por empréstimo junto ao Brighton. Logo, jogando tão bem assim, é difícil que o Leeds consiga mantê-lo para a próxima temporada.

Pablo Hernández

Diferente de todos os outros jogadores do elenco, Pablo Hernández é o ‘camisa 10' de Marcelo Bielsa. O espanhol é responsável, entre outras coisas, por organizar o ataque do Leeds. Ele é quem decide por onde o time ataca, se cadencia o jogo ou acelera.

Indispensável e único à equipe, seus 34 anos de idade ajudam na experiência em campo, porém o prejudicam nas lesões. Na temporada passada, o time sofreu bastante quando ele se machucou e passou meses fora.

George Wood Getty Images
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Se conseguir se manter saudável, Pablo Hernández pode fazer a diferença entre mais um ano na Championship ou jogar a Premier League.

Na temporada atual, ele não tem tantos gols (3) ou assistências (4). Porém é o 7º da liga em passes-chave por partida (2,2). Além disso, tem o já citado acima impacto que ele causa no sistema defensivo do Leeds quando não joga.

Jack Harrisson

O meia inglês é mais um exemplo da incrível capacidade de Marcelo Bielsa de melhorar jogadores. Harrisson talvez não seja o melhor jogador do Leeds, mas certamente é quem mais evoluiu de uma temporada para outra.

Vamos exemplificar, em 2018/19, ele disputou 37 jogos na Championship com quatro gols e duas assistências. Além disso criou quatro grandes chances no período e teve média de um passe-chave por jogo.

Já na atual temporada, mesmo com apenas 26 jogos, ele já ultrapassou essas marcas. São cinco gols, seis assistências, dez grandes chances criadas e 1,7 passe-chave por jogo. A melhora de Jack Harrisson é brutal, o quê fez do inglês uma peça importante para o Leeds em 2019/2020.

Um Leeds cada vez mais bielsista e um Marcelo um pouco mais Leeds

Por toda equipe que passou, Marcelo Bielsa sempre deixou sua marca. Era claro ao espectador que aquela equipe que ele via era um time de El Loco. Duelos individuais no ataque e defesa, transições furiosas, muita agressividade e pressão no adversário. Além de uma defesa frequentemente vazada.

Porém no Leeds isso tem sido um pouco diferente. Todos os outros conceitos estão ali, mas a defesa tem sido, surpreendentemente, um ponto forte desde a temporada 2018/2019. A média de gols sofridos atual não chega à 1 por jogo e a defesa é a 2ª menos vazada da atual edição da Championship.

Isso talvez possa ser explicado por um time ainda muito agressivo, mas que sabe a hora de agredir. A ‘trocação de ataques' que tirava o controle do jogo das mãos de Bielsa tem sido menor. O técnico argentino cambiou as vitórias alucinantes de 3 a 2, por placares magros de 1 a 0.

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Bryn Lennon Collection Getty Images Sport
Bryn Lennon Collection Getty Images Sport

Mas por outro lado, o Leeds, famoso pelo jogo sujo e vencedor de Don Revie, também mudou com o técnico argentino. Não só os jogadores, como os dirigentes e a comunidade toda parecem ter abraçado o jeito de Bielsa enxergar o futebol.

Marcelo Bielsa é um idealista. Tem seus conceitos sobre a vida e futebol bem claros e nunca vai mudar. Em especial o trabalho em equipe e a valorização do trabalho, seja qual for o resultado, desde que seja bem feito.

Em qualquer tarefa se pode ganhar ou perder, o importante é a nobreza dos recursos utilizados” 

Bielsa também entende a importância que os torcedores têm no futebol. Acredita que é importante que se faça um espetáculo bonito e que ganhar à qualquer custo não é o caminho mais agradável.

Uma das suas primeiras atitudes quando chegou ao Leeds foi colocar o elenco todo para recolher lixo em volta do CT do clube por três horas. A intenção era mostrar quando tempo e esforço os torcedores do Leeds gastavam para ir a um jogo. Romântico e diferenciado.

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A ideia não é refundar culturalmente o Leeds e apagar as marcas históricas do Don Revie. Mas Bielsa é tão empático e carismático que conseguiu mostrar à toda a comunidade do time que existe outro jeito, talvez leve e altruísta, de enxergar o futebol e a vida.

Na 45ª rodada da temporada passada, o Leeds marcou um gol contra o Aston Villa, concorrente direto, com um jogador adversário caído. Bielsa então ordenou que o time entregasse um gol, como um gesto de fair play. Marcelo Bielsa aflorou o Leeds no campo e nos corações.

“Coisas extracampo, a mentalidade, profissionalismo falam muito também. O ‘jogar bem’ deixa a torcida muito animada e isso voltou com o Bielsa, além do ‘jogo limpo’. Ele trouxe uma mudança de mentalidade. Mas se o time não subir depois de tudo isso, a derrota é o que vai ficar marcada”, diz Gabriel Dudziak sobre o efeito Bielsa.

O que pode atrapalhar a equipe nesta temporada

Apesar do desempenho atual ser fantástico, os Whites precisam tomar cuidados com algumas armadilhas. A primeira é a deficiência na bola parada defensiva. Dos 21 gols sofridos nesta temporada, nove foram assim. O Leeds tem poucos jogadores altos, então acaba sofrendo com isso.

Gabriel Dudziak lembra de outro ponto importante, as lesões e a teimosia de Bielsa:

“Se estivéssemos falando de outras áreas da vida e do futebol, eu poderia falar que o Leeds precisa ‘aprender com os erros’. Como por exemplo, a falta de contratações para esse ano, ignorando os déficits da equipe e os jogadores que perderam. Nos playoffs só tinham meninos no banco, por conta das lesões. O elenco acabou no final da temporada e as ideias foram as mesmas. O Leeds não tentou jogar de uma forma mais cautelosa, já que não tinha os mesmos jogadores disponíveis.”

George Wood Getty Images
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“Porém, o Bielsa é um técnico que não muda as ideias, então isso não vai acontecer. A ideia será a mesma sempre. O que a gente pode fazer, na verdade, é torcer para que as lesões não aconteçam de novo. Se uma crise de lesionados acontecer de novo, fica difícil”, completou.

Entre alguns erros e muitos acertos, Bielsa vai caminhando pra outra grande temporada à frente do Whites, desta vez com ainda mais chances de título e acesso. E deixando bons frutos não só dentro, como fora de campo também. O furacão de loucura que passa por Leeds é intenso, avassalador mas muito competente e apaixonante.