Até onde pode chegar o Manchester United de Solskjaer?

Desde que o norueguês chegou a Old Trafford, tudo mudou para os Red Devils

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Sete vitórias nos primeiros sete jogos. 19 gols marcados e apenas quatro gols sofridos. Ânimo da equipe renovado, recordes e mais recordes sendo quebrados e a expectativa de ver o time jogar resgatada. De forma breve, esses são os feitos de Ole Gunnar Solskjaer até aqui como treinador do Manchester United.

O norueguês, que em outras épocas fora ídolo dentro das quatro linhas pelos Red Devils, já está na história dos treinadores do clube, mesmo com apenas um mês no cargo.

Isso pode ser dito não apenas pelo treinador ter quebrado o recorde do lendário Sir Matt Busby, o qual havia ganho os seus primeiros cinco jogos como treinador em Manchester e perdurava 73 anos sem sequer ser igualado. O trabalho de Solskjaer poderá ser lembrado no futuro como uma “mudança de chave” em Old Trafford.

Igualando os melhores inícios em Premier League de Pep Guardiola e Carlo Ancelotti com seis vitórias consecutivas, o treinador faz a torcida sonhar mais uma vez.

De forma rápida, Solskjaer recuperou um grupo que parecia desacreditado, recolocou o time na briga pelo G-4 da PL e ainda deixou os fâs do PSG – adversário na Champions League – preocupados com o embate que antes parecia fácil. Dito isso, até onde o United de Solskjaer pode chegar?

A mudança de postura pós-Mourinho

De forma quase que unânime, era claro que a culpa do pobre futebol apresentado pelo United estava nas costas de José Mourinho, técnico que antecedeu o norueguês no cargo.

O português não era dono absoluto do fracasso, mas tinha grande responsabilidade. Com problemas com a maior estrela do time, Paul Pogba, e sem conseguir extrair o melhor de jovens como Rashford e Martial, José dificilmente agradava alguém.

Além disso, o gajo enxergava o elenco do United como limitado, fazendo com que não houvesse confiança no elo treinador-jogador. O padrão de jogo dos Red Devils também era um problema, pois não enchia os olhos de ninguém. Mas Solskjaer mudou isso.

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Em pouco tempo, o novo treinador recuperou as estrelas e promessas do grupo, trazendo consigo as vitórias. Claro que, como qualquer time, o United possui deficiências, mas a forma como Ole lidou com isso foi diferente.

Ele mostrou que estava ao lado dos jogadores, deu liberdade para eles jogarem futebol. Com mais posse e de maneira propositiva, a forma de enxergar o jogo do comandante casou com o estilo de seus jogadores.

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Vale ressaltar que o problema de Mourinho – como muitos apontam – não era o jogo reativo. Ser reativo possui suas vantagens. O problema era o anti-futebol, visto a inexistência de um padrão claro de jogo – além do padrão de jogar mal.

Virou rotina os Diabos Vermelhos decepcionarem em desempenho, gerando sempre o porém de que o material humano era agradável, mas o resultado era sempre aquém.

Obviamente faltou o empenho dos jogadores na reta final com Mou tal qual desempenham agora. No entanto, isso é mérito de Solskjaer. Num mundo futebolístico onde os atletas não conseguem confiar em ninguém – haja vista imprensa, dirigentes e torcida constantemente os cobrando – o treinador necessita passar a imagem de alguém confiável.

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O método do português de deixar os atletas no banco de reservas sem explicações prévias, ou até mesmo de criticá-los em público não tem a mesma eficácia.

Os jogadores simplesmente não queriam mais correr por ele – ainda que isso passe pela discussão deles representarem o clube e não o treinador, não deixa de ser um argumento válido.

Com Ole, o time não só passou a buscar pela vitória de forma incessante, como também o mérito e qualidade são priorizados.

Dessa forma, a torcida passou a ter esperanças mais uma vez. Não só pela forma de jogar – a qual agrada um público maior -, como também pelo resultado obtido a partir disso.

Os jogadores estão com ele. A postura é de um time vencedor. Nisso, entramos em mais um trunfo do novo treinador: a potencialização dos atletas após a mudança das atitudes em campo.

A recuperação de Pogba, Rashford e companhia

Logo que assumiu, o novo comandante fez questão de salientar que “montaria o time ao redor de Pogba”. A partir disso, o torcedor já pudera ter o ânimo renovado.

Com o antigo comandante, o mesmo Paul Pogba, campeão do mundo com a França, figurava no banco de reservas. Ele, inclusive, sequer entrou em campo na derrota para o Liverpool por 3 a 1, último jogo de Mou no comando.

Desde que Solskjaer tornou-se treinador do United, Labile é a alma do time. O jogo passa sempre por seus pés, ditando o ritmo e mostrando toda a genialidade a qual espera-se dele.

São cinco gols e quatro assistências, totalizando nove participações diretas em gols em seis jogos de Premier League.

Outro que teve seus números potencializados foi Rashford. Com Lukaku machucado, o camisa 10 assumiu o posto de “homem-gol” do time, tendo cinco gols e uma assistência até aqui.

Mesmo após o retorno do belga, Marcus permaneceu de forma inquestionável no time titular, haja vista o excelente desempenho do jovem atacante na “nova” função – com José, jogava de ponta.

Outro fator que com certeza é responsabilidade de Ole é a permanência dos jogadores. Sob comando do português, Valencia e Fellaini – jogadores saturados – eram presença constante no time.

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Além disso, De Gea, Martial e Pogba estavam constantemente ligados a rumores de transferência. Agora, a realidade se inverteu, e os jogadores que realmente estão no nível do Manchester United são valorizados e caminham para permanecer nessas terras durante um longo tempo.

Ademais, o time recuperou-se como um conjunto. Obviamente os jogadores já mencionados passaram a ter um protagonismo maior, mas não foram os únicos a evoluir.

Lindelof tornou-se dono da defesa, justificando o apelido de “Iceman” – homem de gelo – que ganhou em Portugal, quando ainda jogava pelo Benfica. Seguro, mostrou frieza para se recuperar depois de um início ruim no clube, exibindo performances cada vez mais sólidas.

Herrera voltou a ser o motorzinho que embalou o time outrora. Participando ativamente tanto do ataque quanto da defesa, o espanhol, atualmente, é peça vital para o bom funcionamento da equipe.

Isso porque, ele trouxe para Matic uma espécie de “desafogo”. O sérvio desempenhou muito bem na temporada passada, a primeira pelo clube.

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No entanto, mostrava claros sinais de desgaste antes da saída de Mourinho, visto que constantemente falhava nas partidas. Atualmente, forma uma excelente trinca no meio-campo com Ander e Pogba.

Lukaku e Sánchez também precisam ser mencionados. Ainda que tenham virado reservas de luxo com Solskjaer, estão mostrando sinais de que podem recuperar tanto a forma física, quanto o desempenho elevado que se espera dos mesmos.

O belga jogou cinco jogos com o novo comandante até aqui, saindo do banco em quatro deles. Em números, possui três gols, sendo dois em Premier League. Não são números espetaculares, mas que mostram como o treinador sabe utilizar os pontos fortes do plantel.

Ele, inclusive, fez questão de mostrar o bom relacionamento com Ole, dizendo que “ele entende o tipo de atacante que sou”. O que reforça a ideia da recuperação coletiva.

Sánchez ainda está tímido. Devendo em desempenho desde que chegou, jogou apenas dois jogos devido a uma lesão, mas conseguiu contribuir com duas assistências, sendo uma em PL.

O elenco pode não ser o melhor do mundo, mas possui ótimos talentos e estão cada vez mais sendo utilizados da melhor maneira pelo comandante interino.

Até onde poderá chegar o Manchester United em 2018-19?

Sexto colocado da Premier League com 44 pontos, classificado para as oitavas-de-final da UCL e para a fase dos 16 avos de final da Copa da Inglaterra. Essas sãos as competições onde o United pode erguer troféus na atual temporada.

Na PL, a situação é complicada, e o time provavelmente brigará apenas por uma vaga na próxima Champions League. Os Diabos Vermelhos devem rivalizar com Arsenal, Chelsea e Tottenham pelas duas vagas do G-4, visto que City e Liverpool fazem um campeonato à parte.

Vale ressaltar que disputar essa vaga é mérito do novo treinador. Ao assumir, a diferença para o quinto colocado Arsenal era de oito pontos. Atualmente, estão empatados em pontos, e os Gunners ficam na frente pelos critérios de desempate.

Já na Champions League, o cenário é no mínimo interessante. Ao ser realizado o sorteio, muitos torcedores davam a eliminação como certa, haja vista a realidade do clube naquele momento.

No entanto, o cenário é outro. A evolução do time é contínua, e ainda que o adversário seja o time de Neymar, Mbappé e Cavani, a classificação deixou de ser algo inimaginável para algo “palpável”.

Com o protagonismo de Pogba e Rashford, as ótimas atuações de Martial e Herrera, e a recuperação – completa – de Lukaku e Sánchez, o United pode alçar voos maiores na competição.

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Obviamente, a tarefa não será fácil. A defesa do time ainda passa por problemas, visto que Lindelof não possui um companheiro a altura.

Bailly, o favorito da maioria, não consegue sequência. Jones e Smalling estão claramente aquém do padrão do futebol de alto nível. Além de que é difícil a chegada de um grande nome para o setor na atual janela.

De todo modo, ambos os times possuem carências, encontrando o seu ponto forte no ataque. Resta saber se o “fator camisa” poderá pesar – novamente – contra o time de Paris.

No mais, ainda que a classificação não ocorra, o treinador conseguiu passar, no mínimo, a esperança/expectativa de um futuro próspero na competição.

Quem sabe o norueguês não repete o feito de Di Matteo, treinador interino do Chelsea o qual venceu a Champions League e a Copa da Inglaterra após assumir o clube de forma interina? Quem sabe.

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Por último, mas não menos importante – há controvérsias – a própria Copa da Inglaterra. Competição tradicionalíssima na terra da rainha, que mesmo não tendo o peso da PL e UCL, seria um ótimo prêmio para o treinador.

Como sua permanência no cargo é incerta, visto o desejo do clube em trazer Mauricio Pochettino para Manchester, o título teria um simbolismo enorme para o clube e para Solskjaer.

Isso porque, o treinador pode nunca mais voltar a pisar nessas terras com essa função, e um título seria a consolidação da “mudança de chave” que foi citada no início do texto.

Mesmo com tantas críticas, Mourinho não é o único responsável pelo caos instaurado até pouco tempo no clube. É uma instituição a qual precisa rever as suas prioridades quando o assunto é futebol.

Ed Woodward, CEO do clube, é fantástico nas finanças. Ele tornou o clube um dos mais ricos do mundo, mesmo em anos de poucos títulos de expressão. Mas, ele não pode ser o maior responsável por gerir o futebol.

O United, por muitas vezes, “esqueceu” que é um clube de futebol e da sua necessidade de grandes títulos, muito pela mentalidade de Woodward. E é aqui que Solskjaer entra.

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O comandante trouxe consigo a mentalidade do lendário Sir Alex Ferguson. Mentalidade esta, de buscar constantemente o sucesso dentro das quatro linhas, algo que tem faltado nos últimos tempos. O clube perdeu sua representatividade.

Sendo assim, Ole pode ser o responsável pelo início de uma varredura completa na estrutura dos Red Devils. Já começou em campo, com decisões mais coesas e priorizando os jogadores corretos.

Agora, isso precisa passar pela parte burocrática, e a chegada de um diretor de futebol será de suma importância para reconstrução do clube.

Independente do desfecho da temporada, Ole Gunnar Solskjaer já é vitorioso por ter feito essa torcida sorrir mais uma vez. Ele pode ir embora, pode ficar, mas com certeza estará eternizado na memória de todos. Não só pelos seus gols salvadores, ainda quando jogador, como também pela incrível retornada que vem proporcionando atualmente.